Eduardo Giannetti leva João Gilberto para ilha deserta; leia trecho
da Folha Online
Imagine uma ilha deserta e uma escolha: selecionar dez discos para levar com você.
Sete apaixonados por música --Marcelo Coelho, Tom Zé, Luiz Tatit, Arnaldo Cohen, Céline Imbert, Eduardo Giannetti e Lia Rodrigues -- revelam quais "tesouros" musicais levariam para essa viagem no livro "Ilha Deserta - Discos", da Publifolha.
Leia abaixo trecho do livro em que o economista Eduardo Giannetti explica por que escolhe João Gilberto em sua lista.
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João Gilberto
"Um país pequeno com horizontes pequenos", afirmou o rei Leopoldo II sobre a Bélgica. Será essa a vocação brasileira? Ouso crer que não. "Se um grande povo não acreditar que a verdade somente pode ser encontrada nele mesmo; se ele não crer que ele apenas está apto e destinado a se erguer e redimir a todos por meio de sua verdade, ele prontamente se rebaixa à condição de material etnográfico, e não de um grande povo.
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| Capa do livro "Ilha Deserta - Discos" |
Uma nação que perde essa crença deixa de ser uma nação." Como ler o desafio lançado por Dostoievski, em Os Possuídos, e não se pôr imediatamente a pensar no Brasil ideal que pulsa e vibra nas entranhas do Brasil real?
É curioso. Quando penso na grande utopia de Brasil que povoa, inspira e anima os meus sonhos, não é nos livros nem no cinema, nas artes visuais nem na literatura, no teatro nem na filosofia política que busco a fonte primordial da visão que me alimenta. É na música popular. Ou, mais precisamente: é no jeito musical de ser que nasce com Dorival Caymmi e Ary Barroso e desabrocha no milagre da bossa nova de Tom Jobim e João Gilberto.
O poder misterioso da música faz com que ritmos e melodias, embora tão-somente ondas sonoras, se assemelhem a estados de alma. Ao sentir e buscar conceber no âmago de mim mesmo o Brasil ideal que vivifica os meus sonhos o Brasil capaz de me fazer acreditar que podemos ser mais (muito mais!) do que simples material etnográfico para diversão de turistas e antropólogos, é no canto & violão de João Gilberto que encontro a sua mais plena e apurada expressão.
Do que nos fala a utopia secreta de Brasil entranhada no dom musical de João Gilberto? Ela nos fala de um ideal de vida assentado na tranqüilidade de ser o que se é. Ela nos fala da existência natural do que é belo; da busca da perfeição pela depuração da forma e pela supressão rigorosa de tudo o que afasta do essencial.
Ela nos fala da supersofisticação pelo despojamento. Ela nos fala de um outro Brasil, nem mais verdadeiro nem mais falso que o existente apenas reconciliado consigo próprio. De um Brasil altivo e aberto ao mundo, curado da doença infanto-colonial do progressismo macaqueador e seu avesso o nacionalismo tatu. De um Brasil corajoso, capaz de afirmar e viver seus valores sem bravatas e estridências.
De um Brasil que trabalha (o suficiente), mas nem por isso deixa de transpirar libido por todos os poros. De um Brasil capaz de apurar a forma sem perder o fogo uma nação que se educa e civiliza mas preserva a chama da vitalidade iorubá filtrada pela ternura portuguesa. Uma nação que poupa e cuida da previdência mas nem por isso abre mão da disponibilidade tupi para a alegria e o folguedo. A utopia do canto joão-gilbertiano descortina a trilha de um Brasil redimido não perante o mundo (isto é decorrência), mas perante si mesmo. Tupi and not tupi. Um Brasil feliz.
"Não se pode machucar o silêncio, que é sagrado." Por sua excepcional clareza, enxutez e repertório, João Gilberto (o "álbum branco") é o registro definitivo quase diria absoluto de sua arte. É surpreendente que esse disco, gravado em 1973, permaneça insuperável em termos de nitidez e apuro técnico. Na ilha, como na vida, é nele que eu reencontraria forças sempre que os cupins da dúvida e da desesperança ameaçassem os alicerces de minha grande fé na capacidade do Brasil de algum dia mostrar a si mesmo (e ao mundo) a que veio.
Eduardo Giannetti é professor das faculdades Ibmec São Paulo e autor de livros, entre os quais: Vícios Privados, Benefícios Públicos?, Auto-Engano, Felicidade, O Mercado das Crenças, O Valor do Amanhã, todos editados pela Companhia das Letras.
"Ilha Deserta - Discos"
Autores: Tom Zé, Marcelo Coelho, Arnaldo Cohen, Luiz Tatit e outros
Editora: Publifolha
Páginas: 192
Quanto: R$ 29,00
Onde comprar: Nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha
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