Pensata

Valdo Cruz

05/05/2009

Pagando pelos acertos

Publicidade

De volta ao trabalho em Brasília, depois de um período fora para estudos e desenvolvimento de projetos, dou de cara com um tema que, sinceramente, dá vontade de chorar. Tema que revela muito por que ainda somos um país com instituições instáveis e nada confiáveis: a velha chantagem política em troca de cargos públicos. O caso mais recente, por incrível que pareça, envolve a iniciativa de um burocrata que decidiu fazer a coisa certa e, com isso, acabou desencadeando uma guerra na tal de base aliada no Congresso.

Foi na Infraero, a estatal do governo que administra os aeroportos do país. Lá, o presidente da empresa, brigadeiro Cleonilson Nicácio, resolveu profissionalizar as diretorias da estatal. Em outras palavras, andou trocando indicações políticas por técnicas. Uma forma correta de acabar com uma das marcas registradas na história da Infraero, a incompetência administrativa. E, também, diríamos assim, para evitar usos políticos dessas diretorias. Casos de desvios não faltam no passado dessa empresa.

Pois bem. Bastou isso para o PMDB chiar e sair pressionando o governo. Quer os cargos perdidos de volta. Deseja mais. Quer derrubar o ministro José Múcio Monteiro (Relações Institucionais), responsável dentro do governo pelas negociações políticas e, também, distribuição de cargos aos partidos aliados. Assim, afinal, passaria a administrar a política franciscana do governo Lula, o é-dando-que-se-recebe, o velho toma-lá-dá-cá, o manjado fisiologismo que muitas vezes emperra a máquina pública e a coloca a serviço de interesses individuais, corporativistas ou partidários. Deixando de lado o interesse público.

Bem, nos próximos dias veremos se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai ceder às pressões peemedebistas e devolver os carguinhos ao partido. Bem, para ser justo, não é só o PMDB que adora um carguinho. O PT, depois que chegou ao poder, tratou de espalhar seus filiados por tudo que é canto do governo. E PSDB e Democratas também faziam o mesmo quando mandavam no Palácio do Planalto.

Político adora um carguinho. E adora para quê, caro internauta? Tem gente que gosta de mostrar serviço, assumir um posto para desenvolver um projeto a serviço do cidadão. Isso tem. Mas tem muita gente que gosta de cargo público com outros objetivos. Para fazer obra pública direcionada para seus aliados, para tomar decisões que agradem seus financiadores de campanha, sem falar naqueles que usam esses postos de forma republicana. E infelizmente não são poucos.

Isso, tudo indica, não vai acabar nunca em Brasília. Quem está na oposição adora atacar essa prática até o momento em que vence as eleições e volta a reinar no Palácio do Planalto. Aí muda o discurso. Aconteceu com o PT, que no passado atacava ferozmente a política do fisiologismo no Brasil. Repete-se hoje com tucanos e democratas, que acusam os petistas de aparelhar a máquina pública, mas também faziam coisa parecida quando comandavam o governo alguns anos atrás.

Quem dera copiássemos um modelo mais parecido com o britânico, onde há uma máquina pública estável, que não é trocada quando se muda o governo de plantão. Creio que apenas com muita pressão pública isso teria alguma chance de mudar por essas bandas. Mas com o atual grau de desmobilização social no país, caro internauta, esqueça. Tudo vai continuar assim por muito, mas muito tempo.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca