Ricupero explica Alca sem maniqueísmo em livro
MARCIO AITH
Editor de Dinheiro da Folha de S.Paulo
Escrever um livro sobre a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) esbarra num obstáculo prosaico: ela ainda não existe e talvez nunca seja criada.
| Reprodução |
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| "Folha Explica A Alca", da Publifolha |
Apesar disso, o embaixador Rubens Ricupero, secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas Sobre Comércio e Desenvolvimento), transformou o desafio numa oportunidade para explicar, sem maniqueísmo, as entranhas de negociações multilaterais de comércio e o significado da disparidade de poderio dos atores envolvidos nas negociações em curso nas Américas.
Ricupero mostra, em "Folha Explica a Alca", porque a proposta "cristaliza todos os pesadelos".
Cerca de 800 milhões de pessoas vivem nos 34 países do continente (com exceção de Cuba). Em números aproximados, o PIB dos EUA representa 80% do total das economias da região. O do Canadá, 6%, e o do Brasil, 5%.
Nas últimas semanas, o Brasil, com apoio da Argentina, ensaiou proposta para estender por dois anos o prazo oficial de conclusão das negociações, previsto para 2005. Em resposta, os EUA disseram que podem trocar a Alca por acordos bilaterais em sua estratégia para acelerar a integração comercial hemisférica, considerada inevitável pela Casa Branca.
Colunista da Folha, Ricupero mostra como a resistência brasileira tem paralelos históricos. Países passam a defender o livre comércio apenas quando alcançam o pleno desenvolvimento industrial. Os EUA recém-independentes, por exemplo, tomaram com ceticismo as propostas de livre comércio do Reino Unido, então líder na Revolução Industrial.
Alexander Hamilton, o primeiro secretário do Tesouro, escreveu uma refutação pioneira das bases da teoria do livre comércio de Adam Smith. Hoje, Hamilton seria "atropelado" pelo negociador comercial americano, Robert Zoellick.
A disparidade de poderio econômico está na base dos conflitos que cercam a Alca. Para alguns, segundo mostra Ricupero, "ela não passa de uma das peças do 'Império' americano para estabelecer 'a nova ordem internacional' amparada no monopólio do poder". Para outros, é preciso entendê-la de forma pragmática. É preciso estudá-la na prática, buscar brechas e aproveitar oportunidades. "Em negociações como as da Alca", escreve o autor, "trata-se não apenas de ganhar acesso aos mercados de outros parceiros mas também de evitar perder ou ver reduzido esse acesso".
O livro também é útil a iniciantes em temas de comércio internacional. Seu texto, por exemplo, trata com didatismo as diferenças entre acordos de livre comércio (como o Nafta, que reúne os EUA, o Canadá e o México) e uniões aduaneiras (como o Mercosul, que engloba o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai).
Além disso, explica as razões pelas quais o Brasil terá enorme dificuldade em impor sua agenda nas negociações enquanto os EUA se negarem a colocar na mesa assuntos como subsídios agrícolas, defesa comercial, antidumping e política de concorrência.
"A curto prazo, parece remota a possibilidade de alcançar os objetivos definidos pelas autoridades e pelos empresários brasileiros em matéria de acesso a mercado", escreve o autor.
Ricupero também não poupa críticas ao governo e aos empresários brasileiros, que, segundo ele, ainda não produziram informações suficientes para concluirmos se a Alca vale a pena. "Talvez não seja tarde demais", sugere.
"Folha Explica A Alca"
Autor: Rubens Ricupero
Editora: Publifolha
Páginas: 104
Quanto: R$ 17,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha
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