Publifolha
19/02/2008 - 08h10

Veja como conciliar os sonhos de carreira e a realidade do trabalho

da Folha Online

Leia um capítulo do livro "Sutras do Trabalho", da Publifolha. O livro mostra o que as insatisfações sobre a vida profissional podem revelar sobre as pessoas. Leve, de leitura agradável e irônico, o texto expõe o tema e na seqüência sugere uma possível solução para o estresse vivido.

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Livro ajuda a aumentar a consciência espiritual no trabalho
Livro ajuda a aumentar a consciência espiritual no trabalho

O trecho a seguir fala sobre sonhos.

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O sonho que desapareceu

palavra-chave: sonhos

Eis aqui sete palavras que eu considero das mais infelizes:"vou me formar em História da Arte". Assim que as ouço, geralmente da boca de uma mulher inteligente e talentosa, penso: "Pobre coitada. Ela adora Arte, adora a Beleza, vai acabar em um emprego de escritório inteiramente discrepante e se perguntará como é que chegou ali, porque nunca encontrará nada da área dela".

Então penso:"Não, talvez ela se dê melhor do que eu.Quem sabe vai encontrar um emprego de curadora no Metropolitan e viver feliz para sempre na Quinta Avenida". Claro, esses são os vestígios da minha própria amargura a suportável mas inarredável amargura de uma antiga estudante de arte que não ganha a vida nessa área. Isso acontece muito, porque, como todos sabemos, existem pouquíssimas oportunidades de emprego em arte. Qualquer estudante de arte sabe que, quando se formar, terminará a procura da beleza e começará a procura de salário terminará o sonho e começará a realidade.

Sem dúvida, os estudantes de arte não são os únicos engolidos pela realidade.Você conhece quantos formados em filosofia que trabalham como filósofos? Quantos formados em matemática que ganham a vida com matemática? As coisas que fazemos por amor raramente são as coisas que fazemos por dinheiro. O que eu quero saber é: O que acontece com o amor? Quanto dele levamos, se é que levamos, para o trabalho que nos dá a renda? Será possível conciliar os sonhos da juventude com a vida profissional adulta?

Sei que são perguntas fortes. Meu amigo James, que nunca quis outra coisa senão ser músico, trabalhou durante anos como trompetista autônomo. Essa vida era um desafio, pois ele viajava muito e precisava ter grande resistência física. (Um trompetista precisa ter pulmões de atleta, lábios de bom amante e dentes de aço, entre outros quesitos.) James adorava o trabalho, mas depois de alguns anos o mercado minguou e os serviços tornaram-se raros. Com mulher e filho para sustentar, ele pendurou o trompete e encontrou outro trabalho, na área comercial do setor de música. Achou que tinha tido sorte por trabalhar com música, mas nunca mais chegou perto do trompete.

Na verdade, passaram-se anos até que ele conseguiu se sentar para ouvir música por prazer. Ele não suportava isso, pois o fazia reviver os sentimentos profundos que o haviam levado a ser músico. Embora não se arrependesse de ter deixado a vida de autônomo, ele não conseguia deixar de se considerar um artista fracassado. Pode-se seguir em outras direções, mas amor perdido é amor perdido.

Mesmo que você insista ao máximo em uma carreira sonhada, mesmo que esteja convicto de que tem feito o melhor possível, é doloroso ter de abandoná-la. Arrisco-me a dizer que muitos nem insistem tanto nos sonhos e que esse fracasso pode machucar ainda mais. Passam a vida imaginando que talvez pudessem ter tentado mais.

Meu primo Martin, por exemplo, tem um caso doloroso de um velho sonho não realizado. Quando era garoto, queria ser ator ou comediante algo que fosse deslumbrante, criativo e divertido.

Ele sem dúvida tinha queda para isso. Sempre foi o espirituoso da classe, o tipo de criança que fazia os pais darem risada mesmo quando tentavam repreendê-lo. Quando fez dez anos, Martin cometeu o erro de contar ao pai que queria ser artista. O pai lhe disse sem rodeios que ele não tinha talento para isso e não devia nem tentar, porque não daria certo. "Você é lerdo", lembra-se ele que o pai dizia."Vai sempre ter de dar muito duro para ganhar a vida."

Acho que algumas crianças devem ter interpretado coisas assim como um desafio e se empenharam para mostrar que o pai estava errado, mas Martin, que idolatrava o pai, se deixou vencer. Se estava fadado a ser lerdo, então ele progrediria penosamente. Na faculdade, destacou-se nas artes cênicas, dirigiu uma pequena emissora de rádio e até escreveu peças. Mas nunca tentou de verdade a carreira artística.

Em vez disso, formou-se em comunicações e aceitou uma série de empregos "estáveis" em empresas, que lhe davam certo grau de sucesso e segurança, mas o deixavam morto de tédio. Ele sente falta de poder expressar a criatividade bizarra e espirituosa que lhe é vital.Adoraria escrever roteiros para a televisão ou o cinema, mas neste momento ele tem de pagar uma hipoteca e manter dois filhos na faculdade.

Então, Martin trabalha, economiza, faz planos e continua a labutar, decidido a dar aos seus filhos a liberdade de realizar o sonho deles, seja qual for. Ele não é infeliz, mas o seu velho sonho o persegue.Agora na casa dos 40 anos, ele ainda se pergunta: E se eu tivesse ignorado o meu pai e tivesse tentado?

E se, com 20 anos, eu tivesse ido para Hollywood para tentar encontrar um lugar para mim? Martin não está convencido de que teria tido sucesso, mas não consegue se perdoar por não ter tentado. Para ele, os seus sonhos e a realidade nunca se cruzaram, nem mesmo estiveram próximos.

Exceto pela crueldade incomum mostrada por seu pai (que talvez não seja tão incomum), a história de Martin poderia ser a de praticamente qualquer um: a criança, transbordando energia e criatividade, declara que quer ser (preencha o espaço) quando crescer. Os pais, por entenderem que o mundo é um lugar difícil em que poucas pessoas realmente se tornam um (preencha o espaço) bem-sucedido, dirigem a criança para um sonho mais "real".

A criança, cuja alegria da vida lhe foi tirada, acaba superando o sonho "irreal", torna-se um cidadão produtivo e vive na realidade, até feliz, para todo o sempre.A energia e a criatividade da criança se manifestam de outra forma, ou não.

E, caso você esteja se perguntando, sim, isso ocorreu comigo também. Quando eu tinha nove anos, escrevi uma carta ao editor de uma revista tudo bem, era um gibi; tudo bem, era um gibi do Super-Homem (nossa família era intelectualizada) e a mostrei à minha mãe. Fiquei orgulhosa com o humor presunçoso da carta, mas a minha mãe deve tê-lo achado presunçoso demais, pois a rasgou bem na minha frente, resmungando algo sobre o medo de sermos processados se eu a enviasse.

Nunca me esqueci do choque que senti. Não me lembro do que respondi a ela, mas sei que nunca mais tentei escrever nada para publicar e com toda a certeza nunca mostrei nenhum outro texto "criativo" à minha mãe. Em outras palavras, aprendi a me calar.Também nunca me passou pela cabeça o sonho de trabalhar como escritora.

Você poderia dizer que qualquer sonho de carreira é irreal até que se realize.Toda estrela de cinema cresceu querendo ser estrela de cinema, e todos sabemos que isso era irreal.Todas as cantoras líricas queriam ser cantoras líricas; todo grande chefe de cozinha queria ser um grande chefe de cozinha; todo astronauta,um astronauta. Por alguma razão eles tiveram talento, determinação e sorte (não se esqueça da sorte) para vencer, com ou sem o apoio dos pais, e os admiramos por isso. Nós os admiramos por terem tido sonhos tão intensos e irresistíveis que eles não tentaram nada além disso. Sonhos pelos quais eles estavam dispostos a sofrer. A maioria das outras pessoas, por não ter um sonho ou talento tão dominador e intenso, encontra um modo de transigir.

Pretensos romancistas conseguem empregos em que se valoriza o talento para escrever em relações públicas, na redação de discursos, na publicidade e acabam se sentindo orgulhosos da sua destreza nessa arte e frustrados por terem de escrever em nome de outros. Pretensos artistas passam as noites e os fins de semana trabalhando em peças amadoras, e adoram isso. Mas, volto a perguntar, quanto desse amor eles levam ao trabalho diário?

Quanto desse amor se espera que você leve ao seu trabalho? O emprego remunerado tem alguma relação com amor? A própria expressão "trabalho diário" acabou significando trabalho feito por dinheiro mais que por amor, como se o seu lado que ama só pudesse se mostrar à noite. Ótimo. São oito, nove ou dez horas à luz do dia durante as quais você refreia o seu amor, a sua alegria, o seu entusiasmo.

Martin e o seu pai viciado em trabalho foram criados para acreditar que a responsabilidade financeira tem precedência sobre a felicidade pessoal, como se as duas se excluíssem mutuamente: trabalho é um horror, mas é preciso trabalhar, e quanto mais se trabalha mais pontos se ganha, com pontos extras para quem estraga a saúde fazendo isso. Se você olhar em volta, vai ver um monte de gente compenetrada em ganhar pontos com o chefe.

São pessoas que se orgulham do trabalho, mas a maior parte da alegria delas desapareceu no confronto entre os sonhos da infância e a realidade do mundo adulto.

Não vou lhe dizer aqui que a solução para o tormento do trabalho diário é achar um jeito de ganhar a vida com o que você adora fazer. Há diversos livros de auto-ajuda que pretendem revelar a você como fazer isso, e não tenho nada contra, embora acredite que é bem difícil adaptar a vida profissional para fazer aquilo que se ama, contando que gere dinheiro.Você pode até ficar faminto de tanto esperar pelo dinheiro. E, em todo caso, descobrir como trabalhar com o que se ama é um projeto grande e demorado. Como você usa o amor no dia que está à sua frente, o único que você tem na realidade?

Exercício: Sonhando no batente

Em um momento tranqüilo, sem distrações, pense na carreira com que você sonhava quando criança, adolescente ou no início da vida adulta. Não se censure mesmo que seja uma coisa completamente inexeqüível, como, por exemplo, ser caubói. Quero que você se lembre de como era sentir-se apaixonado pela idéia de fazer determinada coisa. Reserve um tempo para voltar a sentir isso: querer dançar, cantar, representar, escrever, desenterrar ossos de dinossauro, cavalgar, comandar um safári, jogar basquete ou esquiar nas Olimpíadas. Ou querer ler o dia inteiro e escutar música a noite inteira.

Saiba que você talvez resista a esses sentimentos, principalmente se foi um sonho que você tentou realizar com seriedade.
Como eu disse, os sonhos abandonados provocam mágoa, e lembrá-los pode ser doloroso.Talvez você se condene por ter fracassado ou até por ter se atrevido a sonhar. É aí que você precisa dizer a si mesmo: "Não importa o fracasso. Importa o que amei, e amar é a coisa mais fundamental que eu faço. Quando tive esse sonho, ousei amar, e isso é por si só uma espécie de sucesso".

Marque horários para reviver o seu sonho, e a cada vez resista à tentação de se julgar. Em vez disso, concentre-se na sensação que lhe dá a idéia de fazer algo que você adora. Diga a si mesmo: "Tenho o direito de sentir esse amor". Seja essa pessoa capaz de amar. Isso não é pouco; é bastante mesmo. Acho até que é a única coisa que existe. No momento em que você reviver o seu sonho, quero que tente algo realmente radical. Pergunte-se: "O que aconteceria se eu fosse por inteiro o sonhador inclusive ao trabalho?". Repito que não proponho que você se sente à sua mesa desejando ser um caubói. Proponho que você faça um esforço consciente para expressar no seu trabalho a sua paixão particular e inimitável.

Digamos, por exemplo, que você já quis ser ator. Da próxima vez que tentar explicar o seu ponto de vista em uma reunião, pergunte-se:"O que um ator faria agora?". O ator dentro de você talvez fique um pouco mais ereto, fale com mais clareza e de modo mais convincente e faça um esforço maior para conquistar a platéia.

Afinal, o fato de que você sonhou ser ator indica que um lado seu queria transmitir algo importante, atrair a atenção, estar na berlinda.Você pode fazer tudo isso sem ter registro de ator no ministério do trabalho.
Digamos que você certa vez sonhou ser médico.Devem existir dezenas de oportunidades em qualquer dia de trabalho para que você se pergunte:"O que um médico faria agora?".

O que o cantor que está dentro de você faria? Ou o poeta? Ou o arqueólogo? Ou o político? Você não saberá se não se perguntar. Martin, por exemplo, passou a mostrar mais sua veia cômica inata nas reuniões empresariais. Ele tem o dom de surpreender as pessoas e descobriu que isso pode dar mais vida a uma apresentação enfadonha. Pode não ter a carreira de artista com que sempre sonhou, mas já começou a formar um fã-clube no escritório.

Lembre-se: se você alguma vez fechou a porta a um sonho, você fechou a porta a um lado seu essencial a uma energia vital, à alegria. Dizer que você fracassou é uma evasiva, um artifício para não voltar a se aproximar de sentimentos dolorosos. Mas o amor primeiro não foi doloroso; foi prazeroso, e você precisa dele na vida. Diga a si mesmo: "Essa alegria continua em mim. Preciso dela. Eu a quero agora na minha vida".

Obviamente, este exercício vai lhe dar uma consciência mais aguçada de como você se sente no seu trabalho atual. Resista à tentação de se punir por não adorar cada instante do trabalho (é claro que você não adora). Em vez disso, pergunte-se: "Quantas vezes durante o trabalho eu consigo sentir a minha capacidade de amar? Acredito que o amor faz parte do trabalho?". Faz, sem dúvida. Houve dias em que eu realmente detestei o meu trabalho, mas me senti renovada com um inesperado, repentino surto de amor por um colega. Digo por experiência própria que, quando as coisas ficam difíceis no trabalho, o sentimento de amor, de qualquer forma que se manifeste, é o que de melhor e mais verdadeiro se pode ter.

Mantra para os dias ruins
Preciso daquilo que só os sonhos têm.
E os imbecis que mandam neste lugar também
precisam, mesmo que não saibam disso.

"Sutras do Trabalho"
Autor: Marcia Menter
Editora: Publifolha
Páginas: 192
Quanto: R$ 27,00
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha