Saiba porque as mulheres são "insatisfazíveis" no relacionamento e veja dicas para melhorar
da Folha Online
O universo que envolve o dia-a-dia de um casal é abordado no livro "Ah! O Amor..." , da Publifolha. Confira um capítulo do livro que relata de forma sincera e bem-humorada os conflitos de um casal:
| Divulgação |
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| Capa do livro "Ah! o amor..." |
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Nenhuma Brastemp
Considero-me uma dona-de-casa/mãe disfarçada de executiva, o que explica o fato de eu estar sempre atenta a exemplos do cotidiano que permitem analisar ângulos de relacionamentos. Uma antiga vizinha tinha facilidade em expressar de forma didática esses exemplos, com seu carregado sotaque ítalo-paulistano, entre eles um prosaico relato comparativo da conduta masculina:
Bela, quando você tem um namorado, ele vem para os encontros com orquídeas embrulhadas naqueles papéis transparentes das floriculturas, daquelas que você sabe que custaram uma fortuna. Uma beleza! Agora, basta você se casar para passar a receber flores embrulhadas em jornais, entregues dentro da sacola junto com as cebolas e os peixes comprados na feira livre. Ele ainda põe o "presente" sobre a mesa da cozinha e comenta : " Tá tudo muito caro, viu...". Eu ouvia e pensava com meus botões: Ao menos as flores ainda aparecem...
Essa desilusão quanto ao romantismo dos homens, que nós, mulheres, desejamos em tempo integral, acontece rápida e inevitavelmente com a convivência. Tive essas experiências já em meus curtos períodos pré-casamentos. No primeiro caso, lembro-me de uma noite em que, no auge da paixão, meu então namorado me disse que não poderíamos nos ver naquela noite, a exemplo do que acontecia em todas, porque teria de fazer revisão em seu orçamento doméstico.
Meu impulso imediato foi propor: passe aqui esse orçamento, eu reviso num minuto e podemos namorar depois. Fiquei na minha, é claro; teria sido muito invasivo de minha parte, mas já serviu de alerta para eu entender o espírito da coisa. Depois, já casada, continuei a experimentar decepções, em razão de expectativas muito altas de minha parte: para mim, um momento de romantismo deveria preceder a todo o resto.
Foi assim na primeira vez em que, estando ele a manusear fiações elétricas em casa, abracei-o, num ímpeto, e ele me pediu um tempo. Foi um balde de água fria. O.k., poderíamos morrer eletrocutados, mas que importância teria isso, se estaríamos morrendo abraçados? Diante de tal diferença de sentimentos, às vezes comento com meus botões que tenho sorte de meus eleitos não terem pendores poético-musicais, pois imagino que me tornaria escrava eterna se fosse musa de uma canção romântica. ("Onde não diremos nada/ Nada aconteceu/ Apenas seguirei, como encantado, ao lado teu.")
No segundo casamento a história se repetiu. Quando meu então namorado ainda tinha de viajar para me ver, fui surpreendida com a notícia de que num certo fim de semana ele não viria, por uma razão qualquer da qual não me lembro mais. Conversa vai, conversa vem, e ele, ingênuo, me contou que a cidade em que vivia teria sua melhor festa agropecuária, exatamente no tal fim de semana. Bingo! Ele havia me trocado por bois e vacas!
Hoje, após anos de convivência e algumas rusgas, ele até já aprendeu que não deve me atender ao telefone com um simples oi, como faz com todos. Não espero mais que dispare declarações do tipo Alô, paixão absoluta e maior da minha vida etc.; mas, ao menos, um Alô, meu amor eu exijo.
Concordo que nós, mulheres, colaboramos para esfriar o romantismo. Não deve ser muito inspirador quando o parceiro nos encontra à noite naquele pijama velho e sem graça, que é o nosso preferido. Também deve ser frustrante acordar e não deparar com uma mulher de novela, que sempre desperta penteada, maquiada e linda.
Na linha oposta, lembro-me de ter sido pilhada apenas uma vez, no início de meu segundo relacionamento - e foi um "vexame público": Lima e eu estávamos casados fazia um ano, e achei que o surpreenderia com uma lembrancinha, visto que não sou boa com datas. Consegui achar um tempinho no meio do dia e comprei um ralador de queijos. Parece estranho e pouco, mas era um ralador especial e importado, e o Lima é doido por massas, que ele próprio cozinha e depois encima com uma nuvem de lascas de parmesão. Ele veio me esperar já no hall do apartamento, e pude, orgulhosa, entregar-lhe o presente, certa de que estava em vantagem por ele ter se esquecido da data.
