Antonio Carlos de Faria
14/11/2002
Os dois se conheceram na festa de final de ano da empresa. Esbarraram-se em torno da mesa de frios e trocaram sorrisos de surpresa ao constatar que haviam composto pratinhos semelhantes. Apenas queijos, pão italiano e tomate seco.
-Agora só falta você pedir prosseco, ele gracejou, tomando a iniciativa de uma aproximação.
-Vou pedir para dois, disse ela, iluminando as imediações com um sorriso meigo.
A partir daí a conversa fluiu. Ambos não comiam carne. Ela, por amor aos bichos. Ele apenas seguia recomendações médicas para reduzir o colesterol. Adoro frios, mas são verdadeiros venenos. Venenos, entende?
Claro, mas e os queijos, ela questionou, não são perigosos? Temos que nos permitir alguns desejos, disse ele, com um sorriso maroto. É, isso faz bem à saúde, concordou a moça, que não devia ser funcionária, pois não exibia o crachá obrigatório.
A última resposta o pegou enquanto mordia sua fatia de pão. Com a boca cheia, não conseguiu manter a conversa. Na ânsia de não perder o timing, mastigou mais rápido e tomou o espumante. Queria engolir logo, para falar alguma coisa. Acabou engasgando.
O pão obstruiu sua garganta. Começou a tossir e a ficar roxo. A moça se apressou em lhe abanar com um prato de papel, porém a iniciativa não surtiu resultados.
As pessoas ao lado perceberam sua dificuldade em respirar e um sujeito forte, que trabalhava no almoxarifado, o atingiu com um tapa vigoroso nas costas. Junto com o pão, também foi expelido algo que ele definiu como o resquício de sua dignidade.
Ao se recobrar, não viu mais a moça. Distribuiu risinhos de assentimento aos colegas que lhe recomendaram não ir com tanta sede ao pote. Afinal, engasgando daquele jeito, corria o risco de não estar presente nas festinhas dos próximos anos.
Estava se lixando para as festas futuras, queria era consumar a atual. Por isso saiu pelo escritório, procurando a misteriosa sem crachá. A encontrou abraçada com o dono da empresa. O casal estava em uma roda de diretores e respectivas mulheres.
Ele estacou diante da cena. Os segundos pareceram intermináveis. Um desejo urgente acabou rompendo seu encanto. Voltou rapidamente para a mesa do encontro original. Com sorte, ainda iria encontrar presuntos, salames, rosbifes e, de quebra, carpaccio.
Colesterol
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Os dois se conheceram na festa de final de ano da empresa. Esbarraram-se em torno da mesa de frios e trocaram sorrisos de surpresa ao constatar que haviam composto pratinhos semelhantes. Apenas queijos, pão italiano e tomate seco.
-Agora só falta você pedir prosseco, ele gracejou, tomando a iniciativa de uma aproximação.
-Vou pedir para dois, disse ela, iluminando as imediações com um sorriso meigo.
A partir daí a conversa fluiu. Ambos não comiam carne. Ela, por amor aos bichos. Ele apenas seguia recomendações médicas para reduzir o colesterol. Adoro frios, mas são verdadeiros venenos. Venenos, entende?
Claro, mas e os queijos, ela questionou, não são perigosos? Temos que nos permitir alguns desejos, disse ele, com um sorriso maroto. É, isso faz bem à saúde, concordou a moça, que não devia ser funcionária, pois não exibia o crachá obrigatório.
A última resposta o pegou enquanto mordia sua fatia de pão. Com a boca cheia, não conseguiu manter a conversa. Na ânsia de não perder o timing, mastigou mais rápido e tomou o espumante. Queria engolir logo, para falar alguma coisa. Acabou engasgando.
O pão obstruiu sua garganta. Começou a tossir e a ficar roxo. A moça se apressou em lhe abanar com um prato de papel, porém a iniciativa não surtiu resultados.
As pessoas ao lado perceberam sua dificuldade em respirar e um sujeito forte, que trabalhava no almoxarifado, o atingiu com um tapa vigoroso nas costas. Junto com o pão, também foi expelido algo que ele definiu como o resquício de sua dignidade.
Ao se recobrar, não viu mais a moça. Distribuiu risinhos de assentimento aos colegas que lhe recomendaram não ir com tanta sede ao pote. Afinal, engasgando daquele jeito, corria o risco de não estar presente nas festinhas dos próximos anos.
Estava se lixando para as festas futuras, queria era consumar a atual. Por isso saiu pelo escritório, procurando a misteriosa sem crachá. A encontrou abraçada com o dono da empresa. O casal estava em uma roda de diretores e respectivas mulheres.
Ele estacou diante da cena. Os segundos pareceram intermináveis. Um desejo urgente acabou rompendo seu encanto. Voltou rapidamente para a mesa do encontro original. Com sorte, ainda iria encontrar presuntos, salames, rosbifes e, de quebra, carpaccio.
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Antonio Carlos de Faria é jornalista e vive no Rio de Janeiro. Escreve para a Folha Online às quintas E-mail: acafaria@uol.com.br |

