Pensata

Valdo Cruz

19/05/2009

Infelizmente, faz parte!

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Sai a poupança, entra a CPI da Petrobras. A investigação da maior empresa brasileira virou o assunto preferido da oposição. Bem, vamos por partes nesse tema espinhoso, mas necessário. O fato é que, mais uma vez, o governo está precisando correr atrás do prejuízo. Não precisaria estar esperneando em público contra a criação da CPI da Petrobras se tivesse cuidado melhor de seu quintal.

Explico: a CPI só foi criada por mais um cochilo e descaso do Palácio do Planalto. Governistas assinaram o requerimento dos tucanos pedindo a criação da comissão. E outros governistas, peemedebistas, como sempre, se fingiram de mortos e não ajudaram o governo na operação para barrar a CPI. Por quê? Porque estão insatisfeitos com o Palácio do Planalto depois que alguns de seus apadrinhados foram demitidos da Infraero.

Bem, a poda de cargos na Infraero é algo positivo e louvável. A estatal que cuida dos aeroportos precisa ser profissionalizada. Só que o governo Lula, desde seu começo, se entregou à política do fisiologismo. Óbvio que não dá para, de repente, mudar de linha sem levar bola nas costas. Pior ainda, punhaladas.

Não é de hoje que tem gente alertando o presidente Lula que o PMDB iria dar o troco. Bastava sinalizar que os defenestrados da Infraero seriam alocados em outra estatal para reinar a paz na base aliada. Diante da inércia palaciana, o recado veio na criação da CPI.

Veja bem, caro internauta, não estou defendendo o fisiologismo palaciano. Longe de mim. Só que, se a política é essa, não dá para mudá-la de uma hora para outra. Infelizmente, faz parte do mundo político de Brasília. Só vai mudar quando o país aprovar uma reforma política decente. E isso está num horizonte tão longínquo que o mais provável é que o próximo governo, seja ele petista ou tucano, continuará convivendo com a política do é-dando-que-se-recebe.

A Petrobras também foi envolvida numa guerra política. Em parte, por sua própria culpa. Em outra, por conta da sucessão presidencial em 2010. Dentro do governo e na oposição, diretores e técnicos da empresa são classificados de "arrogantes", "prepotentes", "donos do mundo", que acreditam que a estatal está acima de tudo e de todos no país. Não é de hoje que são feitos comentários nada elogiosos à empresa até mesmo dentro do Palácio do Planalto.

O problema é separar o que é reclamação justa daquela feita por causa de interesses contrariados. Maior empresa do país, com uma liberdade para operar muito maior que as outras estatais, a Petrobras desperta cobiça do mundo político. Seus negócios milionários fazem brilhar os olhos de muita gente em Brasília.

Dentro da empresa, é comum ouvir comentários de que a "turma de Brasília não gosta da gente porque defendemos a Petrobras e não queremos transformá-la em negócio político". Em Brasília, a oposição levanta a suspeita de que algumas diretorias podem estar sendo usadas para conquistar a simpatia de empresas que figuram na lista de tradicionais doadores de campanha eleitorais.

O fato é que a Petrobras, tecnicamente, não deveria mesmo ser investigada numa CPI. Pelo seu tamanho e sua importância. Não que deva ficar imune a fiscalizações. Deve sofrer auditorias e investigações, mas coisa para o Tribunal de Contas, Polícia Federal. CPIs costumam virar circos. Numa empresa com ações negociadas em Bolsa, isso pode virar um belo instrumento de especulação. Aí, salve-se quem puder.

Mas esse discurso só seria justificável se a empresa estivesse completamente blindada às ingerências políticas. E não está. E não é de hoje. Desde os tempos tucanos a empresa sofre influências do mundo político. Algo que foi aprofundando no governo petista, com a divisão das diretorias entre os aliados de Lula. Taí uma boa bandeira, profissionalizar de vez a Petrobras e vetar indicações políticas.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

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