Veja como lidar com as brigas e ciúmes entre irmãos
da Folha Online
Até as menos promissoras das mães sobrevive aos anos que passa cuidando de seus filhos pequenos. O manual "Como não ser uma Mãe Perfeita" reúne dicas valiosas da gravidez aos anos pré-escolares, incluindo brigas de irmãos, visitas desastrosas, babás e carreiras. Confira trecho do livro:
| Divulgação |
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| Capa: "Como Não Ser Uma Mãe Perfeita" |
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O segundo colo: irmãos
Lembro-me de uma noite de Natal em que estava cercada de gente no mesmo estágio de produção de filhos. Um bom número de barrigões esbarrava aqui e ali, enquanto crianças pequenas engatinhavam e subiam nas cadeiras, pegavam comida com as mãos e puxavam a roupa dos pais errados, pedindo para ir ao banheiro.
Tendo conseguido alguns poucos minutos de liberdade para tomar um drinque e conversar com outro adulto, me vi sentada perto de um jovem pai também em período de curta liberdade. Éramos todos contemporâneos. Tínhamos discutido parto, comparado obstetrizes, relatado histórias de supositórios, trocado idéias sobre amamentação, visto nossos bebês começarem a andar e empurrado velocípedes juntos.
Éramos colegas. Eu, no entanto, era uma das pioneiras na subida da escada da formação da família. Não só Nicholas fazia sujeira com uma tigela cheia de cereais em um canto da sala, como Rose, aos 5 meses, sentava-se em um raro momento de silêncio no colo da vovó, do outro lado da sala. Sendo assim, o jovem pai, dando uma olhada para sua mulher novamente grávida, fez a óbvia e perigosa pergunta:"Como é ter dois?".
Pensei por alguns minutos, e me lembrei das madrugadas, do banho em dois estágios, das mamadas não sincronizadas, das batalhas e dos narizes escorrendo. Flexionei os ombros, cansados de carregar duas crianças escada acima ao mesmo tempo. Olhei para seu rosto plácido e inocente e disse: "Acho melhor não responder". Ele entendeu e, dois meses depois, descobriu por si só.
Um traço comum aos pais de dois ou mais filhos com menos de 5 anos é uma espécie de irritação diante das queixas de quem só tem um. É uma sensação muito parecida com o irônico desdém com que uma mãe cansada de noites maldormidas encara sua grávida, analítica e idealista amiga. Eu já notei esse mesmo desdém no olhar de amigos com três ou quatro filhos. Não há dúvida de que qualquer mãe de 12 filhos nos vê a todas como umas fracotes que não sabem nada da vida.
É bobagem querer disfarçar: o segundo filho muda tudo de novo, bem na hora em que as coisas estavam entrando nos eixos com o primeiro. Justamente quando a gente achava que conseguiria voltar a ter uma vida normal. Quem segue o intervalo de um a três anos para ter outro filho sabe do que eu falo: os pais têm um filho que já sabe andar, que passeia com eles fazendo perguntas fascinantes sobre patos, que está aprendendo a usar o banheiro e que já os convida para brincar com ele e de repente se vêem lançados de volta ao mundo quente e cheio de penumbra das fraldas e das imprevisíveis exigências de um ser indefeso.
Exatamente quando você está se acostumando a fazer acordos ("Cinco minutos e a gente vai brincar no parque"), surge aquele pequenino e implacável aiatolá querendo mamar AGORA! NESTE INSTANTE!, e você não tem tempo nem de desabotoar toda a blusa, quanto mais de acabar de montar o patinho de brinquedo para o outro filho. Justamente quando os pais já desenvolveram uma rotina aos fins-de-semana em que um dá tempo livre ao outro saindo para passear com o filho, os dois se vêem de novo a postos simultaneamente porque, se não for assim, ou um deles sucumbe à exaustão, ou o filho maior fica sem o passeio. A mãe que trabalha fora e se dividia em três (filho, trabalho, ela-e-marido) agora se divide em quatro (filho, outro filho, trabalho e, se Deus quiser, ela-e-marido).
Seu estilo de maternidade também muda: se você nunca precisou usar força física com seu filho, é só esperar o primeiro, deliberado e perigoso ataque ao bebezinho indefeso e sua mão se ergue involuntariamente para dar um tapa no delinqüente mais velho. Quem nunca apelou para o suborno basta esperar a primeira vez em que a mamada só for possível depois que o mais velho ganhar um chocolate.
A mãe que desprezou todas as técnicas más e egoístas que citei até agora para obter um tempo para si mesma começa a vê-las com outros olhos como uma forma de ter alguns momentos para dar atenção ao bebê. Essa mãe acabará cantando "Parabéns a Você" e soprando bolinhas de sabão enquanto disfarçadamente dá a papinha ao nenê; porque ela sabe que, se parar de entreter o mais velho, ele vai ficar nervoso e acabará fazendo coisas horríveis com aquela comida enquanto você tenta convencer o bebê a abrir a boquinha.
Quando a diferença de idade é muito pequena, pode ser que o mais velho não sinta ciúme uma criança de 1 ano acha tudo tão novo que o bebê é só mais uma maravilha. Por outro lado, a mãe terá uma longa estrada a percorrer com dois pacotes de fraldas a carregar e uma carga de exigência física que a levará ao limite de suas forças (os médicos costumam criticar mulheres que não esperam pelo menos um ano e meio para engravidar de novo).
Se seu intervalo for maior digamos, dois anos e meio, você estará mais preparada e terá mais chances de seu filho mais velho estar começando a ser independente. Por outro lado, dois anos e meio é o pico da "idade difícil", o que não é um contexto agradável para passar outro pós-natal. Mas quem espera mais do que três anos e engravida com um primeiro filho já independente, inteligente e até capaz de ajudar terá de encarar a dificuldade, para dizer o mínimo, de fazê-lo aceitar um enrugado e chato pequeno rival.
Em resumo: não existe intervalo perfeito entre filhos. Melhor parar de se preocupar com isso.
Meu próprio intervalo foi de 20 meses. Pode ser ótimo, pode ser péssimo. Eles já brincam um pouquinho juntos depois de um ano e poderão brincar cada vez mais. Por outro lado, durante um ano inteiro empilhamos dois tamanhos de fraldas no quarto e cada manhã, tarde e noite era um interminável desfile de bumbuns sujos. Mais: por uns dez meses tivemos de carregar os dois no colo até a cama, na hora de dormir, porque o mais velho teve um ataque de regressão.
A regressão dele, aliás, foi bem mais branda que a minha. É um choque muito grande (e pouco comentado) para a psique materna entrar no hospital ainda se referindo ao filho mais velho como "o nenê" e sair de lá dias depois com um nenê de verdade nos braços. Eu tinha chorosos pesadelos pós-natais em que meu primeiro e verdadeiro bebê era roubado e substituído por essa nova e sem graça versão. E, quando eu acordava, lá estava o primeiro
bebê, em casa, mas com pés enormes enfiados em sapatos de couro que cobriam os dedinhos que eu costumava contar.
Havia semanas em que eu chorava só de olhar para os pés dele; até um pé de sapato no alto da escada à noite me causava um acesso de choro.Agora, fico com vergonha só de pensar nessa fase; mas a ofereço, um tanto constrangida, como prova de que o segundo filho muda tudo.As mães sempre vêem os filhos como sendo mais novos do que realmente são e o choque do segundo filho traz para casa a dolorida constatação de que as crianças crescem e um dia vão embora, caminhando com seus pés enormes.
Chorar por causa de sapatos, porém, é um luxo que passa à medida que os duros fatos da vida com dois filhos (comparada à vida com um filhinho de estimação) se fazem presentes. Começando pelos problemas simples, logísticos:
Rotina e horários- A confortável e familiar rotina do filho mais velho é muito diferente da vida sem compromisso, imprevisível, do bebê que mama na hora que quer.Os primeiros meses serão simplesmente um caos. A única coisa que parece ajudar (além de ajuda efetiva, claro, que se mostra bem escassa) é manter o novo bebê no centro de tudo em um cesto na cozinha ou no carrinho para que a mãe não tenha de interromper uma brincadeira ou um trabalho para atendê-lo.
Poucas coisas são mais frustrantes do que ter um filho pequeno demais para ser deixado sozinho durante cinco minutos e, ao mesmo tempo, precisar voar até o quarto para pegar o bebê ou enfrentar uma sessão de persuasão e, no fim, pegar o mais velho no colo e levá-lo junto. Um recurso muito usado por pais de filhos ciumentos é programar as mamadas e carinhos explícitos no bebê para as horas em que o mais velho está dormindo ou brincando com o vizinho.
É um conselho bom do ponto de vista dos filhos, mas ignora o fato de que, se as necessidades dos dois se alternam tanto, não sobra à mãe nem um minuto para respirar, comer ou se sentar sozinha um pouco.Tudo bem se as noites são livres. Mas pouquíssimas crianças de menos de 3 ou 4 meses dormem a noite inteira. E um dia que começa às 6h e acaba às 23h, ou à meia-noite, é simplesmente terrível. Para mim, a grande libertação aconteceu quando consegui sincronizar a soneca da tarde dos dois. Com aquela hora e meia de paz, ainda que passada arrumando o caos da manhã, tudo parecia possível.
Aos seis meses, uma rotina agradável havia se estabelecido.O bebê tinha um horário de sono pela manhã que dava ao mais velho um "tempo exclusivo". O almoço era comum (a não ser pelo fato de que eu sempre tinha de ter um doce superdelicioso para desviar a atenção do mais velho do bebê que mamava,muito disfarçadamente, no peito). Ambos tiravam uma soneca das 13h às 15h. (Aí o caos se instaurava novamente na hora do banho. Mas essa é outra história.)
"Como não ser uma Mãe Perfeita"
Autor: Libby Purves
Editora: Publifolha
Páginas: 176
Quanto: R$ 24,90
Onde comprar: Nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha
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