Pensata

Valdo Cruz

13/10/2009

Diário de viagem

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Durante seu giro pelo exterior, com reuniões na ONU (Organização das Nações Unidas) e no G20, o grupo dos países mais desenvolvidos e em desenvolvimento do mundo, um ministro do presidente Lula notou que em todas as conversas havia uma grande curiosidade da parte de outros presidentes sobre como o Brasil enfrentou a crise.

O tema, segundo ele, foi abordado nos contatos com Barack Obama (EUA), Nicolas Sarkozy (França) e José Luis Zapatero (Espanha), entre outros. Em todas as conversas, a fala de Lula poderia ser, de acordo com esse auxiliar, resumida na seguinte frase: sem fatalismos, em defesa do Estado para evitar profecias autorrealizáveis.

Sem abordagens teóricas sobre o papel do Estado na economia, Lula disse a seus colegas que em nenhum momento achou que seria uma "fatalidade" o país passar pela crise e que deveria aguardar as soluções vindas de fora e do mercado. Usou o que tinha a seu alcance para fazer a sua parte. E uma boa parte, disse ele, "depende de nós, de como reagimos".

No caso brasileiro, destacou em suas conversas, o Estado tinha uma arsenal que poderia ser utilizado. E citou os investimentos da Petrobras, o papel dos bancos públicos (BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal) na manutenção do crédito e as medidas de desonerações tributárias para estimular setores como automobilístico e de eletrodomésticos.

Medidas que, segundo ele, se dependessem só da burocracia não seriam adotadas. Lembrou nas conversas com os presidentes que teve de trocar a direção de um dos bancos (Banco do Brasil) e mandou a Petrobras manter seu plano de investimento, depois de ser informado que a empresa iria suspender uma parte dele.

O fato é que Lula fez uma pregação mundial contra algo que será tema da campanha eleitoral de 2010: o Estado mínimo, associado ao modelo tucano de governar. Na opinião de Lula, a crise mostrou que nem sempre o Estado atrapalha, é ineficiente.

Bem, o fato é que, inegavelmente, a atuação do Estado, não só aqui como lá fora, foi essencial para enfrentar essa crise. Agora, a dúvida é sobre o segundo passo. O risco é a abandonarmos totalmente o mercado e nos apegarmos ao controle total do Estado. Lá fora, duvido que os países desenvolvidos adotem tal caminho.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

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