Pensata

Valdo Cruz

10/06/2008

Que país é esse?

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Lei. Que lei? De que servem as leis no Brasil? Quem tem a obrigação de respeitá-las? Essas perguntas ficaram martelando a minha cabeça desde domingo à noite, quando, depois de um dia de trabalho --jornalista, como médico, também dá plantão--, liguei a TV e comecei a assistir ao programa "Fantástico". Veio uma reportagem sobre baloeiros, aquele pessoal que solta balões nos ares do Brasil e põe em risco a segurança de vôos e também de pessoas em solo. É comum esses artefatos caírem sobre casas ou empresas e provocar incêndios. Já destruíram residências e causaram mortes. Aí vem uma entrevista com um grupo de empresários, coronéis da Polícia Militar e um brigadeiro reformado da Aeronáutica, de uma tal de Sociedade dos Amigos do Balão. Eles travam o seguinte diálogo com a jornalista:

Repórter: Os senhores ainda soltam balões?

Edward Kaczan: Sim, claro.

Repórter: Apesar da ilegalidade.

Humberto Pinto: Não há ilegalidade. A lei é ilegal. Para nós, a lei é ilegal. Para a Sociedade Amigos do Balão esse artigo --não é uma lei, é um artigo-- esse artigo é ilegal.

Repórter: Mas, coronel, se existe uma lei...

Humberto Pinto: Não, não. Essa lei nós não reconhecemos como uma lei. Ela inibe a arte, ela inibe o folclore, acaba com a cultura.

Sinceramente, como indagava a canção do Legião Urbana, "Que país é esse?". Vem um grupo de pessoas, gente que, imagino, deveria saber bem o que é uma lei. Alguns deles, por sinal, têm o dever de zelar pelo cumprimento delas, caso de policiais. E eles admitem, sem subterfúgios, que infringem a lei, e dizem que para eles a lei é ilegal. Eles simplesmente não reconhecem a lei que proíbe soltar balões. E falam isso na TV Globo, líder de audiência no país, num sentimento de impunidade que, sinceramente, irrita e nos afronta. E será que fica nisso mesmo? Belo mau exemplo. Assim, quem se sente no dever de cumprir leis nesse país? Infelizmente, esse é apenas um dos péssimos exemplos que colhemos país afora.

Sinceramente, gostaria de assistir a uma seqüência daquela reportagem. Alguma autoridade responsável pelo cumprimento desse tipo de lei deveria pegar aquela fita do Fantástico e abrir um processo contra aqueles que se dizem representantes da Sociedade dos Amigos do Balão. Esse, sim, seria um belo exemplo.

Sinal de alerta, leve pé no freio

O presidente Lula aceitou aumentar o superávit primário, ou seja, fazer um ajuste fiscal adicional, depois de convencido de que o ritmo da economia ficou insustentável. Estava rápido demais num período de incertezas internacionais, com a inflação mundial subindo e contagiando os preços no nosso mercado doméstico. Segundo o ministro Guido Mantega (Fazenda) disse a Lula, a economia vinha rodando nesse início de ano entre 5,8% e 6%. Nessa tocada, a inflação iria disparar aqui dentro. Aí, o grande trunfo do presidente poderia escapar de suas mãos, exatamente na reta final de seu segundo mandato. Daí que o governo decidiu pisar levemente no freio, pelo menos por enquanto, e trazer o crescimento da economia brasileira para uma taxa entre 4,8% e 5%. Nesse patamar, acreditam Ministério da Fazenda e Banco Central, é possível fechar o ano com uma inflação um pouco acima de 5% e mantê-la bem perto ou mesmo no centro da meta em 2009, ou seja, na casa dos 4,5%.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

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