Eliane Cantanhêde
11/09/2001
O terrorismo, geralmente confinado a países religiosos, pobres, ignorantes e sectários, bateu em cheio na maior potência planetária. E o que é pior: tem muita gente comemorando essa forma bárbara de reagir à dominação única do universo. Uns, explicitamente. Outros, intimamente.
Na Palestina, pessoas foram às ruas para comemorar em ritmo de brasileiros em fim de Copa do Mundo (nos bons tempos, evidentemente...) Na União Européia, choverão notas oficiais de condenação semelhantes à do governo brasileiro. Mas há anos que França, Inglaterra e Alemanha, por exemplo, ressentem-se do poderio e da arrogância norte-americana.
Temem que os Estados Unidos devorem suas culturas, suas línguas, sua economia, suas finanças, sua hegemonia interna. Sua auto-estima, enfim.
Os atentados, é claro, são condenáveis sempre, em qualquer circunstância. Neste caso, devoram milhares de vidas humanas. Civis indefesos e inocentes. Mas também levam a uma reflexão sobre o fim da chamada "Guerra Fria" e a globalização. Como está ficando cada vez mais evidente, "globalização" é sinônimo de "americanização". E tem sido poderoso instrumento não apenas para cristalizar mas para potencializar as desigualdades. Os mais ricos se tornam cada vez mais ricos. Os mais fracos, cada vez mais fracos.
Hoje, os próprios Estados Unidos devem estar remoendo algo assim: "Ah, que saudade da Guerra Fria!". Antes, países, nações e ideologias dividiam suas emoções e apostas entre dois mundos, ou dois projetos, neutralizando as tensões. Hoje, criou-se um maniqueísmo. São todos contra um. Na física, a cada ação corresponde uma reação. Na política, quanto mais poder, mais forte e irada a reação.
Os Estados Unidos são, hoje, o centro do mundo. Todo o resto da humanidade se volta para ele quando pensa em finanças, em comércio, em política, em militarismo. Isso causa uma confusão de sentimentos que raia ao patológico: quanto mais dependência, mais ódio; quanto mais admiração, mais inveja.
A condenação aos atentados está sendo internacional e irrestrita, mas deve ser seguida de um alerta, principalmente porque o presidente norte-americano, George Bush, é um outro grave fator de preocupação. A maior potência está nas mãos de um fraco. E um fraco costuma ser capaz de tudo, inclusive de retaliações num caso como o de agora que podem deixar sequelas para sempre na história da humanidade.
O principal interessado num alerta tão histórico e tão dramático quanto atentados em série dentro dos Estados Unidos tem que ser os próprios Estados Unidos, o dono do mundo. Um mundo que se desenhou tão mal que, se não acabou ontem, está próximo do fim.
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Fim do mundo!
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As explosões nos Estados Unidos estão sendo os atentados mais espetaculares da história. Pearl Harbor era uma base militar distante e gerou uma guerra sem precedentes. Nova York é o centro do mundo.O terrorismo, geralmente confinado a países religiosos, pobres, ignorantes e sectários, bateu em cheio na maior potência planetária. E o que é pior: tem muita gente comemorando essa forma bárbara de reagir à dominação única do universo. Uns, explicitamente. Outros, intimamente.
Na Palestina, pessoas foram às ruas para comemorar em ritmo de brasileiros em fim de Copa do Mundo (nos bons tempos, evidentemente...) Na União Européia, choverão notas oficiais de condenação semelhantes à do governo brasileiro. Mas há anos que França, Inglaterra e Alemanha, por exemplo, ressentem-se do poderio e da arrogância norte-americana.
Temem que os Estados Unidos devorem suas culturas, suas línguas, sua economia, suas finanças, sua hegemonia interna. Sua auto-estima, enfim.
Os atentados, é claro, são condenáveis sempre, em qualquer circunstância. Neste caso, devoram milhares de vidas humanas. Civis indefesos e inocentes. Mas também levam a uma reflexão sobre o fim da chamada "Guerra Fria" e a globalização. Como está ficando cada vez mais evidente, "globalização" é sinônimo de "americanização". E tem sido poderoso instrumento não apenas para cristalizar mas para potencializar as desigualdades. Os mais ricos se tornam cada vez mais ricos. Os mais fracos, cada vez mais fracos.
Hoje, os próprios Estados Unidos devem estar remoendo algo assim: "Ah, que saudade da Guerra Fria!". Antes, países, nações e ideologias dividiam suas emoções e apostas entre dois mundos, ou dois projetos, neutralizando as tensões. Hoje, criou-se um maniqueísmo. São todos contra um. Na física, a cada ação corresponde uma reação. Na política, quanto mais poder, mais forte e irada a reação.
Os Estados Unidos são, hoje, o centro do mundo. Todo o resto da humanidade se volta para ele quando pensa em finanças, em comércio, em política, em militarismo. Isso causa uma confusão de sentimentos que raia ao patológico: quanto mais dependência, mais ódio; quanto mais admiração, mais inveja.
A condenação aos atentados está sendo internacional e irrestrita, mas deve ser seguida de um alerta, principalmente porque o presidente norte-americano, George Bush, é um outro grave fator de preocupação. A maior potência está nas mãos de um fraco. E um fraco costuma ser capaz de tudo, inclusive de retaliações num caso como o de agora que podem deixar sequelas para sempre na história da humanidade.
O principal interessado num alerta tão histórico e tão dramático quanto atentados em série dentro dos Estados Unidos tem que ser os próprios Estados Unidos, o dono do mundo. Um mundo que se desenhou tão mal que, se não acabou ontem, está próximo do fim.
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Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Participou intensamente da cobertura do choque entre o Boeing da Gol e o jato Legacy, em setembro de 2006. E-mail: elianec@uol.com.br |
