Conheça Gaia, uma adolescente "natureba" que vive em Porto Alegre
da Folha Online
Ser adolescente não é fácil, ainda mais quando se tem uma vida um tanto quanto diferente, como é o caso de Gaia, uma menina que mora em Porto Alegre e convive com os dilemas tradicionais da adolescência - ela convive com a dúvida de ter sido adotada - e ao mesmo tempo foi criada de maneira alternativa: seus pais a incentivam a ler livros ao invés de ver televisão e dão grande importância à preservação da natureza.
Esta é a personagem principal de "Mais ou Menos Normal", da Publifolha, uma novela que envolve Gaia e seus amigos em uma trama que tem como cenário a capital do Rio Grande do Sul.
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| Livro conta história de menina gaúcha que tem uma vida mais ou menos normal |
O volume integra a série de novelas destinadas ao público infanto-juvenil, "Cidades Visíveis", editado pela Publifolha. Ainda compõem a série: "A Banda do Companheiro Mágico", "Diário da Guerra de São Paulo" e "O Coração às Vezes Pára de Bater".
Leia o primeiro capítulo do livro, no qual a personagem Gaia conta como é sua vida em Porto Alegre.
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De onde eu vim
Meu aniversário cai no dia do aniversário de Porto Alegre, 26 de março.
Coincidência muito grande. Até bem pouco tempo atrás, eu não acreditava que era essa a data em que eu nasci. Mesmo que seja a data que consta na certidão de nascimento.
Pode até ser que eu tenha nascido no dia 26 de março, mas não sabia se meus pais eram meus pais.
Esclarecendo: eu comecei a desconfiar que era adotada.
Desconfiava porque tinha ouvido uma conversa muito estranha sobre adoção - o pai e a mãe não sabiam que eu estava escutando. Eu devia ter perguntado a verdade naquela hora mesmo, mas me faltou coragem.
Sabe aquele pensamento que fica cutucando por dentro? Por um tempão, por mais que eu me preocupasse, não conseguia saber de jeito nenhum se meus pais eram meus pais biológicos. Sempre que eu ia perguntar, a pergunta morria na minha boca, nunca ia adiante. Nunca.
Todo mundo, afinal, além de querer ser como as outras pessoas, também tem direito de saber quem é o pai e a mãe.
Eu sei que a história é estranha. Estranha mesmo, eu também acho. Minha vida é toda estranha. Como palmeiras plantadas em pontes. Ou um rio que é lago. Ou como uma rua que se chama da Praia e que não tem praia coisa nenhuma.
Eu queria muito ser normal.
Descobri que as pessoas normais só são normais se são mais ou menos. Mais ou menos normais.
Quando eu nasci, eles, meus pais tinham 35 anos - os dois têm a mesma idade. Casaram "tarde", é o que dizem. "Tarde porque precisavam se encontrar", diz meu pai. Casaram por amor e porque tinham muita coisa em comum, coisas que não são comuns na vida de outras pessoas: os dois colecionavam cristais de quartzo, mandalas, entendiam de alimentação funcional, budismo, feng shui, cabala e veganismo.
Eu sou "a maior bênção" que eles tiveram. O pai e a mãe decidiram criar "a maior bênção" da maneira "mais natural" possível. O que quer dizer que:
1. enquanto as gurias têm nomes como Patrícia, Carla ou Viviane, eu me chamo Gaia. Gaia é a deusa grega da Terra.Eu sou a única guria chamada Gaia que existe no mundo, eu acho;
2. enquanto as outras crianças tomam refrigerante, eu sou obrigada a tomar chá gelado. Ou suco de laranja com mamão e açúcar mascavo;
3. enquanto todo mundo da minha idade come cachorro-quente, eu como pedaços de cenoura e de aipo;
4. enquanto os alunos do colégio ouvem Skank, ANX0, Acústicos e Valvulados, Tom Bloch ou Inimigos HP em iPods, eu tenho que ouvir Haydn, Beethoven e Vivaldi;
5. enquanto eles vêem até o Big Brother Brasil na tevê, eu era obrigada a ler Vinte Mil Léguas Submarinas e todo o Monteiro Lobato;
6. enquanto as pessoas vestem Lycra, tactel e outros tecidos sintéticos, eu tenho que vestir camisetas de algodão, shorts de linho ou tecidos reciclados de embalagem pet;
7. enquanto as crianças de Porto Alegre encontram a turma na praia em Capão da Canoa ou Tramandaí, eu tenho que ir para os Aparados da Serra ou fazer trilhas no meio do mato. Ou excursões ao templo budista de Três Coroas;
8. enquanto a gurizada gasta os dedos em videogames, eu tenho que brincar com um jogo em que planejo o "curso ideal de um rio e a exploração de recursos sem danos ambientais";
9. enquanto as adolescentes têm até namorado, eu, até bem pouco tempo atrás, tinha vergonha de contar para os guris da minha idade como era minha vida;
10. enquanto todo mundo sai para passear com a turma de amigos, meus dois únicos amigos são o Prefácio e o Marcelo - e os dois nem se conhecem direito;
11. enquanto as pessoas têm amigos que nasceram em algum hospital, um dos meus amigos nasceu num avião que sobrevoava Nova York.
Me digam aí: é mole?
Toda a vez que eu me queixava por ser tão diferente de todo o mundo e porque eu também queria, pelo menos, assistir à televisão, a mãe dizia que anormais eram os outros, "que vivem correndo atrás de dinheiro e de consumo". A mãe e o pai decidiram não ter pressa e viver dentro de uma tal "simplicidade voluntária". Absolutamente alternativo.
O programa preferido da mãe e do pai comigo não é ir ao shopping center ou à churrascaria. O programa preferido é massagem nos pés.
A gente senta no tapete da sala, tira os sapatos e as meias e, sem dar bola para o chulé, enche a mão de hidratante e massageia os pés uns dos outros. Eu massageio os pés da mãe, a mãe massageia os pés do pai, o pai massageia meus pés. Eles acham tudo muito divertido. Melhor que ver televisão. O pior é que ainda hoje eles acham que esse é o melhor programa do mundo.
Eu pensei que tudo isso aí de cima já fosse coisa suficiente para eu me sentir estranha. Mas depois, quando comecei a desconfiar que eu era adotada, a coisa piorou bastante.
"Mais ou Menos Normal"
Autor: Cíntia Moscovich
Editora: Publifolha
Páginas: 112
Quanto: R$ 19,90
Onde comprar: Nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha
