Valdo Cruz
Longe, muito longe do ideal
Pois bem, tudo indica que vamos sobreviver ao Carnaval. Por enquanto, o movimento dos aeroportos brasileiros não repete o mesmo caos com o qual nós, brasileiros, já estávamos aprendendo a conviver e suportar. Sinal de que o trabalho da dupla Nelson Jobim/Solange Paiva Vieira começa a apresentar resultados. Estamos longe, bem longe, contudo, de comemorar. No máximo, é um momento de alívio.
O risco é a turma do Palácio do Planalto acreditar que está tudo de volta ao normal e deixar de tratar o tema como prioridade. Afinal, o caos pode voltar a reinar nos aeroportos brasileiros. Até aqui, as medidas adotadas pelo Ministério da Defesa e pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) surtiram efeito, mas não resolvem os problemas de médio e longo prazo do setor.
O principal gargalo está em São Paulo. Se o país continuar crescendo acima de 4,5%, como é a expectativa do governo e de analistas do mercado, em pouco tempo os aeroportos paulistas ficarão completamente inviáveis. Afinal, a estimativa é que o movimento aéreo brasileiro mantenha um crescimento acima do registrado pelo país. As previsões apontam para algo como 8% ao ano até 2010, lembrando que no ano passado foi até maior, de 15%.
Daí que investir na expansão da capacidade aeroportuária do país é fundamental não só em nome do conforto dos passageiros, mas também e principalmente para evitar travas para o crescimento brasileiro. Até aqui, porém, não há muito consenso dentro do governo sobre o que fazer. Tem gente que é a favor, por exemplo, da construção de um terceiro aeroporto no Estado, proposta que tende a ser a escolhida. E há quem defenda expandir o aeroporto de Viracopos, em Campinas.
Operando hoje abaixo de sua capacidade --comporta 2 milhões de passageiros/ano, mas tem recebido 1 milhã--, Viracopos reúne as condições necessárias para uma expansão com um bom custo/benefício. Poderia passar de uma para quatro pistas e elevar sua capacidade para algo na casa dos 80 milhões de passageiros por ano. Seu problema é a distância entre Campinas e São Paulo, cerca de cem quilômetros, que poderia ser superado com a construção do trem bala ligando as duas cidades. Medida que, por sinal, já consta do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
Seja qual for o projeto escolhido, sua concepção e execução já estão atrasadas. Afinal, os dois principais aeroportos de São Paulo já operam hoje acima de sua capacidade. O de Congonhas está projetado para receber 12 milhões de passageiros por ano. Ficou bem acima disso no ano passado. Algo na casa de 15,2 milhões de pessoas transitaram por lá em 2007. Guarulhos suporta, segundo seu projeto atual, um movimento de 17 milhões de passageiros por ano. Também está operando além de sua capacidade. Em 2007, foram cerca de 18,8 milhões.
Até que sejam feitos investimentos para expandir fisicamente a capacidade dos aeroportos paulistas, algumas soluções são aventadas, mas acabam esbarrando na resistência de companhias aéreas. Por exemplo, o aumento nas tarifas pelo tempo de permanência de aviões nos pátios do aeroporto de Guarulhos. Uma medida que visa forçar a transferência de alguns vôos para outras cidades, principalmente de companhias internacionais. Hoje, cerca de vinte aeronaves ficam estacionadas em Guarulhos por mais de dez horas. Se parte desses vôos fosse direcionada para outros aeroportos, a capacidade daquele aeroporto poderia ser aumentada. A medida, contudo, tende a não vingar.
Motim
É bom lembrar também que não estamos livres de um novo motim por parte dos controladores de tráfego aéreo, um dos componentes da crise que o brasileiro foi obrigado a enfrentar transitando pelos céus do país. Até agora o governo não solucionou o problema salarial desses profissionais. No auge dos transtornos aéreos, a equipe do presidente Lula reconheceu que a remuneração dos controladores deveria ser melhorada. Vai acabar descobrindo que realmente precisa elevar o salário dessa turma só quando ela entrar em greve de novo. Claro que ficou mais difícil, depois que o presidente Lula corrigiu o erro de deixar um ministro civil --na época, Waldir Pires-- ficar dando declarações estimulando controladores militares a cruzarem os braços. Mas o problema continua aí, prontinho para detonar novas confusões nos céus do país.
Bendita transparência
Na crise dos cartões corporativos, a transparência funcionou. Falhou, e feio, a fiscalização do governo. Os dados indicando o uso completamente irregular dos cartões estavam disponíveis na internet. O que realmente não é compreensível é como a Controladoria Geral da União não conseguiu detectar os desvios que vinham sendo praticados por ministros e funcionários públicos. De forma generalizada.
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Valdo Cruz, 46, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal e atuou como repórter de economia. Escreve às terças. E-mail: valdo@folhasp.com.br |
