Pensata

Valdo Cruz

26/08/2008

Nem tudo é elogio

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Citada como sucesso no Brasil e principalmente em seu próprio país, a política da Noruega de exploração de petróleo não deixa de sofrer críticas por parte de empresários, ambientalistas e políticos de oposição. Algumas delas devem esquentar os debates da eleição no próximo ano. Em outras palavras, nem tudo é elogio no maravilhoso mundo do petróleo norueguês. Lá também tem gente insatisfeita.

Do lado dos empresários, os da indústria naval reclamam da sede tributária do governo da Noruega, que está cobrando impostos de dez anos atrás de estaleiros especializados na construção de navios para dar suporte às plataformas de petróleo. O caso foi parar na Justiça norueguesa.

É que logo depois das descobertas dos megacampos na Noruega, o governo decidiu dar um incentivo aos estaleiros. Eles poderiam ficar sem pagar impostos por dez anos, até que se consolidassem. Só que agora o Ministério das Finanças está dizendo que era só um prazo de carência, que as empresas precisam pagar os impostos daquele período.

"Não foi isso que entendemos. Não concordamos com essa cobrança e esperamos ganhar na Justiça", afirma o dono do estaleiro Olympic, Stig Remoy, um filho de pescador que enriqueceu com o petróleo mudando do ramo da pesca para a indústria naval.

Ele lembra que no próximo ano haverá eleição na Noruega e que isso pode ser usado no debate eleitoral, quando será definido o próximo Parlamento, que escolherá o novo primeiro-ministro. Hoje no posto está o trabalhista Jens Stoltenberg.

Por falar em eleição, quem lidera as pesquisas hoje é o Partido do Progresso, uma legenda de direita na oposição. Seu discurso hoje vai contra o atual governo sobre o uso da riqueza do petróleo e está conquistando o apoio dos noruegueses. Pelo menos, por enquanto.

A oposição quer aumentar o investimento no país, em estradas, por exemplo, usando mais verbas do Fundo Soberano da Noruega, para o qual vão todas as receitas do setor de petróleo arrecadadas pelo Estado.

O atual governo é contra. Diz que o fundo tem de ser usado para garantir o futuro das próximas gerações, já que a riqueza do petróleo um dia acabará. Além disso, jogar muito dinheiro na economia, num país rico, vai pressionar a inflação.

O Partido do Progresso não concorda com essa visão e defende mais gastos. Atualmente, dos quase US$ 400 bilhões do Fundo Soberano, somente cerca de 4% são aplicados dentro do país. Técnicos do Ministério das Finanças não acreditam que possa haver uma mudança nesse sistema. Dizem mais, que os progressistas sempre saem na frente nas eleições, mas acabam perdendo. Estariam mais para fogo de palha. Dura muito pouco.

Além disso, ninguém acredita que, chegando ao governo, eles consigam mudar o sistema. "Caso eles ganhem as eleições, terão de fazer alianças para governar. E a maioria dos demais partidos é contra", diz o diretor de investimento do Ministério das Finanças, Thomas Ekeli. Ele lembra que quando o Partido Socialista assumiu o ministério havia o temor de que pudesse defender a mesma idéia dos progressistas, mas não foi o que aconteceu.

Os socialistas participam do governo de coalizão atual comandado pelo Partido Trabalhista, que conta ainda com o apoio do Partido de Centro.

Além de impostos e gastos, outro tema que deve esquentar a eleição do próximo ano é o ambiental. País próximo do degelo do pólo norte, a questão ambiental é forte na Noruega. Diante da queda na produção de petróleo no país --de 3 milhões de barris por dia para a casa dos 2,4 milhões--, o governo norueguês está fazendo pesquisas para checar se há grandes reservas na costa norte do país.

As organizações ambientais são totalmente contra essas pesquisas, alegando que elas poderão colocar em risco de extinção espécies de peixe, como o bacalhau, outro setor forte da economia norueguesa. Por sinal, era um dos principais, até o surgimento da riqueza do petróleo.

"Defendemos uma moratória na exploração de novos campos. Já temos petróleo demais. Não podemos colocar em risco os nossos peixes", diz Jan Thomas Odegard, da organização ambiental Amigos da Terra da Noruega, acrescentando que esse será o "debate quente" da próxima eleição.

Torkjell Leira, coordenador de programa da Fundação Florestas Tropicais Noruega, também defende a mesma posição. "Os peixes são nossa Amazônia. Não precisamos mais de petróleo", afirma.

No governo norueguês, o ministro do Meio Ambiente, Erik Solheim, destaca que não haverá decisão sobre o tema polêmico nesse governo, mas apenas depois das eleições do próximo ano.

"Ainda não há uma posição final do governo. O tema está em debate e há diferentes posições no governo e no Parlamento", disse Solheim. Ele defende que o assunto seja discutido cuidadosamente, fazendo primeiro todas as pesquisas necessárias antes que uma decisão seja tomada.

Segundo o ministro, o que o atual governo fará é deixar todos os estudos preparados para que o próximo primeiro-ministro possa tomar uma decisão, o que deve acontecer apenas em 2010.

Finalizando, lá também há críticas. Mas dá para ver que nenhuma delas questiona profundamente o modelo de exploração que permitiu ao país dar um salto em seu crescimento.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

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