Publifolha
05/07/2007 - 17h40

Trecho de "Mãe é Mãe" fala de conflito de gerações

da Folha Online

Divulgação
"Mãe é Mãe", da Publifolha
"Mãe é Mãe", da Publifolha

Ter filhos em momentos diferentes da vida. Judith Brito passou por essa experiência aos 23 e aos 43 anos. Educação, trabalho e choque de gerações são alguns dos temas abordados pela autora, uma mulher moderna que divide seu tempo entre filhos e profissão.

O contexto político e histórico de cada época serve de pano de fundo para o divertido livro "Mãe é Mãe", da Publifolha.

Confira um dos capítulos do livro que revela que o gosto musical de gerações distintas nem sempre é diferente.

*

Conflito de Gerações

Tenho filhos que já nascem estranhamente antigos, ao menos no que se refere ao gosto musical e ao dom de se entender com pessoas da terceira (ou quarta) idade. João, ainda bem pequeno, ouviu uma vez Elvis Presley, que não era um habitué em casa, e se encantou. Daí em diante era só Love me tender e outros sucessos já na época fora de moda. Até o cachorrinho que ele ganhou em criança foi batizado de Elvis. Depois, percorreu modismos como os inevitáveis Guns'n'Roses e Nirvana, mas regrediu de novo até The Doors, para finalmente se estabelecer como beatlemaníaco.

Mateus, por seu turno, desde pouco mais de um ano é maluco pelos Rolling Stones, por Satisfaction em particular, com caras e bocas, além de indumentária improvisada, para acompanhar. Imagino que vá evoluir para um Emerson, Lake and Palmer ou The Who daqui a alguns anos. Nunca consegui entender a lógica dessas escolhas, boas, é verdade, mas distantes do hit-parade caseiro. Uma de minhas suspeitas é que se apegar a músicas, quaisquer que sejam, é uma forma de me fazer parar de cantar. Se já houver uma música sendo executada, devem pensar eles, a mamãe é obrigada a conter seu furor de Maria Callas debaixo do chuveiro (ou até fora dele).

Essa tese me ocorreu numa oportunidade em que, estando eu sozinha em casa com o João ainda pequeno, e após algumas horas de repetição irritante (reconheço) de uma única música, ele veio me pedir, com cara de sofrimento e num apelo vindo do fundo da alma: "Mãe, pelo amor de Deus, pára de cantar". Acho que me vinguei do João quando a Nina Hagen, aquela roqueira alemã mucho loca que namorou o Supla, veio ao Brasil. Na pré-adolescência, o João resolveu montar uma banda de música.

Resolvi brincar com a situação e me dispus a ser a cantora, prometendo performances como a da Nina Hagen, inclusive mostrando o traseiro durante os shows. Nunca vou me esquecer do quanto me diverti com a cara de espanto e preocupação do meu filho. Percebi que ele estaria disposto a acabar com todos os planos musicais para conter minha loucura. Percebi também que essa poderia ser uma arma e tanto - para porra-louquice, porra-louquice e meia. Os livros de orientação pedagógica bem que poderiam conter esse tipo de treinamento de guerrilha para pais de adolescentes.

Imagino como deve ser difícil para os meninos de hoje achar um mote para suas contestações de adolescência - a idade da reação à sonegação do acesso direto da infância à vida adulta, em que ficam num limbo por longos anos. Sendo eles filhos (ou agora já netos) da geração sexo, drogas & rock-and-roll (apenas em tese, que fique claro), contestar o que mais? Houve e há modismos como os estilos punk, gótico e outros, mas são só variações (chocantes mesmo foram os primeiros cabeludos, as primeiras minissaias). Sexo, por exemplo, na atitude é hoje muito mais cercado de cuidados e recomendações, inclusive por conta da aids.

