Valdo Cruz
Dados alarmantes e intrigantes
Saiu mais uma pesquisa sobre o índice de desmatamento na Amazônia. Como antecipado pelo próprio ministro Carlos Minc (Meio Ambiente), subiu. Os dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) alertam que 1.123 quilômetros quadrados de florestas podem ter sido derrubados somente no mês de abril. Uma área equivalente à cidade do Rio de Janeiro. São números alarmantes e intrigantes ao mesmo tempo. Os ambientalistas dizem que estamos rumando para o desastre total. Os fazendeiros contestam os dados dizendo que as nuvens atrapalham a pesquisa e que em suas terras só tem corte legal. O desmatamento irregular estaria concentrado em terras federais. Sei lá, acho que dá no mesmo, é floresta tombada, mas de fato a responsabilidade faz toda diferença nesse caso.
Fico tentando dimensionar o que significam os dados divulgados ontem pelo Inpe: cortaram uma área do tamanho da cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro. É muita terra, quer dizer, são muitas árvores abatidas amazônia afora. Na minha memória, logo vêm as cenas vistas pela janela do avião ao se aproximar do aeroporto Santos Dumont. E aquilo ali é só uma parte da cidade. E já é enorme. Tudo aquilo ali e muito mais serrado num único mês. Quem foi o verdadeiro responsável por esse crime ambiental? Responder essa pergunta é uma tarefa do governo federal, essencial para que suas ações de combate ao desmatamento sejam efetivas e dêem resultado.
Do meu lado, que não sou especialista no assunto, fico intrigado toda vez que divulgam esses dados. Sai uma pesquisa e dizem que desmataram uma área maior do que a cidade de São Paulo. Depois, dizem que uma Rio de Janeiro de florestas desapareceu no mês de abril. Caramba, nesse ritmo alucinante, não há floresta que agüente. A Amazônia atual será apenas uma lembrança para os meus netos, registrada nos livros de geografia. É esse o destino da nossa floresta? Espero que não. Seria o caso de determinar que, a partir de hoje, nenhuma árvore poderá ser cortada na região?
Aí, recebo a ligação de um produtor rural que vem logo questionando os dados. "Disseram se esse desmatamento está dentro dos 20% permitidos pela legislação [donos de terra na Amazônia podem usar produtivamente 20% de sua propriedade e preservar 80%]?" ou "Divulgaram se as áreas de desmatamento são privadas ou públicas? Se são públicas, por que o governo federal não cuida delas?". Em seguida, ataca: "Hoje, fazendeiro de verdade não faz corte ilegal, o desmatamento está concentrado em área pública, e estão demonizando a gente como responsável por essa catástrofe".
O fato é que estão cortando árvore adoidado na Amazônia. E estão cortando porque madeira vale um bom dinheiro e, depois, a terra limpa dá um belo lucro criando gado e plantando soja. Se é em terra pública ou privada, se é empresário legal ou ilegal, não sei. Missão para o setor público enfrentar. Afinal, está claro e muito limpo que o ritmo atual não é sustentável. O novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, mostra disposição para inverter essa curva. O estilo midiático ajuda, assusta, mas só ele não vai deter as motosserras na Amazônia. Ameaçar laçar boi na região gera impacto, mas o último que prometeu coisa parecida não teve lá muito sucesso na sua empreitada. A conferir os resultados práticos.
Subindo a ladeira
Nessa semana vem mais paulada nos juros. No mínimo, o Banco Central sobe os juros de 11,75% para 12,25% ao ano, uma subida de 0,50 ponto percentual. Essa e mais uma ou duas altas já estão assimiladas pelo presidente Lula. O que ele sonha é que fique por aí, com altas menores nas próximas reuniões, na casa do 0,25 ponto percentual. E que no final do ano ou início do próximo o BC interrompa o ciclo de alta e comece o caminho inverso. Tem muita gente que dizia que esse era um sonho realizável, mas que agora está cada vez mais distante.
Justiça seja feita
Mesmo que o sonho presidencial não se realize, ele pode até ficar chateado, mas vai assimilar a decepção. Afinal, desde o início do governo, Lula tem demonstrado que não partilha da opinião de alguns de seus assessores e aliados que chegam a defender que um pouquinho mais de inflação não faz mal a ninguém. O presidente não quer chegar ao fim do mandato com preços em alta. Quer entregar a faixa a seu sucessor com inflação domada e país crescendo, mesmo que não seja no ritmo sonhado na casa dos 6% em 2010.
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Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças. E-mail: valdo@folhasp.com.br |

