Publifolha
03/12/2007 - 09h30

Livro traz sugestões para diminuir taxa de juros

da Folha Online

O jornalista Celso Pinto, integrante do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo e do Valor Econômico, discute a política inflacionária do PT, durante o primeiro mandato de Lula, no livro "Desafios do Crescimento", da Publifolha.

Divulgação
Livro traça situação política e econômica do país nos últimos vinte anos
Livro traz situação política e econômica do país nos últimos anos

O volume reúne artigos de economia do jornalista publicados nas últimas duas décadas, do período dos militares ao governo de Lula, sobre política e economia.

Leia abaixo artigo que apresenta sugestões para o PT diminuir os juros.

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Conselho para o PT

Nos últimos três meses, de julho a setembro [de 2002], a inflação, medida pelo IPCA-15, subiu em média 0,8% ao mês, o que equivale a 10% ao ano. O IGP-M, no mesmo período, subiu uma média de 2,2% ao mês, equivalente a 30% ao ano.

Faz sentido fazer essa conta? Não, porque o que puxou os índices recentes foram fatores que tendem a ser temporários. Mas, poucos anos atrás, seria exatamente esta a conta que o mercado financeiro estaria fazendo para tentar adivinhar a inflação futura e para pressionar por mais juros nos títulos do governo.

Na realidade, na última sexta-feira [27 de setembro de 2002], o mercado financeiro estava projetando uma inflação, em 2003, de 5,5% medida pelo IPCA e de 7% medida pelo IGP-M. Ou seja, o mercado acredita que o câmbio puxou os preços, mas não de forma permanente. Comparada à inflação prevista pelo mercado, a taxa básica de juros, a Selic, de 18%, continua parecendo atraente.

A fé do mercado vai além. A meta para a inflação de 2003, que deveria ser imutável, havia sido fixada, ano passado, em 3,25%. O Banco Central mudou-a para 4% e ampliou o intervalo de tolerância de 2 para 5 pontos percentuais. Não contente com isso, o BC anunciou, esta semana, que a meta central subiu para 5%, porque ele não considerará o efeito da inércia do câmbio sobre os preços.

A meta central é vital, porque é a partir dela que o BC calibra sua política de juros. Como o BC projeta hoje uma inflação de 4,5% em 2003, a um câmbio de R$ 3,20 e Selic de 18%, ele está sinalizando que não só não é preciso elevar os juros em resposta à elevação recente da inflação, como é possível reduzi-los, caso o câmbio recue um pouco. Ninguém no mercado chiou.

A mágica vem da aplicação do regime de metas inflacionárias por um BC que construiu um razoável estoque de credibilidade. O mercado acredita que o impacto cambial será temporário, porque foi o que aconteceu, mais de uma vez, desde a livre flutuação, em 1999. E aceita a idéia do "expurgo" da inércia do câmbio, porque os argumentos técnicos do BC, que rejeita uma super-compressão sobre os preços livres (com recessão e desemprego) para compensar choques de oferta, foram amplamente discutidos, de forma transparente, no passado recente.

O resultado é que as projeções inflacionárias do mercado não dispararam (nenhum banco projeta dois dígitos para 2003) e o BC não precisou subir os juros. O juro real, aliás, pode até cair, ao longo dos próximos meses, pelo impacto da inflação temporária maior, mesmo sem redução nominal da Selic.

Isso só funciona, contudo, se o BC tiver credibilidade, e ela vem da equipe, já que não há mecanismo institucional que garanta a continuidade da sua política. Num eventual governo Lula, que já rejeitou a idéia de manter a mesma equipe, será preciso construir uma nova credibilidade do BC, ou expectativas inflacionárias poderão acabar forçando um juro maior.

É um equívoco imaginar que o regime de meta inflacionária é o responsável pelos juros altos. Dois economistas renomados da Universidade Bocconi, de Milão, Carlo Favero e Francesco Giavazzi, fizeram um estudo sobre as razões do juro alto no Brasil ("Why are Brazil's Interest Rates so High?"). Construíram um modelo em que olharam as projeções de inflação do mercado, até dois anos para a frente, e projetaram as reações esperadas do BC a elas, dentro dos padrões do sistema de metas inflacionárias. Conferiram o resultado com as taxas projetadas nos mercados futuros para o mesmo período.

A conclusão é que as taxas do mercado futuro são muito maiores do que deveriam ser, se embutissem apenas a projeção de como a política monetária do BC vai reagir à inflação. A diferença para mais, em maio, quando o estudo foi feito, ia de 5 pontos percentuais para seis meses até 12 pontos percentuais para dois anos, atravessando o novo governo. Ou seja, uma gigantesca diferença. Eles concluem que essa diferença é provocada pelas incertezas macroeconômicas e pelas dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida interna.

A dívida interna brasileira é grande e cara (os juros custaram uma média de 8% do PIB ao ano, de 1996 a 2000). Para ser sustentável, ela depende de crescimento, juros razoáveis e superávit primário que garanta que o estoque não vai continuar a crescer - o que não ocorreu, no Brasil, nos últimos anos.

A Itália é um país com enorme estoque de dívida e um custo, em juros, que superava o brasileiro: ficou acima de 10% do PIB ao ano, em média, de 1990 a 1996. A experiência italiana mostra que, quando o governo consegue produzir um superávit primário maior do que o necessário apenas para manter a dívida estável (ou seja, suficiente para reduzir o estoque), acaba sendo premiado pelo mercado com uma queda mais forte nos juros, como aconteceu em 1994 e a partir de 1996. Os juros menores, por sua vez, ajudam a reduzir o estoque da dívida e a necessidade futura de superávits primários, num círculo virtuoso. O estudo sugere que gerar superávits primários maiores pode ser uma espécie de investimento, com alto retorno, em termos de redução nos juros.

Um empresário levou a Aloízio Mercadante, assessor econômico do PT, a idéia da criação de um Conselho de Assessores Econômicos, independente, ligado ao presidente, nos moldes do que existe nos Estados Unidos. Mercadante gostou da idéia.

Valor Econômico e Folha de S.Paulo, 3/10/2002.

"Desafios do Crescimento"
Autores: Celso Pinto
Editora: Publifolha
Páginas: 400
Quanto: R$ 39,00
Onde comprar: Nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou no site da "[Publifolha