Publifolha
24/02/2009 - 18h40

PUBLIFOLHA: Livro relaciona obra de Dorival Caymmi com questões da cultura brasileira

da Folha Online

Com sua obra concisa e rigorosa, Dorival Caymmi (1914-2008) deixou como legado um conjunto de canções intensamente original, diferente da obra de qualquer outro artista nacional ou estrangeiro. Paradoxalmente, muitas dessas canções são clássicos que pertencem à memória coletiva e que ajudaram a construir a identidade brasileira. Soam tão familiares que parecem ter existido "desde sempre".

Reprodução
Compositor Dorival Caymmi morreu aos 94 anos; veja mais fotos
Livro reúne a história dos sambas e traz discografia

O livro "Dorival Caymmi", volume da série "Folha Explica" (Publifolha) examina de forma dinâmica os sambas "sacudidos", as canções praieiras e os sambas-canção de Caymmi. E relaciona a obra do compositor com questões decisivas da cultura brasileira, com a experiência histórica do Brasil, com a época moderna e com a tradição da música popular brasileira.

O autor do livro é Francisco Bosco, ensaísta, letrista e escritor, colunista das revistas "Argumento" e "Cult". Bosco diz que o livro também tenta revelar os procedimentos, as características, as inflexões e a arte do cancionista. O objetivo, segundo Bosco, é "ajudar a esclarecer --e, em o fazendo, reafirmar-- a singularidade desse conjunto precioso de canções". O volume inclui discografia e cronologia do grande mestre da canção brasileira.

Como o nome indica, a série "Folha Explica" ambiciona explicar os assuntos tratados e fazê-lo em um contexto brasileiro: cada livro oferece ao leitor condições não só para que fique bem informado, mas para que possa refletir sobre o tema, de uma perspectiva atual e consciente das circunstâncias do país.

Leia a introdução do "Folha Explica Dorival Caymmi":

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

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Dorival Caymmi completou, em abril de 2006, 92 anos. Apesar das limitações físicas, conserva ainda hoje certa terna alegria para com a vida, uma abertura generosa para os presentes que a existência pode lhe oferecer. Foi sempre, assumidamente, um homem avesso ao amargor. Quando seus cabelos embranqueceram completamente, por volta dos cinqüenta anos, sua figura passou a traduzir um dos paradoxos de sua obra: a um tempo jovem e ancestral, sestroso e experiente, doce e sábio, Caymmi tornou-se então, fisicamente, aquilo que sua música sempre foi para nós, brasileiros, desde o início: o Pai, próximo e inacessível, a quem tratamos com intimidade e profunda reverência.

Jovem (pelo vigor, pela alegria, pela felicidade, pela originalidade) e ancestral (pela verdade profunda que parece revelar), a obra de Caymmi continua a produzir em nós o efeito contraditório de seus próprios paradoxos: diante dela quedamos espantados e familiarizados, reconhecendo não apenas o que não fora feito, como, sobretudo, traço distintivo de todo grande artista, o que não poderia ter sido feito. O que antes do feito não o indicava; o que o feito, mesmo já feito, não explica.

Mais paradoxos: em algum lugar entre a natureza e a cultura, a tradição e a invenção, a história e o anacrônico, a obra de Caymmi guarda um mistério tanto mais recôndito quanto mais exposto, na simplicidade plenamente oferta de suas canções. Há algo de Eurídice nessas canções tão abertas: como no episódio do mito de Orfeu, corremos sempre o risco de perdê-las ao tentar olhá-las de frente. Não porque morram, mas porque continuam a nos encarar sem que consigamos fazer outra coisa senão repeti-las, nota a nota, palavra a palavra, num uníssono que vai do sentimento mais íntimo à experiência brasileira, tudo revelando e nada explicando.

É também por isso que a estratégia de abordagem da obra de Caymmi neste livro tende a ser aquela --para aludir a uma categoria da análise literária-- do wide reading: leitura (leitura-escuta, pois se trata de pensar a canção) ampla, no lugar do close reading minucioso e, aqui, nesse caso, talvez paralisante. Não é que não se possa investigar detalhadamente as canções de Caymmi; sempre se pode. Mas não é por acaso que o sentido geral da estratégia adotada por Antonio Risério, em seu extraordinário livro sobre Caymmi,1 seja também o da escala vasta, cruzando saberes, comparando a obra do compositor baiano com as de seus contemporâneos cancionistas e com as de diversos escritores da tradição da literatura ocidental, a fim de fazer ressair, indiretamente, a diferença específica da obra caymmiana.

Assim, este estudo procurará, de forma sempre concisa, relacionar a obra de Caymmi com questões decisivas da cultura brasileira, com a experiência histórica do Brasil, com a época moderna, com a tradição da música popular brasileira, ao mesmo tempo em que tentará aproximar-se, propriamente, da obra caymmiana, revelando seus procedimentos, suas características, suas inflexões, a arte, em suma, do cancionista; espera-se que dessa forma se possa ajudar a esclarecer --e, em o fazendo, reafirmar-- a singularidade desse conjunto precioso de canções.

Antonio Risério, Caymmi: Uma Utopia de Lugar. São Paulo/Salvador: Perspectiva/Copene, 1993.

"Folha Explica Dorival Caymmi"
Autor: Francisco Bosco
Editora: Publifolha
Páginas: 120
Quanto: R$ 18,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha