Pensata

Valdo Cruz

08/04/2008

O fogo já começou

Publicidade

O presidente Lula disse que há risco de incêndio no Palácio do Planalto. Justificava, assim, a decisão de reformar a sede do Executivo e transferir provisoriamente seu gabinete de trabalho para outro prédio. Agora, o petista pode não estar percebendo, mas o fogo já começou e ameaça tomar conta do quarto andar do Planalto, onde fica alojada a Casa Civil. E não esperem que a Polícia Federal compareça com extintores para debelar os focos de incêndio. Mesmo orientada oficialmente a buscar apenas o responsável pelo vazamento do dossiê sobre os gastos tucanos, o histórico de investigações da PF indica que ela costuma ir além. E, no caso atual, não deve diferente.

Afinal, se a Polícia Federal realmente chegar ao vazador --se ele realmente existir, não será tarefa muito difícil--, saber quem foi o responsável pela montagem do dossiê será bem fácil. Ou será ele próprio o mentor do documento. Ou saberá, com certeza, quem o fez. Bastará a PF fazer algumas perguntinhas para elucidar o caso completamente.

Só que existem alguns pequenos detalhes, diríamos assim, para se chegar ao final dessa novela. Primeiro, o novelo em que o governo se enrolou desde o início. Até aqui, ele não admite que o dossiê publicado por Veja e Folha, principalmente, tenha saído tal como chegou às páginas da imprensa de dentro do Palácio do Planalto. Só que tudo aponta que foi exatamente isso que aconteceu. E aí, como fica se a PF comprovar esse caminho? Alguém cai? Quem cai? Ou o governo vai começar a desembarcar dessa versão e optar por assumir oficialmente o que alguns ministros já dizem reservadamente: o banco de dados não tem nada de mais, só informações sobre os gastos de FHC, sua mulher Ruth Cardoso e auxiliares? E as anotações indicando um viés político contido nas páginas do dossiê?

São perguntas que a PF poderá ajudar a responder. Por sinal, ela pode muito bem chegar à conclusão final de que não houve um vazador. Alguém do Palácio do Planalto pode ter se encarregado de fazer o dossiê chegar às mãos de aliados no Congresso. E dali a papelada teria chegado a um gabinete oposicionista. O fato é que a novela do dossiê tem enredo elaborado por governistas. Pode muito bem estar sendo reescrita e ganhando novas versões nas mãos de oposicionistas. Mas isso não apaga o arquivo inicial, a sinopse, que tem digitais para lá de oficiais.

Mais fumaça do que fogo

Por falar em fogo, o governo Lula passou os últimos dias anunciando que faria um corte maior do que o previsto inicialmente. Objetivo: tentar brecar a ameaça do Banco Central de subir os juros. Tudo bem, veio o anúncio do tamanho do corte, foi realmente maior do que o previsto. Só que junto foi divulgado também que ele estava sendo feito por conta de um aumento de despesas que consome praticamente na totalidade o bloqueio de R$ 19,4 bilhões divulgado pela equipe econômica. Em outras palavras, o corte aumentou, mas para cobrir despesas que subiram na mesma proporção. Em alguns lugares isso pode muito bem ser chamado de cortar fumaça.

E por falar em cortes

Não é que o FMI (Fundo Monetário Internacional) decidiu, enfim, seguir sua própria receita. Anunciou corte de despesas e venda de ativos para cobrir um déficit nas suas contas. É no mínimo irônico ter acesso a essa informação. O Fundo, que sempre pregou a austeridade fiscal a países emergentes e subdesenvolvidos, estava gastando além da conta.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca