Pensata

Valdo Cruz

25/09/2007

A hora da caça

Base aliada em crise, articulador político acuado e uma batalha tida como vencida ainda em pleno fogo cruzado. Uma mistura nada agradável que o governo terá de absorver nessa semana, caso queira superar obstáculos que ponham em risco a prorrogação da CPMF, o imposto do cheque, aquilo de fato interessa ao presidente Lula no Congresso.

O fato é que o governo já havia comemorado a aprovação da CPMF em primeiro turno na Câmara, já se preocupava apenas com o cenário hostil que o aguarda no Senado e agora descobriu que nem a primeira fase está resolvida. Recebeu recados, melhor dizendo, ameaças de que o jogo pode mudar ainda na votação daquilo que se chama por aqui de emendas ao projeto original.

O negócio funciona mais ou menos assim. Os deputados votam o texto principal de um projeto ou emenda constitucional, caso da CPMF. Depois, porém, são obrigados a votar separadamente algumas propostas de modificações apresentadas por aliados e opositores. Na votação do imposto do cheque, a oposição apresentou alguns pedidos de supressão do texto original. Nesse tipo de votação, o governo tem de conseguir 308 votos para manter aquilo que já aprovou. Algo que soa estranho, mas é assim que funciona.

Para concluir a votação em primeiro turno na Câmara, o governo tem de votar cerca de 20 propostas de modificação. Delas, seis são de pedidos de supressão. Uma, dos tucanos, bastante indigesta. Simplesmente suprime da emenda constitucional todo o artigo que trata da CPMF. Em outras palavras, se o governo não reunir 308 votos, a proposta de prorrogar o imposto do cheque desaparece ali mesmo.

Um prato cheio para aqueles deputados que estão pra lá de insatisfeitos com o governo. No primeiro turno, muita gente votou com o Palácio do Planalto com a promessa de que receberia a recompensa depois de concluída a votação. Só que a surpresa veio na semana passada, quando o governo nomeou petistas para diretorias da Petrobras e deixou aliados a ver navios, sem a garantia de que seus pleitos seriam atendidos.

A grita foi parar no gabinete do ministro Walfrido dos Mares Guia, o articulador político do governo. Deputados que bateram em sua porta ouviram como resposta que no caso da estatal petrolífera a decisão não cabe a ele, mas à chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff --que não faz nada sem o aval do senhor presidente da República, aquele que é o principal interessado na prorrogação da CPMF.

Trocando em miúdos. Lula criou confusão para si mesmo e agora é alvo de ameaças e chantagens. Que vão ficar nisso. Afinal, de um lado o Palácio do Planalto não pode ficar sem a grana do imposto do cheque. Do outro, um contingente considerável de deputados não consegue viver sem um apadrinhado num cargo público, de preferência com grande poder de fogo. Um não consegue viver sem o outro.

Mas vai dar trabalho. Ainda mais no momento em que aquele que tem a tarefa de coordenar os interesses do governo no Congresso está na defensiva, sendo obrigado a responder acusações de tudo que é lado. Walfrido dos Mares Guia tem dito a amigos que não pretende deixar o presidente na mão e vai tocar a vida, até que a Procuradoria Geral da República decida se inclui seu nome na denúncia do valerioduto mineiro. Só depois decidiria seu futuro.

Só que Mares Guia virou o alvo preferido do momento. E não tem sido poupado nem pelos pretensos aliados. Boa parte do chumbo grosso que tem levado parte de petistas insatisfeitos com a perda de espaço no governo. Esse grupo usa como munição as acusações contra o ministro contidas no relatório da Polícia Federal, que ele garante não serem verdadeiras.

E assim a vida segue em Brasília. Tudo que deveria ser anormal é visto com a maior naturalidade pela fauna da cidade. Governo trabalha contra governo, aliado atira em aliado, e no final das contas a conta fica mais cara. Quem acaba pagando a conta é você, caro leitor.

Tudo como antes

Por falar no tema, é incrível como os políticos de Brasília tratam as nomeações para cargos públicos com a maior naturalidade. Têm até o discurso pronto, de que se apóiam o governo nada mais justo do que participar dele. Se fosse só isso... A verdade é que a direção de uma estatal é usada por muito político para fazer sua barganha com futuros doadores de campanha. Um contrato aqui, uma promessa de doação ali. Quando não descamba para corrupção mesmo, situação muito freqüente. E mesmo com casos e casos já revelados, de que esse tipo de política fisiológica mais desserve do que serve ao país, ela continua a pleno vapor. Nesse e em todos os últimos governos.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 46, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal e atuou como repórter de economia. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

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