Obra tenta explicar originalidade de Dorival Caymmi
da Folha Online
Com sua obra concisa e rigorosa, Dorival Caymmi tem um conjunto de canções intensamente original, mas paradoxalmente tão familiar que chega a confundir-se com o anonimato. Muitas dessas canções são clássicos que moram na memória coletiva e ajudaram a construir a identidade brasileira.
| Reprodução |
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| Livro reúne a história dos sambas e traz discografia |
Mais um volume da série "Folha Explica", "Dorival Caymmi" reúne a história dos sambas "sacudidos", as canções praieiras e os sambas-canção do compositor. Assinado por Francisco Bosco, o livro inclui discografia e cronologia desse grande mestre da canção brasileira.
Francisco Bosco é ensaísta, letrista e escritor. É autor de "Da Amizade" (Rio de Janeiro: 7Letras, 2003), entre outros, doutorando em teoria literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e colunista das revistas "Argumento" e "Cult".
Como o nome indica, a série "Folha Explica" ambiciona explicar os assuntos tratados e fazê-lo em um contexto brasileiro: cada livro oferece ao leitor condições não só para que fique bem informado, mas para que possa refletir sobre o tema, de uma perspectiva atual e consciente das circunstâncias do país.
Para saber quais os livros da coleção "Folha Explica" cujos primeiros capítulos já foram publicados, clique aqui.
Veja a introdução do "Folha Explica Dorival Caymmi":
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Dorival Caymmi completou, em abril de 2006, 92 anos. Apesar das limitações físicas, conserva ainda hoje certa terna alegria para com a vida, uma abertura generosa para os presentes que a existência pode lhe oferecer. Foi sempre, assumidamente, um homem avesso ao amargor. Quando seus cabelos embranqueceram completamente, por volta dos cinqüenta anos, sua figura passou a traduzir um dos paradoxos de sua obra: a um tempo jovem e ancestral, sestroso e experiente, doce e sábio, Caymmi tornou-se então, fisicamente, aquilo que sua música sempre foi para nós, brasileiros, desde o início: o Pai, próximo e inacessível, a quem tratamos com intimidade e profunda reverência.
Jovem (pelo vigor, pela alegria, pela felicidade, pela originalidade) e ancestral (pela verdade profunda que parece revelar), a obra de Caymmi continua a produzir em nós o efeito contraditório de seus próprios paradoxos: diante dela quedamos espantados e familiarizados, reconhecendo não apenas o que não fora feito, como, sobretudo, traço distintivo de todo grande artista, o que não poderia ter sido feito. O que antes do feito não o indicava; o que o feito, mesmo já feito, não explica.
Mais paradoxos: em algum lugar entre a natureza e a cultura, a tradição e a invenção, a história e o anacrônico, a obra de Caymmi guarda um mistério tanto mais recôndito quanto mais exposto, na simplicidade plenamente oferta de suas canções. Há algo de Eurídice nessas canções tão abertas: como no episódio do mito de Orfeu, corremos sempre o risco de perdê-las ao tentar olhá-las de frente. Não porque morram, mas porque continuam a nos encarar sem que consigamos fazer outra coisa senão repeti-las, nota a nota, palavra a palavra, num uníssono que vai do sentimento mais íntimo à experiência brasileira, tudo revelando e nada explicando.
É também por isso que a estratégia de abordagem da obra de Caymmi neste livro tende a ser aquela --para aludir a uma categoria da análise literária-- do wide reading: leitura (leitura-escuta, pois se trata de pensar a canção) ampla, no lugar do close reading minucioso e, aqui, nesse caso, talvez paralisante. Não é que não se possa investigar detalhadamente as canções de Caymmi; sempre se pode. Mas não é por acaso que o sentido geral da estratégia adotada por Antonio Risério, em seu extraordinário livro sobre Caymmi,1 seja também o da escala vasta, cruzando saberes, comparando a obra do compositor baiano com as de seus contemporâneos cancionistas e com as de diversos escritores da tradição da literatura ocidental, a fim de fazer ressair, indiretamente, a diferença específica da obra caymmiana.
Assim, este estudo procurará, de forma sempre concisa, relacionar a obra de Caymmi com questões decisivas da cultura brasileira, com a experiência histórica do Brasil, com a época moderna, com a tradição da música popular brasileira, ao mesmo tempo em que tentará aproximar-se, propriamente, da obra caymmiana, revelando seus procedimentos, suas características, suas inflexões, a arte, em suma, do cancionista; espera-se que dessa forma se possa ajudar a esclarecer --e, em o fazendo, reafirmar-- a singularidade desse conjunto precioso de canções.
Antonio Risério, Caymmi: Uma Utopia de Lugar. São Paulo/Salvador: Perspectiva/Copene, 1993.
"Folha Explica Dorival Caymmi"
Autor: Francisco Bosco
Editora: Publifolha
Páginas: 120
Quanto: R$ 17,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha
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