Alcino Leite Neto
20/09/2002
A Europa, por exemplo, tem algumas vantagens sobre os EUA no tópico "islamismo" _que é como os franceses denominam o proselitismo religioso e político, em oposição a "islã", palavra que designa o conjunto das sociedades e das culturas muçulmanas.
O passado colonial dos países europeus, com sua dominação em territórios da África do Norte, do Oriente Médio e da Ásia, deixou-lhes uma ampla experiência sobre o mundo muçulmano. O terrorismo tem também uma longa história na Europa. Nas últimas duas décadas, a França foi alvo de vários atentados, que levaram o país a desenvolver um forte sistema de prevenção e segurança e a acentuar a cooperação entre polícia e Justiça.
O pesquisador Jean-Luc Marret, da Fundação para a Pesquisa Estratégica, em Paris, e autor do ótimo livro "Técnicas do Terrorismo" (Techniques du Terrorisme, ed. PUF), conta, na entrevista abaixo, que a noção de vigilância de território aceita e adotada na França permite que agentes policiais vigiem as mesquitas e investiguem as facções religiosas e associações.
Esse trabalho não é feito apenas com os núcleos muçulmanos. Recentemente, quando um jovem neonazista tentou matar o presidente Jacques Chirac, a polícia francesa já sabia tudo a seu respeito, por manter vigilância constante sobre os movimentos extremistas.
"Nos EUA, o FBI não pode fazer isso, porque a Constituição americana impede vigiar cidadãos por causa de sua crença religiosa. Isso é um limite muito forte à ação do FBI", analisa Marret. A posição dos ingleses, com seu liberalismo, não é muito diferente, gerando situações ambíguas no Reino Unido. Ele cita que o governo fechou várias livrarias muçulmanas no pós-11 de setembro, mas os livros de propaganda continuam até agora disponíveis no catálogo da Amazon inglesa.
Segundo o pesquisador, o grande desafio a curto prazo da luta antiterrorista dos EUA será entender a expansão do islamismo no próprio território americano. "Eles não sabem muito do islamismo dentro do país", diz. A longo prazo, e mais importante ainda, será necessário encontrar meios de responder à frustração crescente da juventude árabe, que não se reconhece nos governos de seus países e, quando imigrada para o Ocidente, encontra problemas de integração.
***
Alguns dizem que o sistema de prevenção de ataques terroristas na França é melhor do que o dos EUA. É fato?
Jean-Luc Marret: Um avião leva cinco minutos para ir do aeroporto Charles de Gaulle até a Torre Eiffel, e não estou certo que faríamos melhor do que os americanos. É preciso ser modesto.
A Torre Eiffel seria o alvo preferido dos terroristas na França?
Marret: Depois dos anos 80, grupos terroristas já tentaram destruí-la por três vezes. Pesquisas mostram que ela é o símbolo por excelência que os americanos mais associam com a Europa.
O governo francês trabalha com quais hipóteses principais de atentado?
Marret: O custo de 3 mil mortos num atentando não é frequente. Na França, os especialistas se concentram mais na possibilidade, por exemplo, de um atentado com um grande caminhão que contenha material explosivo dentro. A nebulosa islamista vai utilizar isso mais cedo ou mais tarde. Parece inevitável também que seja usada alguma arma química ou biológica.
A França estaria preparada para enfrentar um ataque terrorista de tipo biológico?
Marret: Quando ouvimos a administração francesa competente, ela diz que está pronta. Eu penso que, como em qualquer administração especializada, de não importa qual país do mundo, nós seremos superados pelos acontecimentos.
Comenta-se também que os europeus e franceses estão muito melhor informados sobre os movimentos terroristas islâmicos do que os americanos...
Marret: Sim, por várias razões. Primeiro, por causa de nosso passado colonial e as relações históricas com o Magreb (países do norte da África, ex-colônias francesas). Depois, porque tivemos atentados terroristas islamistas no meio dos anos 90. Também porque há um laço profundo na França entre o sistema judicial e policial. Aqui, existe a noção de vigilância do território que permite, por exemplo, vigiar as mesquitas.
Como é feita essa vigilância?
Marret: É realizada por policiais, que em geral falam árabe. Eles vão escutar o que é dito ali, sentir o clima, saber se há gente mais violenta. Alguns encontram os jovens, nem sempre se apresentando forçosamente como policiais, para saber o que eles pensam.
No longo prazo, o principal problema com o terrorismo deriva da frustração da juventude árabe. Na França, na Alemanha, nos EUA, a luta terrorista no sentido policial do termo é necessária, mas não é suficiente. Se não resolvermos as chamadas origens estruturais da violência, nada se resolverá de fato.
O sentimento de grande parte dos jovens árabes de que o regime de seus países é corrompido, a frustração deles de não poderem participar dos modelos de consumo do Ocidente, e na Europa a de não se integrarem direito, a de não conseguirem emprego _tudo isso cria motivações muito profundas para a violência. Os EUA não prestam atenção nisso porque focalizam nos modos de impedir que haja vítimas americanas suplementares, o que é compreensível. Mas, se não dermos uma resposta a essa frustração dos jovens, por decênios e decênios haverá gente se tornando violenta.
Nos EUA, há também vigilância da comunidade muçulmana?
Marret: É algo que não pode ser feito lá, porque a Constituição americana impede que se vigie pessoas por causa de sua crença religiosa. Isso é um limite muito forte à ação do FBI. Os americanos sabem muito pouco do islamismo dentro de seu próprio país. Há pelo menos dez anos, o islamismo é também um problema em território americano.
Hoje, nos EUA, a comunidade muçulmana é mais numerosa que a anglicana e a batista. Há várias áreas desertas no país que podem estar servindo de lugares isolados de treinamento. Há todo um pequeno comércio árabe-americano que é perfeito para a lavagem de dinheiro. Há as ONGs, o setor associativo e as fundações, que são muito fortes nos EUA, porque os americanos favorecem a iniciativa privada nas questões sociais.
Há ainda a questão das fronteiras. Em 11 de setembro, havia uns 500 policiais na fronteira com o Canadá, enquanto havia mais de 100 mil na fronteira com o México. Sabe-se, contudo, que é fácil obter a nacionalidade canadense. Há casos concretos de argelinos que se naturalizaram canadenses para entrar nos EUA. Há, enfim, o problema dos convertidos. Sabe-se que há uma tradição de islã violento nos EUA _Malcolm X, Panteras Negras_, que perdura até hoje.
Os EUA também não têm quadros para atuarem na vigilância. Depois de 11 de setembro, a CIA fez um concurso para contratar pessoas que conhecessem o árabe, mas fizeram a seleção pensando na forma internacional desse idioma. O que conta, porém, é o árabe dialetal, falado nas ruas. Houve ingenuidade da parte dos americanos. Para formar alguém assim, que tenha conhecimento das formas dialetais do árabe, é preciso cinco ou seis anos.
O islamismo que os EUA desconhecem - Entrevista com Jean-Luc Marret
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As despesas militares dos EUA em 2000 foram de US 294,6 bilhões. As dos 15 países da União Européia (UE) atingiram pouco mais que a metade disso _US 154,3 bilhões. Apesar de sua inferioridade militar em relação aos EUA, a Europa foi e tem sido fundamental na chamada luta antiterrorista, naquilo que melhor sabe fazer: a informação e a cooperação policial.A Europa, por exemplo, tem algumas vantagens sobre os EUA no tópico "islamismo" _que é como os franceses denominam o proselitismo religioso e político, em oposição a "islã", palavra que designa o conjunto das sociedades e das culturas muçulmanas.
O passado colonial dos países europeus, com sua dominação em territórios da África do Norte, do Oriente Médio e da Ásia, deixou-lhes uma ampla experiência sobre o mundo muçulmano. O terrorismo tem também uma longa história na Europa. Nas últimas duas décadas, a França foi alvo de vários atentados, que levaram o país a desenvolver um forte sistema de prevenção e segurança e a acentuar a cooperação entre polícia e Justiça.
O pesquisador Jean-Luc Marret, da Fundação para a Pesquisa Estratégica, em Paris, e autor do ótimo livro "Técnicas do Terrorismo" (Techniques du Terrorisme, ed. PUF), conta, na entrevista abaixo, que a noção de vigilância de território aceita e adotada na França permite que agentes policiais vigiem as mesquitas e investiguem as facções religiosas e associações.
Esse trabalho não é feito apenas com os núcleos muçulmanos. Recentemente, quando um jovem neonazista tentou matar o presidente Jacques Chirac, a polícia francesa já sabia tudo a seu respeito, por manter vigilância constante sobre os movimentos extremistas.
"Nos EUA, o FBI não pode fazer isso, porque a Constituição americana impede vigiar cidadãos por causa de sua crença religiosa. Isso é um limite muito forte à ação do FBI", analisa Marret. A posição dos ingleses, com seu liberalismo, não é muito diferente, gerando situações ambíguas no Reino Unido. Ele cita que o governo fechou várias livrarias muçulmanas no pós-11 de setembro, mas os livros de propaganda continuam até agora disponíveis no catálogo da Amazon inglesa.
Segundo o pesquisador, o grande desafio a curto prazo da luta antiterrorista dos EUA será entender a expansão do islamismo no próprio território americano. "Eles não sabem muito do islamismo dentro do país", diz. A longo prazo, e mais importante ainda, será necessário encontrar meios de responder à frustração crescente da juventude árabe, que não se reconhece nos governos de seus países e, quando imigrada para o Ocidente, encontra problemas de integração.
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Alguns dizem que o sistema de prevenção de ataques terroristas na França é melhor do que o dos EUA. É fato?
Jean-Luc Marret: Um avião leva cinco minutos para ir do aeroporto Charles de Gaulle até a Torre Eiffel, e não estou certo que faríamos melhor do que os americanos. É preciso ser modesto.
A Torre Eiffel seria o alvo preferido dos terroristas na França?
Marret: Depois dos anos 80, grupos terroristas já tentaram destruí-la por três vezes. Pesquisas mostram que ela é o símbolo por excelência que os americanos mais associam com a Europa.
O governo francês trabalha com quais hipóteses principais de atentado?
Marret: O custo de 3 mil mortos num atentando não é frequente. Na França, os especialistas se concentram mais na possibilidade, por exemplo, de um atentado com um grande caminhão que contenha material explosivo dentro. A nebulosa islamista vai utilizar isso mais cedo ou mais tarde. Parece inevitável também que seja usada alguma arma química ou biológica.
A França estaria preparada para enfrentar um ataque terrorista de tipo biológico?
Marret: Quando ouvimos a administração francesa competente, ela diz que está pronta. Eu penso que, como em qualquer administração especializada, de não importa qual país do mundo, nós seremos superados pelos acontecimentos.
Comenta-se também que os europeus e franceses estão muito melhor informados sobre os movimentos terroristas islâmicos do que os americanos...
Marret: Sim, por várias razões. Primeiro, por causa de nosso passado colonial e as relações históricas com o Magreb (países do norte da África, ex-colônias francesas). Depois, porque tivemos atentados terroristas islamistas no meio dos anos 90. Também porque há um laço profundo na França entre o sistema judicial e policial. Aqui, existe a noção de vigilância do território que permite, por exemplo, vigiar as mesquitas.
Como é feita essa vigilância?
Marret: É realizada por policiais, que em geral falam árabe. Eles vão escutar o que é dito ali, sentir o clima, saber se há gente mais violenta. Alguns encontram os jovens, nem sempre se apresentando forçosamente como policiais, para saber o que eles pensam.
No longo prazo, o principal problema com o terrorismo deriva da frustração da juventude árabe. Na França, na Alemanha, nos EUA, a luta terrorista no sentido policial do termo é necessária, mas não é suficiente. Se não resolvermos as chamadas origens estruturais da violência, nada se resolverá de fato.
O sentimento de grande parte dos jovens árabes de que o regime de seus países é corrompido, a frustração deles de não poderem participar dos modelos de consumo do Ocidente, e na Europa a de não se integrarem direito, a de não conseguirem emprego _tudo isso cria motivações muito profundas para a violência. Os EUA não prestam atenção nisso porque focalizam nos modos de impedir que haja vítimas americanas suplementares, o que é compreensível. Mas, se não dermos uma resposta a essa frustração dos jovens, por decênios e decênios haverá gente se tornando violenta.
Nos EUA, há também vigilância da comunidade muçulmana?
Marret: É algo que não pode ser feito lá, porque a Constituição americana impede que se vigie pessoas por causa de sua crença religiosa. Isso é um limite muito forte à ação do FBI. Os americanos sabem muito pouco do islamismo dentro de seu próprio país. Há pelo menos dez anos, o islamismo é também um problema em território americano.
Hoje, nos EUA, a comunidade muçulmana é mais numerosa que a anglicana e a batista. Há várias áreas desertas no país que podem estar servindo de lugares isolados de treinamento. Há todo um pequeno comércio árabe-americano que é perfeito para a lavagem de dinheiro. Há as ONGs, o setor associativo e as fundações, que são muito fortes nos EUA, porque os americanos favorecem a iniciativa privada nas questões sociais.
Há ainda a questão das fronteiras. Em 11 de setembro, havia uns 500 policiais na fronteira com o Canadá, enquanto havia mais de 100 mil na fronteira com o México. Sabe-se, contudo, que é fácil obter a nacionalidade canadense. Há casos concretos de argelinos que se naturalizaram canadenses para entrar nos EUA. Há, enfim, o problema dos convertidos. Sabe-se que há uma tradição de islã violento nos EUA _Malcolm X, Panteras Negras_, que perdura até hoje.
Os EUA também não têm quadros para atuarem na vigilância. Depois de 11 de setembro, a CIA fez um concurso para contratar pessoas que conhecessem o árabe, mas fizeram a seleção pensando na forma internacional desse idioma. O que conta, porém, é o árabe dialetal, falado nas ruas. Houve ingenuidade da parte dos americanos. Para formar alguém assim, que tenha conhecimento das formas dialetais do árabe, é preciso cinco ou seis anos.
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Alcino Leite Neto, 46, é editor de Domingo da Folha e editor da revista eletrônica Trópico. Foi correspondente em Paris e editor do caderno Mais! Escreve para a Folha Online quinzenalmente, às segundas. E-mail: aleite@folhasp.com.br |