Entramos no apartamento, e eu é que fui surpreendida por muitos amigos que ele havia convidado para comemorar juntos. Não tive tempo de sumir com o ralador. Todo mundo viu e, para completar, ganhei do Lima algumas jóias. Senti-me como se fosse um marido que deu uma panela de pressão ou um ferro de passar para a mulher em seu aniversário. Ao menos serviu para a diversão dos convidados...
Mas a chave da questão é outra, mais abrangente e estrutural, e já cantada, desde sempre, em prosa, verso e filosofia: como disse Bernard Shaw, "Há duas tragédias na vida. Uma delas é não conquistar aquilo que o coração deseja. A outra é conquistar". Ou, nos versos de Vicente de Carvalho, a felicidade "existe, sim, mas nunca a encontramos. Porque ela está sempre apenas onde a pomos. E nunca a pomos onde nós estamos".
Em resumo: somos "insatisfazíveis", ou melhor, nossa satisfação é como orgasmo, dura instantes. Esse fenômeno é comprovado pela neurociência: a expectativa pelo atendimento ao desejo gera a emissão de dopamina pelo cérebro, substância que produz sensação de prazer. Mas a quantidade desse "doping natural" se mantém elevada até a conquista, a efetivação do desejo. Daí, começa a cair, com a conseqüente queda na sensação prazerosa, o que nos redireciona para outro desejo, como num moto-contínuo.
Idealizamos e desejamos uma pessoa, e o enlevo permanece intenso até que o sonho se realize - por isso, em geral, só duram as paixões platônicas, que não se concretizam. Embora a analogia seja rasteira, o modelo também funciona em outros tipos de desejo: há os que sonham ardentemente com um carro, por exemplo. Espiam anúncios, visitam lojas, planejam, até que conseguem o objeto de consumo.
Tudo é lindo nos primeiros tempos, a vontade é de equipá-lo, apertar cada botão, experimentar todas as velocidades, exibir o brinquedo novo. Passada a euforia, no entanto - e já introjetada a idéia de que o desejo foi atendido -, o carro passa a ser apenas um carro, talvez igual aos outros, quem sabe com alguns problemas e, com o desgaste, até fonte de dores de cabeça. Bem diferente do brinquedo que antes aparecia sob holofotes nos nossos sonhos, como fornecedor inesgotável de prazer.
No casamento, a enorme energia despendida durante a dança do acasalamento se esvai, e dormimos, cansados e um pouco desinteressados, sobre os louros da conquista. E embora se possa argumentar que sempre seria possível mais esforço em compreender o parceiro, mais generosidade - de resto, recomendáveis em qualquer tipo de relação -, o desgaste é inevitável; não é humano manter-se permanentemente em êxtase diante de uma conquista consolidada.
Os homens devem sentir esse peso com intensidade maior no casamento, já que as mulheres, ao menos, têm a paixão incondicional pelos filhos. Somente quando a relação é ameaçada, a chama pode reaquecer. Não é raro que parceiros em relacionamento morno sejam tomados pela fúria original se a relação é questionada (quantas separações não passam pela "repescagem"?). É comum, porém, que em pouco tempo a sensação de frustração confirme a insatisfação com os velhos problemas. Nesses casos, somente o novo volta a ser atraente.
Embora a leviandade nas relações seja uma característica de nossos tempos - e a mídia a comprova e a glamouriza diariamente, ao noticiar os namoros/separações meteóricos entre artistas -, no outro extremo está a idealização dos relacionamentos, que nos impõe uma meta quase inatingível: a de encontrar um parceiro pelo qual nos manteremos apaixonados para sempre.
Talvez precisemos desmistificar o casamento, retirá-lo do "mundo ideal" no qual ele foi criado e concluir que a boa convivência dá trabalho, exige esforço. O ideal do amor eterno pode acontecer, mas como exceção, não como regra. O máximo que podemos querer é viver a relação com respeito, sempre, e - perdoem-me o chavão - dure quanto durar.
"Ah! O Amor..."
Autor: Judith Brito
Editora: Publifolha
Páginas: 132
Quanto: R$ 27,90
Onde comprar: Nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha
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