Valdo Cruz
Bola de cristal
A piora da crise econômica mundial chegou um pouco atrasada. Tivesse se manifestado nessa magnitude em dezembro o governo Lula estaria agora mais tranquilo. Explico: dificilmente num cenário como o atual a oposição, principalmente o PSDB, teria derrubado a CPMF. O raciocínio não é dela, é de outro assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) faz um comentário que se encaixa bem nesse contexto. Segundo ela, o Brasil enfrentaria a crise "com mais robustez" se ainda contasse com os R$ 40 bilhões do imposto do cheque. Não conta. Pelo contrário, tem de descobrir como cortar gastos para tapar o buraco.
Bem, mas isso são águas passadas, que não movem o moinho da política econômica brasileira. O jeito é se preparar para lidar com o desarranjo na economia norte-americana. No curto prazo, não há muitas opções, a não ser endurecer as políticas monetária e fiscal. Podia ser diferente. Se estamos numa boa situação hoje, ela tinha tudo para ser muito melhor. Mas o governo Lula desistiu de enfrentar alguns temas espinhosos. Fingiu que desejava uma reforma da Previdência e empurrou com a barriga projetos criando travas no aumento dos gastos públicos.
Mesmo assim, a equipe econômica acredita que o país tem tudo para sair dessa confusão mundial com poucos arranhões. O ministro Guido Mantega (Fazenda), por exemplo, mantém o otimismo e ainda crê ser possível um crescimento de 5%, enquanto o Banco Central aposta numa taxa menor, de 4,5%. Aos incrédulos, que não são poucos, a equipe de Mantega lembra que ninguém acreditava que o país cresceria 5% em 2007 como vaticinava o chefe. Agora, apostam, a taxa de crescimento do ano passado pode surpreender e ficar acima de 5,2%.
Olha, diante das previsões de que as turbulências no mercado financeiro não têm data para terminar, dificilmente a bola de cristal de Mantega vai voltar a funcionar. Não que esteja torcendo contra. Pelo contrário. Não vou me importar nem um pouco se, no final do ano, constatar que estava errado. Mas é muito provável que essa crise vá reduzir o crescimento brasileiro. Cálculos de especialistas, além dos do Banco Central, foram repassados ao governo indicando que a crise americana custará pelo menos 0,50 ponto percentual do nosso PIB nesse ano. Ou seja, algo mais próximo das projeções do BC, de um crescimento de 4,5%.
A Dilma...
Dilma Rousseff, gerente do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), mantém o discurso de que não deseja ser candidata na sucessão do chefe Luiz Inácio Lula da Silva. Talvez ela até acredite no que está falando, mas não consegue convencer ninguém. O fato é que em Brasília e fora dela muita gente trata a ministra como candidata. Pois bem, recentemente um instituto fez pesquisas qualitativas cujo resultado mostram que, se o desejo oculto da ministra realmente é suceder Lula, ela terá de trabalhar muito.
Bem, pesquisas qualitativas são aquelas em que um grupo de pessoas é reunido para falar sobre determinados temas. Esse instituto fez algumas perguntas em que o nome da ministra da Casa Civil era citado. Por exemplo, perguntavam se conheciam a Dilma, gerente do PAC. Aí, muita gente foi logo perguntando que PAC era aquele. Ou seja, o programa do presidente Lula, criado para destravar o crescimento do país, ainda não caiu no imaginário popular. Já quando a pergunta falava no Patrus Ananias, do Bolsa Família, todo mundo sabia dizer de que programa se tratava. Ou seja, no momento, é mais fácil relacionar o ministro Patrus com o principal programa social do governo do que o nome de Dilma com o PAC. E, no momento, boa parte dos especialistas dizem que seu potencial eleitoral vai depender de o programa vingar ou não. A conferir.
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Valdo Cruz, 46, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal e atuou como repórter de economia. Escreve às terças. E-mail: valdo@folhasp.com.br |
