Publifolha
20/10/2009 - 12h02

Histórias reais formam livro que discute o trabalho infantil no país; leia trecho

da Folha Online

Histórias reais, fruto de 14 anos de reportagens em que o jornalista Ari Cipola travou contato com os maiores bolsões de pobreza brasileiros, estão no livro "O Trabalho Infantil", da coleção "Folha Explica". O primeiro capítulo pode ser lido abaixo.

Divulgação
14 anos de reportagens estão no livro da coleção Folha Explica
14 anos de reportagens estão no livro da coleção Folha Explica

No livro, Cipola não se limitou a contar o drama dos milhões de crianças, obrigadas a trabalhar precocemente. Ele relatou ainda a bem-sucedida mobilização da sociedade contra a exploração da mão-de-obra infantil, responsável por acordos, elogiados mundialmente, envolvendo empresas, sindicatos e governos.

A obra traz, ainda, números precisos e alarmantes sobre o trabalho infantil --a preocupação didática, aliás, torna o material valioso para uso em sala de aula.

Ari Cipola (1962-2004) trabalhou na Agência Folha de 1986 a 2000 e foi diretor do jornal "Tribuna de Alagoas", entre outros cargos. Em 1997, recebeu o título de "Jornalista Amigo da Criança" (Unicef/Abrinq/Andi) e, em 1999, o Prêmio Esso de Jornalismo. Morreu em 19 de novembro de 2004, vítima de um ataque cardíaco.

Como o nome indica, a série "Folha Explica" ambiciona explicar os assuntos tratados e fazê-lo em um contexto brasileiro: cada livro oferece ao leitor condições não só para que fique bem informado, mas para que possa refletir sobre o tema, de uma perspectiva atual e consciente das circunstâncias do país.

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Conhecer a amplitude do trabalho infantil requer um mergulho sem volta no mais repelente círculo criado pela humanidade: o da miséria. A presença indevida desses trabalhadores-mirins e adolescentes deixa suas marcas em quase tudo o que nos cerca.

A espiral da pobreza produz histórias de vidas indignas, longe de terem um final feliz. Elas sinalizam uma banalização da existência.

Algumas dessas vidas estão brevemente relatadas neste texto, que incorpora partes de entrevistas e reportagens feitas ao longo de 14 anos de convivência com bolsões de pobreza; também serviram de base estudos de diversas instituições. Nelas, as vítimas da exploração lutam pela sobrevivência desde meninos e com a arma imprópria e ilegal do trabalho.

Nas próximas páginas, não haverá, portanto, crianças bem vestidas, brincando em praças ou clubes, nem pequenos astros de telenovela --apesar de a polêmica ao redor da regulamentação da situação trabalhista destes ser muito atual.

Estima-se que 250 milhões de crianças trabalham no planeta, quase sempre em funções que impossibilitam o desenvolvimento integral, o que é condenável de todos os aspectos. O trabalho infanto-juvenil é muito disseminado nos países pobres e quase inexistente nos ricos.

O fenômeno não é apenas da modernidade. Há referências na Bíblia à exploração de crianças escravas. Este livro não estuda o trabalho infantil ao longo da história, mas são conhecidos os abusos que tiveram lugar durante a Revolução Industrial, por exemplo, entre outros períodos nefastos para a situação das crianças. A opção, aqui, foi centrar o debate na situação brasileira contemporânea.

O primeiro capítulo revela a vida de quatro grupos diferentes de trabalhadores-mirins, cujas vidas são relatadas do ponto de vista individual. Essas histórias servem para indicar o quanto as formas de trabalho infantil são múltiplas. E mostram como estão presentes tanto no meio rural quanto no urbano.

As piores formas de trabalho infantil, aquelas em que as crianças se vêem penalizadas por excesso de força empregada, riscos à saúde e ao desenvolvimento delas, são o grande alvo das ações de combate.

O trabalho infantil é uma conseqüência do passivo social criado ao longo dos anos, indicam os estudos mencionados no texto. O governo brasileiro, em pleno início do século 21, teima em se dizer impotente para erradicá-lo. Alega que o volume da exploração e das desigualdades sociais é superior ao que arrecada o caixa da União e aos recursos criativos de toda a inteligência nacional.

Em razão disso, são 866 mil crianças (de sete a 14 anos) alistadas como trabalhadoras no país. Isso apenas nas chamadas piores formas e excluindo-se as prostitutas-mirins, que não foram contadas pelos órgãos oficiais.

Perto de três em cada dez crianças que trabalham na América Latina são brasileiras. Esses números assustaram a comunidade mundial, e o Brasil foi, portanto, um dos primeiros países a receber, no início dos anos 90, um programa internacional específico para combater o trabalho infantil.

Embalados pela recuperação econômica inicial do Plano Real, os resultados foram excelentes até 1996. Depois, apesar de o governo e as entidades terem criado vários mecanismos de proteção e programas específicos, a redução da utilização de mão-de-obra infantil no país estagnou. A trajetória de conscientização, a luta pela erradicação do trabalho infantil no Brasil e os principais programas criados estão resumidos nos capítulos 3, 4 e 5.

Para os que ainda acreditam que a proibição do trabalho infantil reduz a renda das famílias carentes e as chances futuras das próprias crianças, o último capítulo apresenta um estudo comprovando, com base em análise e cruzamento de dados oficiais, que o trabalho infantil empobrece as pessoas e o país.

Ou seja: quanto mais cedo a pessoa se tornar economicamente ativa, menor será a sua renda ao final de 30 anos de trabalho. Também será menor seu grau de escolaridade.
Sem delegar às crianças um cotidiano de estudo, esporte, cultura, brincadeira e afeto, o trabalho infantil continuará sendo um tema em evidência no país, merecendo todos os esforços possíveis para sua erradicação.

"O Trabalho Infantil"
Autor: Ari Cipola
Editora: Publifolha
Páginas: 96
Quanto: R$ 18,90
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha