Livro discute princípios e ética da clonagem humana e de animais; leia capítulo
da Folha Online
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| Livro aborda clonagem do ponto de vista biológico, ético e moral |
Leia a seguir o primeiro capítulo de "Clones" da série "Folha Explica". O livro mostra os caminhos que levaram ao desenvolvimento da clonagem em organismos superiores e as possíveis aplicações e conseqüências desta tecnologia, tanto do ponto de vista biológico quanto do ético e moral, sobretudo no que diz respeito à clonagem humana.
A obra é assinada por Marcia Lachtermacher-Triunfol, doutora em genética humana, editora associada na American Association for the Advancement of Science/Science Magazine e fundadora da ONG O DNA Vai à Escola.
- Leia resenha"O fascínio dos clones" publicada à época do lançamento do livro
Como o nome indica, a série "Folha Explica" ambiciona explicar os assuntos tratados e fazê-lo em um contexto brasileiro: cada livro oferece ao leitor condições não só para que fique bem informado, mas para que possa refletir sobre o tema, de uma perspectiva atual e consciente das circunstâncias do país.
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Confira a introdução do "Folha Explica Clones":
O período que se estendeu do final do século 19 ao início do século 20 foi marcado por grande prosperidade agrícola nos EUA. Nessa época, quase 50% da população era constituída de fazendeiros e lavradores, a maioria imigrantes recém-chegados. A agricultura americana estava cada vez mais mecanizada, sendo responsável por 58% de todas as exportações do país. A competição era grande entre os produtores, que realizavam extensivos cruzamentos de plantas, na esperança de criar organismos mais resistentes a insetos e pragas, aumentando assim a produtividade. Esse desenvolvimento foi acompanhado pelo avanço no conhecimento e na produção científicos1.
Foi em meio a esse frenesi científico que, em 1903, Herbert J. Webber, do Departamento de Agricultura dos EUA, chamou a atenção para a necessidade de criar termos para os fenômenos naturais observados na lavoura2. Segundo o próprio Webber conta, ele vinha por dois anos conversando com amigos e pedindo sugestões de um termo que se aplicasse às plantas que se propagam vegetativamente (ou seja, sem a existência de cruzamentos). Para Webber, a planta crescida de partes de outra planta não seria um indivíduo, no sentido comum da palavra, mas sim partes transplantadas daquele outro indivíduo. Do ponto de vista biológico, fisiológico e hereditário, essa planta constituiria o mesmo indivíduo.
Apesar de não ser muito fã do uso de termos gregos e latinos para designar os fenômenos biológicos, Webber aceitou de um colega, Mr. Coook, também do Departamento de Agricultura, a sugestão de usar a palavra clon. Ela tem origem no grego kl'vn, que significa "divisão" e "broto".Ainda bem que Webber deu ouvidos ao colega, porque até então o melhor termo sugerido havia sido strace, criado por Webber da junção das palavras inglesas strain ("linhagem") e race ("raça").
De acordo com a definição de Webber, os clons seriam grupos de plantas propagadas por qualquer tipo de forma vegetativa (como bulbos ou enxertos, por exemplo), constituindo partes do mesmo indivíduo. A definição se limitava às plantas, não incluindo outros grupos de organismos. Em 1905, Charles Louis Pollard, em carta enviada ao editor da revista americana Science,3 sugeriu que o termo clon fosse modificado para clone, por motivos fonéticos e filológicos.
Em 1912, buscando uma designação adequada para "grupo de organismos que possuem o mesmo fenótipo" (isto é, grupo de organismos que têm igual aparência), George H. Shull4 propôs a adoção do mesmo termo. Segundo Shull, "clone" seria um grupo de indivíduos rastreável pela reprodução assexuada até um único ancestral comum. É interessante notar que, para Shull, o clone jamais seria um indivíduo, mas sim um grupo. Em pouco tempo, o termo era usado para todas as formas vivas em que há propagação de novos indivíduos de modo assexuado.
Nos anos 60, com o nascimento da engenharia genética, a palavra "clone" passou a ser usada também para os fragmentos de DNA inseridos no interior de uma bactéria e propagados de forma assexuada. Desse modo, a clonagem de um gene num "vetor"5, prática muito popular nos anos 80 e 90, referia-se principalmente à introdução de um fragmento de DNA correspondente a um gene no interior de uma bactéria, célula de levedura ou mesmo célula de organismo superior. Hoje, "clone" designa não só a cópia e propagação de apenas um fragmento de DNA ou gene, mas também todo o conjunto que forma o chamado genoma, o DNA nuclear de um organismo.
Dolly, Noah e Outros Clones
Dolly, Noah, Marguerite, Vitória e alguns outros são animais especiais. Seu nascimento foi aguardado com ansiedade e curiosidade. Suas genitoras receberam cuidados especiais, e as gestações foram acompanhadas dia e noite por veterinários, cientistas, técnicos e curiosos. Dolly, Noah, Marguerite e Vitória são animais especiais porque compartilham (ou compartilharam, no caso dos que já morreram) uma qualidade rara, fruto de muito trabalho, pesquisa e experimento. Esses animais --todos eles clones-- representam o que há de mais audacioso na pesquisa biomédica moderna e são a prova de que já era tempo de rever um antigo dogma da biologia.
Durante muitos anos, os cientistas acreditaram que as células de um indivíduo adulto já estariam com seu destino traçado e não poderiam ser reprogramadas. Mas nos anos 50, como até os dogmas da ciência estão sujeitos à curiosidade humana, iniciaram-se os primeiros experimentos de clonagem em sapos. Meio século se passou até que Dolly, o primeiro animal clonado de uma célula adulta de outro indivíduo, nascesse na Escócia6.
As primeiras reações do público ao nascimento de Dolly foram de espanto, fascínio, curiosidade --e, também, preocupação. Pelo menos do ponto de vista técnico, era apenas a primeira indicação de que talvez um dia a clonagem de seres humanos fosse possível. Logo se concluiu que a clonagem possibilitaria criar seres humanos sem necessidade da reprodução sexual, permitindo também que se produzisse grande número de indivíduos iguais do ponto de vista genético.
Poucos dias após o nascimento de Dolly, o debate sobre a clonagem humana virou assunto urgente, e tomaram-se algumas medidas de curto prazo. Nos EUA, o então presidente Bill Clinton reuniu a recém-formada Comissão Nacional de Bioética para deliberar sobre a clonagem humana. Em apenas três meses, definiu-se que toda pesquisa voltada para clonagem humana seria banida naquele país e que não se forneceriam verbas federais para esse tipo de pesquisa. Muitos outros países já adotaram medidas semelhantes.
Essa precaução é conseqüência das diversas questões éticas levantadas pela possibilidade da clonagem humana. Há grande preocupação de que ela infrinja os princípios de autonomia, dignidade e individualidade e seja prejudicial aos indivíduos porventura
gerados. A individualidade humana não é apenas questão de princípios; em termos biológicos, ela representa diversidade biológica, já que todo indivíduo é único não somente em seus sonhos, desejos e personalidade, mas também em seu patrimônio genético. A diversidade biológica é fundamental para a sobrevivência de nossa espécie, e a clonagem humana, se realizada em larga escala, poderia constituir uma ameaça à espécie, pois diminuiria a variabilidade genética de nossa população.
Por representar uma ameaça à espécie, mesmo que em escala limitada, não é de surpreender que a clonagem humana apresente também valor moral. Várias questões humanas que implicam valor biológico implicam também valor moral e, muitas vezes, até religioso - mesmo que tal valor não tenha sido estabelecido com base no conhecimento biológico. Qual o valor biológico de condenar o incesto ou o canibalismo? O incesto aumenta a possibilidade de que a descendência gerada acumule grande número de genes deletérios, ameaçando sua sobrevivência. Ingerir sangue humano pode causar várias doenças letais, conforme demonstrou recentemente um grupo do University College, de Londres, ao propor que o canibalismo praticado por indivíduos de certa parte da Nova Guiné seja o grande responsável por uma doença neurológica fatal, freqüente na região7.
Neste livro, veremos os caminhos que levaram ao desenvolvimento da clonagem em organismos superiores e as possíveis aplicações e conseqüências dessa tecnologia, tanto do ponto de vista biológico quanto do ético e moral, sobretudo no que diz respeito à clonagem humana.
1 Para um interessante histórico do desenvolvimento agrícola americano, ver o site do Departamento de Agricultura dos EUA: www.usda.gov/history2/text5.htm
2 Webber, "New Horticultural and Agricultural Terms". Science, 459, v. 18 (1903); p. 501-3.
3 Pollard, "On the Spelling of Clon". Science, 551, v. 22 (1905); p. 87-8.
4 Shull, "Phenotype and Clone". Science, 892, v. 35 (1912); p.182-3.
5 Vetor: organismo (geralmente plasmídeo ou vírus) utilizado como veículo para a transferência de nova informação genética num organismo.
6 I. Wilmut et al., "Viable Offspring Derived from Fetal and Adult Mammalian Cells". Nature, 385 (1997); p. 810-3.
7 Elizabeth Pennisi, "Cannibalism and Prion Disease May Have Been Rampant in Ancient Humans". Science, 300 (April 11, 2003); p. 227-8.
"Folha Explica Os Clones"
Autor: Marcia Lachtermachter-Triunfol
Editora: Publifolha
Páginas: 112
Quanto: R$ 18,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha
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