Valdo Cruz
Ruim, lá e aqui
"O ruim da crise é que é lá, nos Estados Unidos. O bom é que é lá, não aqui." Essa frase foi dita por gente muito próxima do presidente Lula ao comentar, na semana passada, a crise financeira que atinge o país mais rico do mundo. Que, não tanto como no passado, continua sendo a locomotiva do mundo. Não tem a mesma força de antes, já não puxa tantos vagões, mas ainda é forte o suficiente para, numa crise aguda, arrastar uns e outros. E coloca uns e outros nisso.
Bem, voltando à frase lá de cima, creio que, hoje, pós-quebra do banco de investimento Lehman Brothers, seria necessário um ajuste aqui e ali no raciocínio do amigo presidencial. O fato é que tudo indica que vai ser ruim lá e aqui. Não nas mesmas dimensões de um passado recente, quando o Brasil simplesmente quebrava com um terremoto na economia norte-americana. Nossa economia está mais resistente a turbulências internacionais, nosso crescimento está mais baseado no mercado interno, temos reservas internacionais na casa dos US$ 200 bilhões. Mas não vamos escapar de algum contágio. E ele deve ir pela redução do nosso crescimento.
Dentro do governo, já havia o temor do impacto de um futuro ajuste na economia dos Estados Unidos sobre a economia brasileira depois da posse do novo presidente norte-americano. Mas isso era esperado para o início do próximo ano. Até lá, a expectativa era que não teríamos grandes emoções, daquelas de tirar o fôlego. Só que os terremotos econômicos se materializaram um pouco antes. Na verdade, era uma pedra que vinha sendo cantada há muito tempo.
Nesse ano, dificilmente a taxa de crescimento ficará abaixo dos 5%. É, como dizem, um crescimento já praticamente contratado. A interrogação fica para o próximo ano. Crescer 4,5%, pelo visto, vai ficando distante. Quem sabe 4%, como já admitem assessores do presidente. Mas se a crise continuar aguda como nos últimos dias, talvez até os 3,5% pessimistas de alguns analistas não se confirmem. Já há quem faça previsões apontando para 3%.
Não será nada bom. Vamos sofrer um baque exatamente num momento em que tudo sinalizava positivamente para o país. Agora, se a crise realmente for do tamanho que estão prevendo, sinceramente, 3% pode acabar sendo um número até razoável.
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Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças. E-mail: valdo@folhasp.com.br |
