Valdo Cruz
De marolas a postes
Os últimos dias trouxeram mensagens que deveriam ser motivo de reflexão para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por mais popular e forte que seja um presidente, seus desejos e objetivos não se materializam num toque de mágica. Vejamos a crise financeira internacional, fosse apenas uma marola chegando ao Brasil, como disse Lula, o Banco Central não teria decidido socorrer pequenos bancos, mesmo sabendo que pode morrer com parte dos prejuízos nas mãos. Vejamos a lição das urnas, não adianta apenas arranjar um poste e imaginar que ele será eleito pela vontade do governante poderoso de plantão.
Não vou nem falar em nomes ungidos pelo presidente Lula nessa campanha, para não dizer que estou fazendo uma avaliação distorcida da realidade. Fiquemos com o caso de Belo Horizonte. O governador Aécio Neves (PSDB-MG) e o prefeito Fernando Pimentel (PT-MG) são políticos fortes em Minas Gerais. Os dois desfrutam de elevada popularidade, reconhecimento pela boa administração conduzida no Estado e na Cidade de Belo Horizonte.
Só que não adiantou arranjar um poste --Márcio Lacerda (PSB)-- para ganhar a eleição na capital mineira. O poste não tem lá muita luz, diríamos até que é um poste sem luz. Lacerda é visto como um excelente administrador, mas seu desempenho à frente da propaganda de TV foi bem fraco. Assisti alguns programas de sua campanha e fiquei constrangido por ele. Tem um em que fica repetindo 'Olha, gente, sou eu quem vai governar', não vai ser o Aécio nem o Pimentel. E fica se enrolando nesse discurso que, sinceramente, deve ter ajudado e muito ao candidato do PMDB, Leonardo Quintão.
Claro que teremos um segundo turno em BH. Talvez o comando da campanha tenha descoberto que precisa iluminar seu candidato para que ele possa ser mais bem visto pela população. Lição que fica para o presidente Lula. Não basta lançar Dilma Rousseff, ela terá de ser trabalhada, já que nunca, como Márcio Lacerda, enfrentou as urnas. A ministra tem a vantagem de estar passando pelo menos os dois últimos anos sob holofotes, sendo obrigada a lidar com a mídia e a classe política, coisa que Lacerda não experimentou. Isso faz diferença, mas não garante nada. A conferir, porque temos pela frente mais dois anos.
Voltando à crise financeira, não sou daqueles que criticam totalmente Lula por ter adotado um discurso otimista nas últimas semanas diante do agravamento da crise. Se o comandante de um país começa a dizer que estamos indo para o buraco, aí é que vamos mesmo. Faz parte do manual de ação de um presidente buscar manter o otimismo. Mas bem que ele deveria, desde o início, ter feito as ressalvas necessárias, coisa que ele simplesmente deixou em segundo plano no início do agravamento da crise. O pior, na minha opinião, foi deixar transparecer a sensação --ou realidade-- de que a divisão dentro da equipe econômica --Ministério da Fazenda de um lado e Banco Central de outro-- acabou atrasando o lançamento de medidas só agora divulgadas.
Coisa parecida com o que ocorreu na Europa no começa desta semana, deflagrando uma nova onda pesada de pessimismo. Os países europeus ficaram criticando os Estados Unidos e demoraram para agir de fato. Depois que os EUA aprovaram seu pacote, foram correr atrás do prejuízo. Deu no que deu. Por aqui, parece que esperaram piorar para fazer o que tinha de ser feito. Esse, para mim, foi o principal erro.
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Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças. E-mail: valdo@folhasp.com.br |

