Pensata

Alcino Leite Neto

24/05/2003

O pensamento-slogan domina o Brasil

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Quem retorna ao Brasil depois de muito tempo deveria ser colocado em quarentena. Durante alguns bons dias, o sujeito passaria por um processo de readaptação, recebendo aos poucos os indícios da realidade que irá encontrar aqui fora. Deste modo, evitaria toda uma série de traumas que poderia sofrer. Por exemplo, o trauma que é perceber que os brasileiros estão com a mania de se exprimirem por meio de slogans.

Poucos parecem ter idéias próprias. Em toda parte, das conversas informais à imprensa, o pensamento-slogan domina o país. É bastante difícil, mesmo entre gente cultivada, ouvir uma frase que já não se tenha ouvido antes, um raciocínio que escape da regra geral.

Bastam dois minutos de conversa, e as pessoas começam a desfilar para o recém-chegado ao Brasil o calvário dos consensos: as agruras da violência urbana, os males do cigarro, as glórias do cinema nacional, as vilezas do governo americano, o conservadorismo do governo Lula e por aí vai.

A maneira como se adaptam aos conceitos e fórmulas distribuídos gratuitamente pela mídia é impressionante. Num átimo, estão todos falando de "radicais do PT" e "dirigismo cultural". Felizes e apressados, os brasileiros raramente param para pensar nem temem as palavras -e levam desembrulhadas as ideologias embutidas.

Não é à toa que a publicidade no país é tão bem-sucedida e o governo gasta tanto em propaganda. Aqui elas funcionam mesmo. O slogan é a maneira que o Brasil descobriu para se proteger do mundo volúvel e da impotência cotidiana. O discurso repetitivo cria familiaridade com as coisas adversas, aquebranta a estranheza. As altas e baixas do dólar, por exemplo, são vividas como capítulos de uma longa telenovela. O resultado deste entretenimento financeiro é basicamente a domesticação das consciências no mundo da selvageria econômica.

A violência urbana!... Chegamos a um ponto em que o discurso sobre a violência é tão violento quanto a violência ela mesma. Não apenas por ser muitas vezes um discurso regressivo e repressivo, mas sobretudo por ser um discurso-obsessão que mina por dentro a autonomia da consciência. Apavorados como pequenos seres hobbesianos, todos vamos nos tornando singelos servos voluntários.

Os males do cigarro!... Certamente não são poucos, mas não são menores os maléficios da mania de saúde que tomou conta da mentalidade dos brasílicos. É só alguém começar com o assunto, e de repente estão todos travando um polemicíssimo debate sobre vida saudável e técnicas de regime numa roda de amigos. A classe média vive como gozo o seu suplício nas academias de ginástica lotadas, enquanto o que se vê na rua são pessoas cada vez mais gordas, de barrigas avançadas e bundas portentosas.

As glórias do cinema nacional!... Há outros chavões na cultura pátria, mas este é atualmente um dos mais pavorosos. O cinema é hoje a linha de frente do novo kitsch brasileiro.

O novo kitsch brasileiro!... Está em todo canto, é uma febre coletiva, uma síndrome como a gripe chinesa. Quando menos se espera, alguém espirra o vírus fúcsia do kitsch em nosso rosto. Será que os brasileiros votaram em Lula de fato para que o país se renovasse, ou para que ele ficasse mais igual do que o igual? A conversão neoliberal do PT é um hiperrealismo político, uma das guinadas mais kitsch da esquerda contemporânea.
Alcino Leite Neto, 46, é editor de Domingo da Folha e editor da revista eletrônica Trópico. Foi correspondente em Paris e editor do caderno Mais! Escreve para a Folha Online quinzenalmente, às segundas.

E-mail: aleite@folhasp.com.br

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