Pensata

Valdo Cruz

15/07/2008

Gol contra

Publicidade

Celebrada como um sucesso pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Operação Satiagraha, aquela que provocou o festival de prende-solta-prende-solta do banqueiro Daniel Dantas, trouxe também dissabores, divisões e temores a membros do governo petista. Vejamos alguns pontos.

Se por um lado ficou muito feliz com o resultado do trabalho de sua Polícia Federal, o ministro Tarso Genro (Justiça) não gostou de algumas trapalhadas do delegado Protógenes Queiroz, responsável pelo inquérito que prendeu o banqueiro Daniel Dantas.

A operação tinha tudo para ser perfeita. Não precisava criar cenas públicas das prisões para ter a repercussão que ganhou. Acabou dando motivos para os críticos interessados de plantão.

Imaginemos: operação cumprida, o delegado convoca de surpresa entrevista e anuncia que Daniel Dantas estava preso. Ganharia o mesmo destaque de qualquer jeito, não teria concorrência nas manchetes dos jornais e TVs. Mas não, o delegado decidiu fazer um autêntico gol contra.

Sem falar no tom messiânico adotado por ele no relatório, colocando-se no papel de único defensor do bem contra o mal, enxergando negociatas que, em alguns casos, simplesmente não existem.

É o caso do ex-deputado Delfim Netto, citado no relatório da PF como alguém interessado em ajudar o especulador Naji Nahas a operar no fundo soberano. Para quem não sabe, o ex-ministro, conselheiro informal do presidente Lula, sempre foi contra o fundo soberano. Reservadamente, criticou o mecanismo e gostaria muito que não fosse criado.

Resultado das trapalhadas e confusões de Protógenes Queiroz: por ora, ele será poupado. Politicamente não será de bom tom retirá-lo do comando do inquérito, que apesar dos erros é elogiado pelo governo como uma investigação eficiente e bem sucedida. Mas ele tende a ficar isolado daqui para a frente. Perdem o delegado e a PF.

Outro caso. Gilberto Carvalho, chefe-de-gabinete de Lula, foi procurado pelo petista Luiz Eduardo Greenhalgh, hoje advogando para Daniel Dantas. Nada consta, até aqui, que possa comprometer o assessor do presidente. A operação saiu e mandou prender o banqueiro. Se houve tentativas de brecá-la, e houve, elas não prosperaram.

Agora, bem que Gilberto Carvalho poderia ter sido mais cuidadoso em se tratando de personagem tão polêmico no Palácio do Planalto como Daniel Dantas. Deveria ter dito ao amigo Greenhalgh que o melhor caminho seria procurar informações oficialmente no Ministério da Justiça. Ficaria livre de qualquer comentário maldoso.

Longe da confusão

Santo recesso parlamentar o que se aproxima. Por aqui, essa é a última semana de trabalho do Congresso antes das férias. Depois, o ritmo do legislativo será devagar, quase parando, com a campanha municipal esquentando. Muita gente está respirando aliviada. Quer ficar longe da cidade e das notícias incômodas da Operação Satiagraha.

Personagem controversa da vida político-empresarial brasileira, Dantas sempre teve um estilo agressivo de atuar. Para o bem e para o mal, costumam dizer amigos e inimigos. Quem dele se aproximava sabia dos riscos envolvidos na relação. E mesmo assim muitos se aproximaram, petistas, tucanos e democratas. Os primeiros nos últimos anos. Os dois últimos, desde sempre. E vários por interesses puramente financeiros. Não podem, agora, reclamar da sorte e temer o que podem conter as sete mil páginas de grampos telefônicos em poder da PF, sem falar na lista dos clientes do Opportunity que aplicavam recursos no exterior em operações irregulares. Aqui, na capital do país, o comentário é que vão surgir nomes de políticos de todos os partidos nos dois casos.

Um político petista, que já disputou campanha majoritária, contou-me que recusou uma oferta de uma contribuição de campanha de R$ 1 milhão do banqueiro. Foi avisado que seria tudo legal. Mesmo assim, não aceitou. Por que, indaguei? Resposta: Daniel Dantas sempre se envolveu em operações no mínimo controversas e cobrava fidelidade de seus amigos. O risco seria enorme no caso de um grande escândalo, que tardou para se materializar mas veio pelas asas da PF.

Nem todos, porém, tiveram a mesma atitude. E a turma que se encantou com Daniel Dantas agora bate em revoada de Brasília e vai ficar bem quieta, fingir de morta, até que tudo fique mais claro, sem fazer marolas que possam atiçar a ira investigatória da PF.

A sorte dessa turma é que estão no mesmo barco petistas, tucanos e democratas. Por mais que alguns defendam aprofundamento das investigações, vai acabar falando mais alto o instinto partidário de sobrevivência. A conferir.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca