Pensata

Valdo Cruz

14/10/2008

De distorções a virtudes

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Não é que no meio dessa crise financeira no mundo desenvolvido uma baita de distorção da economia brasileira transformou-se numa virtude. Isso mesmo. O tal de depósito compulsório --a grana que os bancos são obrigados a depositar no Banco Central-- é muito elevado no Brasil. Agora, reduzi-lo está servindo para dar ao mercado mais recursos nesse tempo de secura de crédito mundo afora.

Recentemente, numa conversa com assessores do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, um deles disse que se a instituição tivesse condições acabaria com esse depósito compulsório elevado de uma vez por todas. O auxiliar de Meirelles classificou o mecanismo como uma distorção herdada dos tempos de inflação alta no Brasil. Mas isso não podia ser feito pelos riscos de aumentar o dinheiro em circulação na economia e provocar pressões inflacionárias.

Tal conversa aconteceu antes do agravamento da crise. Agora, a secura no crédito está obrigando o Banco Central a fazer hoje o que pretendia realizar amanhã. A dúvida é se tudo não está sendo feito rápido demais que tenha de ser remontado quando a crise no mercado financeiro se acalmar. Tomara que não, afinal o Brasil ainda tem muito espaço para avançar no seu mercado de crédito, que cresceu nos últimos anos mas ainda é pequeno se comparado ao de outros países, principalmente os desenvolvidos.

Mas tudo agora é exceção. Não dá para fazer previsões seguras para nada. Quem imaginaria que Estados Unidos e Europa estariam marchando para a nacionalização --mesmo que parcial, mas nacionalização-- dos seus principais bancos. Algo que no passado estávamos acostumados a assistir em países emergentes, num período de total desvio. Agora, porém, tudo é emergência. O que importa é salvar a economia mundial, questão de sobrevivência, mesmo atropelando dogmas. Que, não tenham dúvidas, serão restabelecidos assim que a bonança voltar.

Por falar em dogmas, não chega a ser bem isso, mas as autoridades econômicas brasileiras começam a admitir algo que vinham evitando fazer. Nosso crescimento no próximo ano não será uma maravilha, podendo realmente ficar na casa dos 3,5%. E isso, talvez, no cenário mais otimista. Não que esteja torcendo para o país crescer menos. Pelo contrário. Seria bom que rodasse na casa dos 4%. Mas a crise foi bem mais grave do que todos imaginavam. E deixará sequelas, que vão desaparecer apenas no médio e longo prazo. Sinceramente. o Brasil tem é de torcer para crescer pelo menos 3,5%, porque o resto do mundo desenvolvido ficará estagnado ou entrará em recessão.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

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