Valdo Cruz
Perdendo oportunidades
A crise econômica ainda está presente entre nós, mas em Brasília parece que ela já não existe mais. A cidade, na verdade, nunca foi lá um bom termômetro para aferir se já passamos pelo pior. A ilha da fantasia, como é chamada por muitos, é a terra do funcionalismo público, uma categoria que não se mexe na cadeira quando ouve falar em demissões em massa. Tem estabilidade no emprego. E que, nos anos do governo petista, foi agraciada com bons aumentos salariais. Daí que o comércio da cidade não sofre tanto assim quanto o do resto do país.
Bem, mas não é disso que quero tratar. Quando falo que a crise parece não existir mais por aqui, estou me referindo ao Congresso Nacional e ao Executivo. Os dois poderes poderiam liderar a discussão de temas vitais para fortalecer ainda mais a estrutura econômica do país, mas sobre isso não se ouve palavra nos gabinetes da Esplanada dos Ministérios.
O fato é que, mais uma vez, vamos perdendo oportunidades. Todo mundo sabe que convivemos com um sistema tributário péssimo, elevada carga tributária, impostos que punem os investimentos, mas não saímos do lugar quando se fala em reformar o setor. Todo mundo sabe que nossa legislação trabalhista é antiquada, precisa ser reformulada, eleva os cutos das empresa, estimula a informalidade, mas também não conseguimos sair desse sistema ultrapassado. Todo mundo sabe que o governo gasta mal o dinheiro do contribuinte, tem aumentado em demasia o custo do funcionalismo, mas ninguém decide votar projetos como o que limitava o crescimento da folha de pagamento de pessoal da União, Legislativo e Judiciário.
Enfim, todo mundo sabe também que esbarramos, sempre, no lobby corporativista, que na defesa de interesse de grupos restritos trava avanços que poderiam beneficiar todo o país. Aí todos têm culpa no processo. Governantes, políticos, empresários, trabalhadores. Cada um defende o seu lado e ficamos parados onde estamos. E, com isso, vamos perpetuando um sistema ultrapassado ainda vigente no país. Estaríamos numa posição muito melhor se tivéssemos enfrentado essas reformas. Mas as crises passam, deixam seus estragos e não aprendemos tudo o que deveríamos com elas.
O bom debate
Por sinal, esse poderia ser um bom debate a ser travado na próxima eleição presidencial. Discutir reformas vitais para o fortalecimento do país, mas que ficam sempre emperradas por conta de interesses particulares. O próximo presidente deveria assumir o compromisso de, logo no início de seu mandato, promover quatro reformas no Brasil: tributária, trabalhista, previdenciária e política. São temas que, tudo indica, só podem ser enfrentados em início de mandato, quando o presidente eleito está com seu capital político nas alturas e não teme adotar medidas impopulares. Já que tem tempo suficiente para se recuperar. A sociedade civil deveria se organizar para arrancar dos futuros candidatos esse compromisso.
Afinal, tudo indica que o país já consolidou o sentimento de que devemos preservar a estabilidade econômica. O que foi um grande avanço. Agora, seria a hora de dar o próximo passo, aquele que poderia nos levar a um outro degrau econômico.
![]() |
Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças. E-mail: valdo@folhasp.com.br |

