Publifolha
20/03/2009 - 09h41

Risério mostra utopia da fraternização em "A Banda do Companheiro Mágico"

MARCELO PEN
Crítico da Folha de S.Paulo

Não é à toa que a chuva abra esta primeira incursão do poeta e antropólogo Antonio Risério na ficção, uma novela voltada para o público juvenil. O aguaceiro exerce duas funções principais, além da poética, esta última entrevista já no belo primeiro parágrafo.

Divulgação
Livro "A Banda do Companheiro Mágico", de Antonio Risério
Livro "A Banda do Companheiro Mágico", de Antonio Risério

A primeira conjuga-se com a tentativa do autor de desmistificar a visão turística que a maioria dos leitores pode ter de Salvador, onde transcorre a história. Ao contrário da idéia solar que se possa ter da capital baiana, choveria ali muito mais do que em outras localidades brasileiras, a ponto de o autor chamá-la de "cidade das águas bruscas".

A "verdadeira" Salvador

A "verdadeira" Salvador comportaria, então, a chuva e também os bairros da periferia, onde os morros deslizam com as torrentes repentinas, soçobrando casas e matando gente.

Assim, às zonas elegantes unem-se outras, ocultas aos olhos da burguesia. São mundos que estariam "perigosamente se enganando e se ignorando". Além disso, trata-se de uma cidade feita não apenas de praias e de monumentos, mas do presente e dos movimentos citadinos. Em Itaigara, no Rio Vermelho, na Graça, na Barra --assim como em Curuzu e em Pirajá--, Risério procura focar não no que é típico em termos turísticos, mas no que é comum no cenário urbano.

Apesar de algumas escorregadelas nesse sentido, como o panorama do pôr-do-sol no Porto da Barra, a ação transcorre principalmente nas casas, nos becos, nas ruas, nos ônibus, e, sobretudo, no colégio onde se reúnem os protagonistas.

Microcosmo da cidade

O Colégio Antônio Vieira é um microcosmo dessa Salvador diversa. Convivem ali, dentre outros, a judia Rebeca; o mulato Ravi, filho de um ex-hippie que navegou na contracultura; Julinho, que quer ser cineasta e se descobre gay; o negro Marcos, apelidado de Dendê, beneficiário de uma bolsa de estudos. Eles conjugam as atividades escolares com festas, conversas pelo MSN, debates sobre ídolos pop, o álcool e a maconha, demonstrações de rebeldia, namoros.

Como não podia deixar de ser, nesta ficção sobre uma cidade de contrastes, o mais notável relacionamento amoroso se dá entre Rebeca e Dendê. Apesar do preconceito que cerca ou já cercou a família de cada um dos jovens, a desconfiança ameaça o namoro, de sorte que o casal sente que "uma guerra civil havia se instalado dentro do coração de cada um deles".

Trata-se de uma guerra civil que espelha os descompassos da cidade. Risério vê tudo isso, mas prefere refugiar-se na utopia da fraternização, do final feliz. Desse modo, a chuva funciona (trata-se de sua segunda função) como elemento congraçador, unindo ricos e pobres, alunos e professores, pais e filhos, num mesmo abraço pluvioso, trazendo a todos seu quinhão de mazelas ao lado da promessa final de renovação.

Leia o primeiro capítulo de livro ambientado em Salvador.

A Banda do Companheiro Mágico
Autor: Antonio Risério
Editora: Publifolha
Quanto: R$ 22,00
Páginas: 96
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha