Pensata

Valdo Cruz

08/07/2008

Tão próximos e tão distantes

Publicidade

Enquanto um não quer, o outro deseja. Enquanto um faz tudo para se afastar, o outro ensaia encontros e aproximações. São partes de um mesmo princípio, mas já não escondem suas diferenças. De um lado, a direção nacional do PT não quer nem ouvir falar em se aproximar dos tucanos, principalmente dos caciques nacionais do PSDB, gente como Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Aécio Neves. Do outro, o presidente Lula revela a assessores e amigos que pretende fazer gestos de aproximação na direção de seus amigos tucanos.

Lula faz um movimento calculado. Daqui a seis meses, entra na fase final de seu segundo mandato. Ninguém sabe exatamente como ficará sua base aliada pós-eleição municipal. O PT está se estranhando, em muitas cidades importantes, com os partidos que hoje dão sustentação ao governo Lula no Congresso. Por exemplo, São Paulo. Lá, o PMDB foi de Gilberto Kassab, do Democratas. Não quis bailar com a petista Marta Suplicy na disputa pela prefeitura paulistana. O resultado das eleições pode acentuar as diferenças entre os partidos da base aliada e distanciá-los nos dois últimos anos de mandato do petista no Palácio do Planalto.

Num cenário como esse, Lula precisa se aproximar de antigos amigos, que se tornaram desafetos, mas que podem voltar a conviver civilizadamente com o presidente petista. O fato de não ser mais candidato pode ajudá-lo nessa empreitada. E Lula sabe que corre o risco de enfrentar turbulências na fase final de seu governo. A inflação pode provocar mais estragos do que ele imaginava e forçar uma redução muito acentuada no crescimento econômico. Tudo que ele não deseja. Daí que Lula quer paz nesse período. Portanto, por que não convidar FHC e outros tucanos para um dedo de prosa?

Já o PT não deseja, na visão da direção nacional do partido, fazer qualquer movimento que possa fortalecer aquele que será seu principal inimigo em 2010. Acenos para Aécio Neves? Nem pensar. Derrotar José Serra na eleição de São Paulo? Sim, é a missão prioritária do PT paulista. Algo que os petistas consideram muito possível de acontecer.

O risco é o PT rumar para um isolamento em 2010, algo que o presidente Lula se esforça hoje para evitar. Claro que tudo, ainda, é futurologia. Chute mesmo. As elucubrações de agora são feitas na hipótese de termos apenas dois candidatos polarizando a campanha pela sucessão do petista: Serra, de um lado, e Dilma ou outro petista, do outro. E se o canto peemedebista seduzir Aécio Neves e ele mudar de barco? Pode atrair Ciro Gomes. Com um terceiro candidato forte no páreo, a tendência isolacionista de muitos petistas pode levá-los a ficar fora do segundo turno presidencial.

Num desfecho como esse, Lula poderá administrar seu prejuízo caso realmente construa pontes com o mundo tucano: ou garante uma transição civilizada com José Serra ou ainda pode apostar na eleição de Aécio, um amigo tucano do qual nunca se distanciou. A conferir.

Inflação e eleição

O peso mais elevado do crescimento da inflação sobre as classes C, D e E, um eleitorado cativo do presidente Lula, pode realmente ter efeito na eleição municipal. Apesar de dez entre dez petistas ficarem repetindo que em eleição de prefeito o que conta são os temas municipais, o peso da inflação no bolso do brasileiro pode prejudicar os candidatos mais identificados com o presidente Lula e o PT. Principalmente nas capitais. Se vai ser decisivo, aí é outra história. Outra tese a ser conferida daqui alguns meses, quando a campanha esquentar e se a inflação teimar em continuar sua trajetória ascendente.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca