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01/07/2008 - 18h23

"Vamos desaprender regras antigas"; Thaís Nicoleti fala sobre reforma ortográfica

da Folha Online

O acordo de unificação ortográfica da língua portuguesa nos países integrantes da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) tem como principal argumento, em favor da reforma, a possibilidade de produzir documentos oficiais em uma só versão, que até então eram duplicados em virtude das diferenças ortográficas entre o português do Brasil e o português lusitano.

A consultora de língua portuguesa Thaís Nicoleti, colunista da Folha e da Folha Online, diz que parece desproporcional a energia e dinheiro empregados para esse fim. "Há quem acredite que a reforma favoreceria um maior intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa, o que parece muito duvidoso", comenta. Ouça outros podcasts com a participação da colunista.

Thaís Nicoleti

A colunista apresenta como exemplo o caso do escritor português e Nobel de literatura José Saramago, cujas obras são editadas no Brasil respeitando a ortografia portuguesa, conforme exigência do autor. "É certamente o escritor português mais lido no Brasil, e nunca se soube de nenhuma dificuldade de compreender seus livros por esse motivo", afirma.

A consultora conta que em Portugal não se pronuncia uma palavra como "assembléia" com o "e" tão aberto como se ouve na pronúncia brasileira. "Pronunciam 'facto', com 'c', quando nós pronunciamos 'fato', sem o c, por exemplo. Já a palavra 'aspecto' tem o 'c' no Brasil, mas não o tem em Portugal, onde se diz 'aspeto'", explica.

Segundo Nicoleti, com a reforma, no caso do ditongo aberto de "assembléia", os brasileiros deixam de usar o acento, mas a mesma acentuação irá permanecer nas oxítonas, como "chapéu" ou "herói".

"Nos demais casos, António, facto e aspeto coexistirão com Antônio, fato e aspecto. As duas grafias passam a ser oficiais em todo o território da lusofonia, mas, como parece óbvio, cada um vai continuar usando o que sempre usou", declara.

Thaís Nicoleti diz que a demora para que Portugal assine o protocolo modificativo chegou a ser atribuída a um lobby das editoras portuguesas, que atendem com exclusividade o mercado do livro didático nos países africanos.

"Deixando de lado o aspecto (ou aspeto) comercial da questão, nós vamos desaprender as regras antigas e aprender as novas", conclui a colunista.

Thaís Nicoleti de Camargo" é também autora de "Redação Linha a Linha", da Publifolha, "Uso da Vírgula" (ed. Manole) e "Manual Graciliano Ramos de Uso do Português" (ed. Secom - Alagoas).

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