Para dar desgosto aos pais, ao contrário de antes, só sendo caretas mesmo... Segundo Contardo Calligaris, em A adolescência, "se o imperativo cultural dominante é 'Desobedece!', 'Prova tua autonomia!', então desobedecer pode ser uma maneira de obedecer. E obedecer, quem sabe, talvez seja o jeito certo de não se conformar". Fazendo uma comparação bem simples entre algumas gerações com as quais convivi diretamente ou sobre as quais ouvi a história oral (e que corroboram as teses de vários autores): boa parte dos imigrantes ou filhos deles viveu nas comunidades rurais, em grupos de parentesco e vizinhança relativamente reduzidos e fechados, com pouco ou nenhum contato com o mundo urbano.

Naqueles tempos e naquelas comunidades, o fenômeno da adolescência ainda não havia se estabelecido, passava-se da infância para a vida adulta sem escalas, os valores eram transmitidos de geração a geração quase sem contestação, a vida era para ser reproduzida nos moldes da geração anterior, e pronto. Simples assim, o que certamente reduzia a muito pouco o grau de incerteza sobre os projetos de vida (o futuro era o melhor casamento possível, o maior número possível de filhos e muito trabalho na terra herdada, ou comprada a duras penas). Nas gerações seguintes - nas quais me incluo -, a família já estava submetida às oportunidades e incertezas da cidade; os valores morais e os costumes transmitidos eram os mesmos de antes, mas a recepção já era filtrada pelos novos valores criados pela adolescência contestadora.

Ficamos numa espécie de "sanduíche cultural", prensados entre o que achávamos certo, libertário e inovador, e os antigos costumes impostos sem grandes possibilidades de meio-termo. A dissonância era nossa, dos filhos, não dos pais. Para eles era mais prático: não e pronto. Aliás, era um "não" desnecessário até de ser declarado, tão implícito ele estava em nossa educação desde o nascimento. Finalmente, na convivência com nossos filhos, talvez a dissonância seja completa, nossa e deles: concordamos em tese (ou até na prática) com a proposta de ação dos filhos, mas a sociedade não necessariamente.

E aí? Deixamos ou não os filhos/as dormirem em casa com as namoradas/os? E quanto à bebida, ao cigarro e outras experimentações? Li muito sobre ter bom senso e equilíbrio nessas situações, mas na hora H são outros quinhentos (no fundo, talvez desejemos filhos rebeldes no modelo Chico Buarque: bom moço na vida pessoal e contestador brilhante só da vida política). A vantagem óbvia é o diálogo, muito maior nos dias de hoje. Parece-me uma experiência bem mais enriquecedora esse confronto, essa dúvida, esse questionamento constante, por mais difícil que seja lidar com eles no dia-a-dia. A falta de cerimônia é total.

Eu não teria coragem de sugerir aos meus pais uma tatuagem como o João me propôs (que acabei não fazendo, por pura preguiça). Ou de convidar um deles para surfar no Havaí, o que achei por bem não aceitar, para poupar o João de um vexame, visto que não consigo me equilibrar nem numa bicicleta, quanto mais numa prancha. Por outro lado, o risco dessa proximidade tão maior, desse convívio muito mais transparente e sem culpas por parte dos filhos (que não precisam mais esconder dos pais o que fazem) é a pasteurização do comportamento, mediante a idealização e a conseqüente imitação da adolescência pelos adultos.

Roupas são cada vez mais parecidas, mães se esmeram para reproduzir os corpos malhados das filhas, muitas vezes competem com elas em poder de sedução. Daí vai ficar complicado mesmo. Se já estamos deixando esses meninos na berlinda por anos, sem a imunidade infantil e também sem o poder da vida adulta, e agora ainda por cima lhes tiramos o espaço para protestar por isso - porque na verdade lhes roubamos estilo de vida, de roupa, objetos de desejo, tudo -, qual será a diferenciação possível? E pensar que eu tenho pela frente um futuro adolescente para me responder a essas questões, justamente quando eu já estiver preocupada com crochês radicais e bailes funks da terceira idade...

"Mãe é Mãe"
Autor: Judith Brito
Editora: Publifolha
Páginas: 112
Quanto: R$ 24,90
Onde comprar: Nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha

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