Pensata

Antonio Carlos de Faria

06/11/2001

Um biquíni não faz verão

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Tarde chuvosa e Copacabana parece mais aconchegante, mais íntima. O verão vem, mas hoje não há biquínis anunciando a estação -quase todas as andorinhas ficaram nos apartamentos.

Desse botequim só dá para ver algumas sombrinhas que passam a caminho do inefável, que pode ser o supermercado, a manicure, a casa do amante, o cinema ou aquilo que não se pode exprimir por palavras.

Sob a chuva, vão e deixam uma estranha saudade. Será que ela também passou? Por onde estará agora? Será que cuida dos gatos de rua? Será que lê mais um livro sobre o propósito da vida?

O botequim é um pé sujo de respeito. Assim são as versões cariocas dos cafés -o espaço da sociabilidade urbana, onde cada um é velho conhecido do mais novo frequentador.

No pé sujo, bebe-se o chope cremoso quase sempre em pé. Raramente há mesas e cadeiras. Mesmo que existam, como acontece aqui, é imperativo uma atualização sobre os fatos do bairro, sobre as notícias do mundo, e nada melhor do que uma conversa no balcão com o dono do estabelecimento.

O português de olhos espertos e conversa rápida, logo conta sobre a viúva do prédio ao lado. Veja só, há vários dias que a mulher não sai de casa, com medo de se contaminar por antraz.

Pede-lhe tudo o que precisa por telefone. Anda achando que o botequim tem cara de armazém, ralha, falsamente indignado. Certas coisas ele tem de buscar em outros lugares, para depois entregar.

Mas por que faz isso? Ora, pois. Ela é velha conhecida e, ao mesmo tempo, nem tão velha assim. Então, em honra do acontecido e das possibilidades, o melhor é atender aos seus desejos.

Medo do antraz, não é exagero? Claro que é, concorda, mas há gente que, depois de espirrar com o pó da casa, já fica pensando que é vítima do bioterrorismo, o senhor não sabe?

A chuva pára e as sombrinhas se fecham. Mesmo com o dia nublado, parece que a rua fica mais radiante, porque as andorinhas voltam.

Uma entra pelo bar num vôo curto, resvala por entre os fregueses, demonstra buscar alguém e, enquanto está lá, tudo flutua em segundos de expectativa. Mas sai e vai embora, talvez para o próximo bar ou para o inefável. Fico olhando sua saída e sinto pena por não ser eu quem ela procurava.
Antonio Carlos de Faria é jornalista e vive no Rio de Janeiro. Escreve para a Folha Online às quintas

E-mail: acafaria@uol.com.br

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