Pensata

Valdo Cruz

23/06/2009

A meta e a eleição

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Eleição presidencial costuma interferir no termômetro da economia. De olho nessa relação, a equipe do governo Lula deve fixar a meta de inflação para 2011, primeiro ano do sucessor do presidente petista, em 4,5%. Percentual idêntico ao desse e do próximo ano. A decisão será tomada nesta semana, durante reunião do CMN (Conselho Monetário Nacional).

Segundo assessores presidenciais, instabilidades no processo eleitoral de 2010 podem provocar elevação nas expectativas de alta dos preços. Resultado: o Banco Central tenderia a agir preventivamente, como sempre faz, e subir a taxa de juros para manter a inflação do ano seguinte sob controle.

Em outras palavras, a equipe de Lula trabalha para diminuir o risco de, no ano da eleição presidencial, o Banco Central ser obrigado a promover uma alta nos juros. Daí a tendência de manter a meta de inflação em 4,5%, o que daria ao BC uma margem de manobra maior para conduzir sua política monetária. Se reduzisse esse percentual para 4%, como chegou a ser classificado como possível, essa margem ficaria menor.

Um assessor do presidente Lula lembra que, durante uma campanha eleitoral, é natural ocorrer turbulência no mercado financeiro, como aconteceu na eleição de 2002 --na época, com a possibilidade de vitória do petista, visto como um risco para o mercado, a inflação subiu e o BC elevou a taxa de juros. Lula ganhou, conquistou a simpatia do mercado e mostrou que não representava nenhum risco para a economia.

Reservadamente, outro assessor de Lula diz que a possibilidade de cenário semelhante em 2010 é real. Não tão acentuado como em 2002, mas podendo interferir nas expectativas de inflação. Isso porque, destaca, os dois principais candidatos a presidente --o tucano José Serra e a petista Dilma Rousseff-- têm estilo intervencionista e não despertam grandes paixões no mercado. Se isso é virtude ou não, é uma outra história.

Dentro do governo, de olho nesse aspecto eleitoral, a informação é que o presidente Lula vai orientar sua candidata a assumir o compromisso de que, vencendo a eleição, manterá suas políticas fiscal e monetária. A dúvida é se o mercado vai ou não comprar essa sinalização.

Lula gostaria não só de evitar uma alta dos juros no próximo ano, como garantir a manutenção do atual processo de queda. Só que isso parece ser praticamente impossível. Hoje, as taxas estão em 9,25%. O mercado aposta em apenas mais uma redução, entre 0,25 e 0,50 ponto percentual, na próxima reunião do Copom (Comitê Política Monetária). Depois, os juros ficariam inalterados durante boa parte de 2010.

Tecnicamente, tanto Ministério da Fazenda como Banco Central avaliam que seria possível reduzir a meta de inflação de 2011 para 4%. Afinal, há analistas apostando que a inflação no primeiro ano do sucessor de Lula ficará abaixo de 4,5%, meta que será ratificada para 2010 na reunião do CMN.

Segundo os técnicos, a retração da economia brasileira gerou um nível de capacidade ociosa na indústria brasileira que permite sustentar um crescimento econômico entre 3,5% e 4% sem gerar pressões inflacionárias. Isso desde que não haja um processo exagerado de alta no preço das commodities --produtos cujos valores seguem a tendência do mercado internacional.

Além do fator eleitoral, dois outros devem pesar na decisão do Conselho Monetário Nacional. Um deles sempre é lembrado pelo presidente Lula nas discussões internas. Seu governo está em final de mandato e esse é um tema que deve ser deixado para o próximo presidente, já que será ele o responsável pela condução da política monetária em 2011. Se quiser, pode mudar a meta.

Outro fator é a tendência de alta nos preços internacionais ao longo do próximo ano, diante da esperada recuperação das economias dos países desenvolvidos --que deve, inclusive, gerar um processo de elevação das taxas de juros mundiais.

Apesar de terem visões divergentes sobre a política monetária, as equipes de Guido Mantega (Fazenda) e Henrique Meirelles (Banco Central) não estão, dessa vez, em guerra por conta da meta de inflação a ser fixada para 2011.

Dentro do próprio BC a meta de 4,5% é considerada como defensável, apesar da preferência por 4%. Número que também conta com o apoio de alguns técnicos de Mantega. A última vez em que Fazenda e Banco Central entraram em conflito publicamente foi na fixação da meta de 2009. Na época, a equipe de Mantega defendia a manutenção da taxa em 4,5%, enquanto Meirelles e sua diretoria trabalhavam pela redução para 4%.

Mantega ganhou a disputa, convencendo o presidente Lula de que havia risco de uma alta exagerada no preço das commodities em 2008 gerar pressões inflacionárias. De fato, essa alta aconteceu, mas depois cedeu com o agravamento da crise internacional no final do ano passado.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

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