Valdo Cruz
É dando que não se perde
Em tempos de escassez de dinheiro, o governo Lula será obrigado a abrir os cofres a deputados e senadores para evitar que a grana fique ainda mais escassa. Parece maluco, mas é isso mesmo. Lula terá que dar para não perder. Uma pequena inversão do "é dando que se recebe".
Explico: o presidente Lula foi avisado que deputados estão irritados porque a equipe econômica não libera o dinheirinho de suas emendas parlamentares. Aquele instrumento usado no Congresso para que deputados e senadores destinem recursos para suas bases eleitorais.
Em véspera de ano eleitoral, então, esse dinheirinho pode significar a reeleição ou não do parlamentar. Daí a insatisfação acima do normal ao pão-durismo da equipe econômica. Que tem lá seus (bons) motivos para segurar a grana no caixa. Até aqui, de mais de R$ 5 bilhões, foram liberados apenas R$ 130 milhões.
Motivo: a arrecadação está em queda. E dinheiro, por enquanto, ainda não cresce em árvore em Brasília. Se bem que, às vezes, parece que nasce, já que alguns sempre são mais agraciados que outros. Mas essa é outra história. Voltemos às emendas parlamentares.
Insatisfeitos, deputados mandaram o recado ao presidente Lula. Se o governo continuar segurando a grana das emendas, eles vão dar o troco e aprovar alguns projetos bem populares que tratam dos benefícios da Previdência Social. São cinco propostas que podem gerar um rombo entre R$ 55 bilhões e R$ 100 bilhões nos cofres públicos.
Diante da ameaça, Lula determinou à sua equipe econômica traçar um plano para atender pelo menos parte dos pedidos dos parlamentares. Traduzindo: nem todo dinheiro das emendas chegará às bases eleitorais de deputados e senadores, mas pelo menos uma certa quantidade que possa fazê-los mudar de ideia.
E assim a vida segue por aqui, com instrumentos, como as emendas parlamentares, sempre usados no jogo da chantagem brasiliense.
Dia de trégua
O presidente do Senado, José Sarney, teve na terça-feira seu primeiro dia de trégua nas últimas semanas. Ninguém subiu na tribuna da Casa para pedir seu afastamento. Ele pôde inclusive presidir a sessão e comandar votações. O peemedebista, pelo menos em parte, precisa agradecer aos tucanos, os mesmos que na semana passada pediram que ele se licenciasse do cargo.
É que ontem a tucanada esteve no Senado comemorando os quinze anos do real. A sessão tomou toda manhã, presidida pelo peemedebista. À tarde, o clima seguiu na mesma toada. Sinal de que a crise acabou? Isso ninguém pode garantir. O imponderável ronda os gabinetes de senadores. O fato é que muita gente está louca para que a crise realmente acabe. Ela começou a ficar democratizada demais.
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Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças. E-mail: valdo@folhasp.com.br |
