Clóvis Rossi: "Independência: formidável artigo jornalístico"
da Folha Online
Depoimentos e palestras de 26 jornalistas e intelectuais brasileiros estão reunidos em "Um País Aberto: Reflexões sobre a Folha de S.Paulo e o jornalismo contemporâneo", livro da Publifolha sobre a história do jornal e temas atuais do jornalismo --econômico, on-line, cultural-- e a relação entre imprensa e pesquisas de opinião.
Leia abaixo texto de Clóvis Rossi, colunista, membro do Conselho Editorial da Folha de S.Paulo e autor de "Enviado Especial" (Senac São Paulo, 1999) e "O Que É Jornalismo" (Brasiliense, 1995), entre outros. O relato fez parte do ciclo de seminários de 2002 da Cátedra de Jornalismo Octavio Frias de Oliveira, mantida pela UniFiam-Faam.
Também estão disponíveis para leitura os artigos "Um pai puritano e iluminista", de Otavio Frias Filho; "Um País Aberto", de Octavio Frias de Oliveira, e "Empresário primoroso, jornalista completo", de Boris Casoy.
INDEPENDÊNCIA: FORMIDÁVEL ARTIGO JORNALÍSTICO
25 de fevereiro de 2002
Tenho que confessar um certo constrangimento em participar de eventos deste tipo, eventos em que a gente tem de falar bem das pessoas, porque minha preferência é por falar mal, é fazer críticas, e até pelos olhares que eu recebo de alguns dos presentes tenho a impressão de que esse esporte preferido tem sido praticado talvez com constância excessiva.
Como não é prudente nem saudável falar mal do patrão, não seria o caso de correr esse risco agora, até porque, quando o Otavio Filho me consultou sobre a participação neste evento, eu disse a ele que teria o maior prazer em participar, porque seria praticar um dos dois esportes preferidos meus. Um deles é falar mal do presidente da República, e outro é falar bem do sr. Frias, porque eu tenho por ele o maior dos carinhos, não apenas respeito, mas realmente carinho, aprendido na convivência de 15 anos, convivência praticamente diária; não por ser o patrão, mas pelos gestos, palavras e lições aprendidas nestes 15 anos de convivência quase diária. Por isso, não vou falar mal dele, mas vou falar um pouquinho sobre o lado político da Folha de S.Paulo nos anos Frias. Acho, no entanto, que seria um tanto redundante e até monótono, especialmente num ambiente jornalístico como este, na presença de participantes da história política do país em muitos destes últimos anos, fazer simplesmente uma memória do que foi a Folha politicamente nos últimos 40 anos.
Suspeito que todos (ou a grande maioria) saibam que a Folha, como praticamente toda a grande imprensa, apoiou, por exemplo, o movimento militar que derrubou o presidente João Goulart em 1964. A maioria certamente também sabe que a Folha foi das mais incisivas instituições na campanha em favor da anistia para os políticos pelo regime de 1964. Com mais certeza ainda, por ser mais recente, deve estar na memória de todos o papel destacado que a Folha teve na campanha das Diretas-Já, a maior mobilização popular da história de um país que não está propriamente habituado a mobilizar-se.
O engajamento do jornal foi tão irrestrito, tão amplo, tão generoso, que o editorial de capa publicado no dia seguinte à derrota da emenda das Diretas-Já usava um insólito "nós" como sujeito. "Caiu a Emenda, Não Nós" era o título, denunciando por si só o engajamento do jornal nessa campanha, um dos pontos altos da história do jornal e da história do país. Exatamente por serem fatos tão notórios, e alguns deles tão recentes, prefiro falar de um ângulo em que o jornalismo e a política se misturam e no qual a Folha, sob o comando de Octavio Frias de Oliveira, inovou profundamente também nessa área. Quase diria que a Folha revolucionou a mídia brasileira. Refiro-me à adoção da independência com pilar editorial básico do jornal.
Convém antes lembrar que o jornalismo brasileiro nasceu menos para dar informações e mais para defender bandeiras, causas, personalidades, partidos. Nasceu ou cresceu para lutar contra ou a favor da República ou da Abolição, do partido X ou Y. E assim veio até muito recentemente. Ousaria dizer que assim se comportou até que o impeachment de Fernando Collor de Mello, em 1992, desmoralizou um jornalismo que o havia tratado como estadista. Dos grandes jornais brasileiros, a Folha, exatamente pela independência que adotou como critério editorial essencial, foi a única que não embarcou na onda collorida. Ao contrário, tratou-o como deve ser tratado qualquer candidato. Investigou, denunciou as mazelas de seu governo, primeiro na Prefeitura de Maceió, depois no governo do Estado de Alagoas, sem prejuízo de, em editoriais, defender muitas das propostas do candidato.
Esse papel exemplar de independência repetiu-se continuamente ao longo dos anos. Lembro-me do dia em que voltava de Brasília para São Paulo, após ter participado da cobertura do impeachment de Fernando Collor. Encontrei no aeroporto um dos principais nomes do jornalismo da Rede Globo de Televisão, que me permito não revelar porque não me deu autorização para tanto, nem imaginava que alguma vez eu mencionaria o episódio. Na conversa, enquanto esperávamos o avião, ele reconheceu o papel relevante que a Folha desempenhara em todo o período Collor, como candidato ou como presidente, e fez até uma espécie de meaculpa em relação ao jornalismo praticado pela Rede Globo de Televisão, chegando a prever mudanças no comportamento da mídia daí em diante. De fato, a partir de então, o jornalismo brasileiro deixou de ser um apêndice do governo de turno como boa parte havia sido até então.
Os presidentes Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso foram submetidos a um processo de veiculação de informações negativas talvez inédito na história da República. É verdade que, em momentos anteriores, como no pré-golpe de 1964, havia também informações negativas sobre governantes, mas em geral motivadas por intenções políticas e não jornalísticas, como agora parece ser a tônica. Carlos Lacerda atacava o governo Getúlio Vargas, a "Última Hora" defendia o governo Getúlio Vargas, mas, em ambos os casos, fazia-se muito mais política do que jornalismo, ao contrário do que parece acontecer agora, sem desprezar, claro, o papel político que a mídia ainda exerce. Talvez seja pretensão demais, explicável em um jornalista casado com a Folha há mais de 20 anos, mas me arrisco a dizer que grande parte dessa nova e mais sadia atuação jornalística se deve à descoberta, pela Folha, da independência como formidável artigo jornalístico. Creio que só isso já bastaria para justificar uma cátedra chamada Octavio Frias de Oliveira.
"Um País Aberto"
Autor: Vários
Editora: Publifolha
Páginas: 204
Quanto: R$ 29
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha.
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