Valdo Cruz
Lições do tempo
Saiu mais uma pesquisa sondando a preferência do eleitorado sobre a sucessão do presidente Lula em 2010. Mostra que, fosse hoje a eleição, o tucano José Serra seria o próximo presidente da República, deixando todos os postulantes a candidatos pelo PT no chinelo. Isso mesmo, enquanto Serra roça a casa dos 38,1% das intenções de votos, Dilma Rousseff não atinge nem 10% na pesquisa da Sensus divulgada nessa semana. Mas a eleição é só daqui a dois anos. E os petistas têm dito, num raciocínio partilhado até por alguns tucanos, que 2010 pode repetir 1994.
Naquele ano, Lula era considerado imbatível. As pesquisas da época também mostravam o petista com cerca de 40% dos votos. Fernando Henrique Cardoso amargava menos de 5% das intenções de voto. Mas FHC tinha o que mostrar à população: o Plano Real. Lula, só tinha o discurso oposicionista. Sentia-se tão forte que desancou o plano que levou o país à estabilização. Deu no que deu. O tucano bateu Lula no primeiro turno.
Agora, o filme poderia se repetir. Sonho ou não no mundo petista, a avaliação do pleito de 2010 é que nele Dilma Rousseff terá o que apresentar --desde que o país, claro, continue crescendo acima de 4% e o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) deslanche e mude a face da infra-estrutura do país. E Serra terá de enfrentar a candidata de um presidente com avaliação nas alturas, com poder de transferência de votos.
Claro que tudo isso é também retrato do momento. Uma fase em que Lula saboreia popularidade em alta, crescimento na casa dos 5% e inflação controlada. Tudo isso precisa ser mantido ou melhorado para que ele realmente seja o que os petistas garantem que ele será: o grande eleitor da próxima eleição presidencial.
No ninho tucano, a avaliação da pesquisa é que Serra continua forte e não deve levar o partido a cometer o mesmo erro de 2006, quando o PSDB escolheu como candidato aquele --Geraldo Alckmin-- que estava mais fraco nas pesquisas. Entre os serristas, ninguém acredita que Dilma consiga realmente se viabilizar. Seria a candidata mais fácil a ser batida na eleição presidencial --por sinal, entre os petistas raciocínio parecido também é feito, mas colocando os candidatos em posições diferentes: Serra seria o nome mais fácil de ser derrotado.
Só que alguns tucanos, minoria, é claro, já fazem uma avaliação reservada de que o governador de São Paulo pode desistir de concorrer à Presidência da República em 2010 se o cenário róseo pintado pelos petistas se confirmar. Aí, Lula elegeria realmente até um poste e Serra poderia optar pela reeleição ao governo paulista. Entre os amigos serristas, contudo, essa hipótese é descartada. Dizem que essa é a grande e última chance do governador e ele não vai abrir mão da candidatura para seu colega mineiro Aécio Neves.
Enquanto isso, no PT, a pesquisa sinaliza que a ministra da Casa Civil, apesar de ainda não ultrapassar a barreira dos dois dígitos, tende a se consolidar como a candidata do partido em 2010. Afinal, ela fica na frente até de Marta Suplicy, em plena campanha à Prefeitura de São Paulo, que registrou na pesquisa apenas 5,9% das intenções de votos. E como uma diferença ainda maior se o resultado for comparado ao do ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, que não atingiu nem 3%.
Interessante é observar que o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) continua com uma boa posição nas pesquisas, com 17,4% da preferência do eleitorado. Seu destino é uma das principais incógnitas da eleição de 2010 e pode definir o rumo da sucessão. Ele tem sinalizado que pode não ser candidato à cabeça de chapa, mas aceitar ser vice. Daí que sua companhia é cogitada tanto por Dilma como Aécio Neves. Seria, para os dois, uma entrada no Nordeste. Quanto ao tucano Aécio Neves, ele registrou uma boa posição nas pesquisas quando colocado como candidato do PSDB a presidente. Seu problema, porém, é que fica bem atrás de Serra. Para tentar melhorar sua performance, está viajando pelo país. Ele não dá a situação por definida dentro do PSDB. Vai tentar, até o final de 2009, diminuir a distância para Serra. Acredita que num final de mandato positivo para Lula, ele poderia ser o candidato tucano, representando não o anti-Lula, mas o pós-Lula.
Bem, tudo isso são conjecturas do momento. Uma leitura mais próxima da realidade poderá ser feita apenas no final do próximo ano, quando já saberemos, por exemplo, se a crise norte-americana terá causado grandes estragos ou não na economia brasileira.
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Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças. E-mail: valdo@folhasp.com.br |

