Pensata

Valdo Cruz

30/09/2008

O fator eleitoral e o pânico instalado

Publicidade

Uma segunda-feira para ser esquecida. Ou melhor, para ser vista como grande lição sobre os dias de hoje no mundo financeiro e político. Durante a manhã de segunda, todo mundo já falava qual deveria ser o segundo passo depois de aprovado o pacote de US$ 700 bilhões de socorro ao sistema financeiro. À tarde, veio o pânico. A Câmara dos Deputados do Congresso americano simplesmente rejeitou o plano de resgate elaborado pelo governo George Bush e negociado durante todo o fim de semana.

Pesou o fator eleitoral. É ano de eleição não só presidencial mas também parlamentar nos Estados Unidos. Uma certa dose de populismo baixou no Congresso americano, de olho na insatisfação do eleitor diante do pacote feito para salvar instituições financeiras, enquanto mutuários da casa própria estão perdendo ou correndo o risco de perder suas moradias. Tudo bem, realmente tudo o que está acontecendo não faz muito sentido nos Estados Unidos, pátria que endeusa o mercado. Estão salvando o tal de mercado, à custa do dinheiro do contribuinte. Nada mais paradoxal por lá. Só que, sinceramente, estamos em tempos de exceção. Se o pacote não for aprovado, ninguém sabe exatamente o que acontecerá. Com certeza, mais bancos tecnicamente estarão quebrados, além dos que já se foram. Mais socorro terá de vir. E a conta vai ficar cada vez mais alta. Cada dia de atraso representará um avanço a mais na direção da recessão, não só nos Estados Unidos, Europa e Japão. O risco de contágio vai subir e muito mundo afora. Não estaremos imunes.

Como a segunda foi de pânico, será preciso aguardar os próximos dias e esperar que a sensatez volte a reinar no Capitólio. As autoridades americanas e congressuais não podem ficar postergando uma decisão. Terão de correr contra o tempo. Cada minuto está valendo ouro. A cada segundo que passa as ações despencam cada vez mais, o valor dos ativos bancários perdem mais valor, e tudo isso vai levar a uma contração gigantesca no crédito mundial. Triste fim de mandato para um presidente americano. Merecido, na verdade. O problema é que, junto, ele vai arrastar muita gente para o buraco.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca