Pensata

Valdo Cruz

24/06/2008

Marta, o coelho?

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Entre democratas e tucanos, há uma avaliação de que a candidata petista à Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy, será o coelho da eleição municipal. Uma analogia com as corridas de fundo do atletismo, em que um atleta dispara na frente, puxa o ritmo, mas sai fora da disputa para dar lugar aos corredores com chances reais de vencer. Uma análise, óbvio, positiva e otimista para o futuro dos candidatos tucano Geraldo Alckmin e democrata Gilberto Kassab. Segundo essa crença, a cadeira de prefeito de São Paulo está reservada em 2009 àquele que chegar em segundo lugar no primeiro turno: ou Alckmin ou Kassab. É dado como certo que os votos de um e de outro devem se unir no segundo turno para derrotar a candidata petista, ex-prefeita da cidade. Talvez proceda, mas diria que ainda é cedo para dizer que no segundo turno se dará uma soma automática dos votos alckmistas e kassabistas. Ainda mais sabendo que o processo de lançamento da candidatura tucana foi sangrento, apesar das poses para fotos de serristas e alckmistas como se fossem e ainda sejam grandes e fiéis aliados.

No mundo petista, esse tipo de leitura tucano-democrata é visto com desdém. O PT aposta na recuperação da popularidade do presidente em São Paulo para levar Marta Suplicy à vitória, numa cidade que ela já comandou. Além disso, Lula sabe da importância de uma vitória na principal cidade do país para o cenário da eleição presidencial de 2010. Derrotar José Serra é fundamental para enfraquecer seus planos de chegar ao Palácio do Planalto e quebrar ainda mais as pernas dos democratas. Não por outro motivo o presidente trabalhou para que os partidos governistas em São Paulo tivessem apenas um candidato na corrida municipal. Sua intenção é jogar pesado para eleger Marta.

Os democratas, do seu lado, apostam e muito suas fichas no prefeito Kassab. Acreditam que ele terá o que mostrar no horário eleitoral gratuito e que, em São Paulo, é possível dar um toque nacional à campanha municipal. E esse toque pode ser mirar na inflação, que todos avaliam que se manterá em alta até as eleições. Daí que os antigos pefelistas avaliam que, se realmente houve uma recuperação da imagem de Lula na cidade, ela deve se deteriorar nos próximos meses com a repercussão negativa dos preços elevados nesse ano.

No Palácio do Planalto, essas análises dos democratas são simplesmente ignoradas. Se há algo em que o presidente Lula aposta nessa eleição é num enfraquecimento do partido de Kassab. Não só no Nordeste como no Centro-Sul. O petista sabe muito bem que a inflação em alta provoca danos em seu patrimônio eleitoral, mas avalia ter o discurso apropriado para justificar o que ele considera uma elevação momentânea, que será revertida no próximo ano: a alta se deve à crise dos preços internacionais de alimentos. Invertido o sinal negativo no campo inflacionário, Lula crê que seu candidato será o vencedor em 2010. E que, nesse cenário, os democratas podem caminhar para sua maior derrota.

Bem, tudo isso são desejos de ambas as partes. Legítimos. A verdade começaremos a conhecer em outubro próximo. A conferir.

*

Fora do timing

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, tem ambições políticas. Dizem até que ele se imaginava candidato a presidente do país em 2010. Isso na hipótese de surgir o que ele andou dizendo por aí: um vácuo no campo governista, uma ausência de candidatos palacianos viáveis. Agora, porém, amigos de Meirelles dizem que ele perdeu o timing. Deveria ter saído do governo no ano passado, aproveitando a virada do primeiro para o segundo mandato. Com a inflação em alta e o custo político para baixá-la, num cenário em que a contribuição do lado fiscal pode até vir, mas não será fundamental, Meirelles passa a ser um candidato difícil de carregar. Claro que tudo isso depende do que irá acontecer no cenário econômico daqui para a frente. Agora, o que preocupa muita gente é que o presidente do BC possa guiar seus passos olhando para seu futuro político. Ele costuma dizer que jamais fará isso. Em primeiro lugar, está sua reputação como presidente do Banco Central. Até aqui, ele não deu motivos para dúvidas. Outra para ser conferida no futuro.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

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