Novela de Fernando Bonassi "prevê" futuro violento em São Paulo, com crianças no poder
da Folha Online
Em uma "ex-cidade" arrasada pelos efeitos da guerra, que pode ter sido algum dia a "São Paulo do Brasil" como a conhecemos hoje, as crianças matam indiscriminadamente os adultos. O próprio exército e governo abandonam a cidade. Em meio ao caos e ruínas, um jovem escreve um diário relatando tudo que ocorre. Até que um dia descobre o que seria praticamente improvável neste cenário, o amor.
Os detalhes desse diário estão em "Diário da Guerra de São Paulo", novo livro do colunista da Folha, Fernando Bonassi, com fotos de João Wainer, também da Folha.
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| Diário da Guerra de São Paulo |
O volume integra a série de novelas destinadas ao público infanto-juvenil, "Cidades Visíveis", editado pela Publifolha. O primeiro título da série é A banda do companheiro mágico de autoria de Antonio Risério.
Ouça entrevista com Fernando Bonassi e João Wainer a respeito de "Diário da Guerra de São Paulo"
O novo livro de Bonassi retrata um tempo desconhecido, no entanto, alguns trechos remetem a um futuro não muito distante, anterior ao apocalipse. Nele, o narrador relata o que vê no seu entorno, com detalhes a respeito do que restou da ex-cidade, as ruínas de locais onde antes ocupados por bairros inteiros, prédios, viadutos e edificações se transformando em bunkers de guerra, miséria, caos e violência.
O autor dá o seu recado logo nas primeiras páginas, em forma de alerta aos "chatos". "Aviso aos chatos: livros como este são escritos para que histórias como estas não aconteçam".
E o aviso se faz valer em cada uma das páginas seguintes. Os relatos das catástrofes são constantes. Estoque de alimentos escassos, crianças sendo levadas às escolas por blindados do Ministério da Educação, drogas químicas introduzidas no ensino público para ajudar as crianças a lembrarem de algumas coisas e esquecerem outras, pouca água filtrada e clima de 43º C à sombra, são algumas das referências do livro.
Nesse cenário a individualidade aflora, as famílias ficam escassas --em parte pelo extermínio de adultos-- e sobra rivalidade. "As crianças matam os adultos pois os consideram algo como extraterrestres. Como as crianças não sabem o que os jovens são [nem crianças, nem adultos] eles são poupados", diz Bonassi.
O narrador encontrará Ana C., alguém que, segundo ele, tem perto de 12 anos e menos de 20. Em determinado momento, o narrador é atingido na cabeça. Após acordar ele pergunta à personagem se havia morrido. Ela diz que "mais ou menos". "Foi mais para aprender que a gente morre um pouquinho todo dia, mas que ganha muito tempo quando acha que morreu e percebe que está vivo". É aí que se percebe ser possível a busca pela "humanidade", mesmo em meio ao caos.
PCC
Em entrevista Bonassi revela que a idéia de escrever "Diário da Guerra de São Paulo" nasceu em maio de 2006, durante os ataques do PCC a São Paulo.
"Me senti como um judeu num gueto ou um palestino. O medo de estar na rua era constante", afirma o escritor. "Era [o livro], para mim, uma antevisão do que poderia acontecer", diz.
Bonassi trata de relativizar. "Nada nesse livro é mais forte do que as imagens que podemos ver no Human Rights Watch [ organização independente que dedica-se a proteger os direitos humanos das pessoas em todo o mundo]. Ninguém verá palavras mais contundentes do que aquelas faladas num telejornal do horário nobre", afirma.
O autor
Bonassi é roteirista de cinema, dramaturgo, cineasta e escritor de diversas obras, entre elas As Melhores Vibrações, também editado pela Publifolha.
Como co-roteirista de filmes, destacam-se, entre outros, "Os Matadores", "Carandiru" e "Cazuza". No teatro Bonassi também têm uma atuação profícua, entre eles o ótimo "Pequeno Sonho em Vermelho", para o Linhas Aéreas, onde aborda a solidão urbana e as desilusões amorosas de cada dia, e o excelente "Apocalipse 1,11", para o Teatro da Vertigem, uma interpretação urbana e sagaz das revelações de João na ilha de Patmos, conforme a bíblia.
Diário da Guerra de São Paulo
Autor: Fernando Bonassi
Editora: Publifolha
Páginas: 104
Quanto: R$ 22,00
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha
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