Valdo Cruz
Tensões de cada um
A TPC está de volta e vai agitar Brasília até quarta-feira. Explico melhor: TPC é a tensão pré-copom, aquela guerrinha travada nos bastidores entre Banco Central, de um lado, e praticamente toda a Esplanada dos Ministérios do outro, Ministério da Fazenda à frente. Era mais comum no primeiro mandato às vésperas de o Comitê de Política Monetária do BC decidir se reduzia, subia ou deixava a taxa de juros onde estava. Agora, não há dúvidas de que virá uma redução. O ataque de TPC se manifesta por conta das dúvidas sobre o tamanho do corte na taxa básica de juros, hoje em 10,25% ao ano.
Dentro do Banco Central, a equipe de Henrique Meirelles ensaia um discurso para tentar acalmar os ânimos do Palácio do Planalto: melhor ter agora uma atitude mais conservadora e evitar ousadias que, no futuro, poderiam exigir correções na política monetária mais à frente, em 2010, o ano da eleição presidencial. Em outras palavras, fazer um corte elevado agora aumenta o risco de um aumento na taxa de juros, no próximo ano, quando a economia deve voltar a entrar num ritmo mais forte. Aí, sim, seria muito pior para o Palácio do Planalto.
O fato é que dificilmente o BC irá surpreender e fazer um corte ousado na taxa de juros. Deve optar pelo caminho do meio e reduzir os juros em no máximo 0,75 ponto percentual. A equipe de Guido Mantega não vai gostar, mas não a ponto de sair por aí reclamando. Avalia que se o corte for mesmo de 0,75 ponto percentual já será alguma coisa. Confirmada essa expectativa, a taxa de juros vai cair para 9,5%, recuando para um dígito. Já serve para dourar a pílula.
Dentro da Fazenda, há ainda a avaliação de que Meirelles irá dosar politicamente qualquer decisão do BC. Abandonar seu estilo conservador, isso ele não vai. Mas, de olho em suas pretensões eleitorais, não irá adotar uma política monetária conservadora ao extremo, que possa minar suas chances eleitorais no próximo ano. A conferir. O primeiro capítulo dessa novela será revelado na quarta-feira, quando o Copom anunciar sua decisão sobre a taxa de juros.
Os capítulos seguintes ficam mais para o final do ano, quando Meirelles terá de decidir, por exemplo, se vai realmente se filiar a um partido e por ele concorrer a um cargo nas eleições de 2010. Amigos próximos garantem que ele será candidato. A que posto? Essa seria a dúvida do momento. Mais uma vez, a conferir, lembrando que, no auge da crise, o presidente do BC chegou a cogitar desistir de seus planos políticos. Dentro do seu discurso de que não irá adotar medidas com viés político.
Outra TPC
Há uma outra TPC rondando o gabinete do presidente Lula: a tensão pré-CPI da Petrobras. Por mais que diga publicamente estar tranquilo e que esse é um assunto do Senado, Lula está totalmente engajado na estratégia de controlar a comissão criada para investigar a maior estatal do país. O presidente não quer saber de uma comissão provocando estragos no governo na véspera do ano eleitoral. Essa TPC, contudo, pode acabar se mostrando um tanto quanto inofensiva, não provocando tanta dor de cabeça assim no Palácio do Planalto.
Até aqui, tem havido muita guerra pública em torno do tema, ameaças de fazer investigações profundas na estatal, mas a cada dia vão surgindo sinais daqui e dali que a própria oposição não estaria com tanta disposição assim para fazer uma investigação ampla, geral e irrestrita na Petrobras. O pragmatismo pode falar mais alto. Ninguém vai querer mexer em contratos que possam incomodar potenciais financiadores de campanha no ano que vem. Não será nenhuma surpresa se passarmos mais uma semana sem a escolha do presidente e do relator da CPI da Petrobras, retardando o início das investigações. Lula agradece.
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Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças. E-mail: valdo@folhasp.com.br |
