Pensata

Valdo Cruz

19/10/2009

Fim do entra e sai?

Publicidade

O ministro Guido Mantega (Fazenda) decidiu tentar pôr um fim no entra e sai de capital estrangeiro no país. Anunciou que, a partir de agora, a entrada de dinheiro externo no país para investimentos em renda fixa (títulos públicos e privados) e variável (ações na Bolsa de Valores) vai pagar 2% de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).

Muito provavelmente a medida não irá conter a onda de entrada de recursos externos no país para investimentos. Mas deve reduzir principalmente a volatilidade (o entra e sai) de dinheiro estrangeiro com fins especulativos e, por tabela, gerar uma boa grana para o caixa do Tesouro Nacional.

O segundo efeito vai ser muito comemorado pela equipe do presidente Lula. Em tempos de quedas seguidas na receita de impostos, a injeção de recursos por meio do IOF servirá para tentar dar uma reequilibrada no caixa da União. Segundo cálculos feitos por técnicos de Mantega, a medida poderia ter gerado nada menos do que R$ 7 bilhões do início do ano até 15 de outubro só na aplicação do IOF sobre operações na Bolsa de Valores.

As projeções indicam que, apenas nos primeiros quinze dias de outubro, o Tesouro Nacional teria recebido R$ 500 milhões extras se o IOF sobre a entrada de capital estrangeiro nas Bolsas já estivesse em vigor. Para quem até pouco tempo estava segurando a restituição do Imposto de Renda por falta de grana no caixa, a medida vem em boa hora.

Quanto à valorização do real em relação ao dólar, Mantega acredita que a medida anunciada ontem não irá ter grandes efeitos sobre a formação de preço da taxa de câmbio. Em outras palavras, ele não espera que a moeda americana tenha uma grande recuperação no seu preço nas próximas semanas. A expectativa é que ela pare de cair e dê uma leve recuperada, já que a cobrança de IOF de 2% vai desestimular o entra e sai de capital especulativo no país. Para esse tipo de investidor, ficar aplicando e tirando dinheiro do Brasil a todo momento vai ficar bem mais caro.

Os dados coletados pelo Ministério da Fazenda indicam que a volatilidade do mercado estava alto nas últimas semanas. Apenas nos 15 dias de outubro, a movimentação de compra de ações por parte de estrangeiros atingiu a cifra de R$ 27,8 bilhões. De venda, R$ 23,7 bilhões.

O governo não acredita, ou pelo menos torce por isso, para que a medida não afete a entrada do bom capital estrangeiro, aquele que vem para capitalizar as empresas nas Bolsas. A aposta é que, para o dinheiro externo que vem e fica mais tempo no país, os 2% extras de impostos podem ser compensados tranquilamente pela valorização das ações adquiridas na Bolsa.

Ou seja, Mantega tenta resolver dois problemas com uma tacada só. Segurar o preço dólar e dar uma reforçada no caixa do governo. Vai funcionar? A conferir. O fato é que, diante da enxurrada de dólares que todos estavam prevendo, ficar de braços cruzados é que não dava.

Valdo Cruz Valdo Cruz, 48, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal. Escreve às terças.

E-mail: valdo@folhasp.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca