Publifolha
11/03/2008 - 08h55

Livro mostra análise da obra do escritor Manuel Bandeira; leia introdução

da Folha Online

Carlos Drummond de Andrade, João Cabral do Melo Neto, Chico Buarque, a poesia brasileira é abundante de nomes que revelam as facetas e a diversidade nacional nas letras. Um dos nomes mais importantes da literatura brasileira neste gênero é Manuel Bandeira, cujo primeiro livro, "A Cinza das Horas" foi publicado há 90 anos, em edição custeada pelo autor. Leia a seguir introdução do livro.

Reprodução
Livro explica a importância das poesias de Manoel Bandeira
Livro explica a importância e a obra do poeta Manuel Bandeira

A importância do escritor é medida e analisada no livro "Manuel Bandeira", da série "Folha Explica", da Publifolha.

O autor do volume é o professor de literatura Murilo Marcondes de Moura, da USP.

Bandeira nasceu em Recife, 1886, morreu em 1968 e ao longo de seus 82 anos, produziu com uma regularidade impressionante. Seus poemas foram inspirados por cenas do cotidiano, frases inspiradas de boteco, bulas de remédio, notícias de jornal.

-Leia resenha "'Poeta 100%' é o mais completo de todos os tempos", de Xico Sá, publicada à época do lançamento do livro.

Com requinte e simplicidade, ele acompanhou as principais vanguardas de sua época, que o tornaram um poeta único.

*

Introdução

Manuel Bandeira (1886-1968) foi lido por Machado de Assis e sobreviveu a Guimarães Rosa. A afirmação soa como um disparate, mas é verdadeira e pode dar a medida do longo intervalo de tempo em que o poeta pernambucano atuou na poesia brasileira.

Efetivamente, quando Bandeira publicou seu primeiro livro (A Cinza das Horas, 1917), Olavo Bilac e Alphonsus de Guimaraens ainda estavam vivos; já em 1966, por ocasião dos seus 80 anos, quando surgiu a primeira edição da Estrela da Vida Inteira, última reunião de sua obra em verso, ocorria também a estréia de Cacaso (A Palavra Cerzida), e Paulo Leminski já tinha publicado os seus primeiros poemas.

Entre esses dois extremos, sintetizando muito, Bandeira teve participação decisiva na consolidação da poesia modernista, e sua correspondência com o amigo Mário de Andrade pode ser lida como uma autêntica poética do movimento. Dialogou estreitamente também com os poetas que estrearam em 1930, ou se afirmaram ao longo da década, em particular Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt e Vinícius de Moraes; posteriormente, vieram as relações com João Cabral de Melo Neto (que lhe dedicaria A Educação Pela Pedra, em 1966) e mesmo com alguns poetas da Geração de 45. Enfim, acompanhou de perto os movimentos poéticos que despontaram no final da década de 50, em especial a poesia concreta.

Esse espaço de tempo é tanto dilatado quanto singular, pois é comunicante entre a tradição e a modernidade: "São João Batista do modernismo"1 ou "clássico do modernismo" são caracterizações do poeta que parecem considerar essa atuação, por um lado embebida nas concepções de poesia do século 19, quando não mais recuadas, e, por outro, já resolutamente vinculada ao "direito à pesquisa estética", um dos princípios básicos do nosso modernismo, segundo Mário de Andrade.

Evidentemente, essa propriedade da poesia de Manuel Bandeira não deve ser confundida com mero ecletismo formal, como se a obra poética do autor consistisse numa espécie de bazar de estilos, desde o neoparnasianismo e/ou neo-simbolismo do início até as experiências de sabor concretista, passando pelo modernismo ostensivo de Libertinagem (1930) e assim por diante.

Houve naturalmente um adensamento na concepção e na prática de poesia de Manuel Bandeira ao longo do tempo, mas seria grande equívoco considerar sua trajetória como evolução retilínea, em que modos antigos de composição foram sucessivamente descartados, até a última e mais atual maneira. O sentimento da forma em Bandeira, poeta culto e refinado, era ao mesmo tempo exigente e inclusivo e não admitia tais setorizações, mesmo porque ele foi um mestre precisamente na multiplicidade de técnicas e na "mistura de estilos". Como afirmou Sergio Buarque de Holanda, "um censor superficial e desatento falaria em versatilidade a propósito da aptidão com que essa poesia se ajusta a todos os compassos, mas isso não explica a unidade profunda que subsiste em tudo quanto escreveu Manuel Bandeira. Unidade na variedade"2.

O próprio Bandeira tem diversas declarações preciosas a respeito dessa convivência, notável em sua trajetória, entre os procedimentos poéticos de vanguarda e aqueles herdados da tradição: "Chamo poeta 100% o poeta que sabe nadar em todas as águas: no oceano em completo perpétuo movimento do verso livre e nos blocos congelados da forma fixa" 3, ou, ainda, "as orientações modernistas foram muitas e em alguns pontos contraditórias: a que me parecia melhor era a que procurava conciliar as duas forças em eterno conflito na vida - tradição e renovação"4.

Bem a propósito, podemos citar o elogio de um de seus maiores admiradores, Carlos Drummond de Andrade: "Bandeira tinha uma variedade de interesses literários e foi um mestre em todas as formas de poesia. Assim, através de sua poesia, podemos, inclusive, entender melhor o percurso da própria poesia brasileira"5.

É como se o poeta tivesse encontrado um lugar - raro, pelo risco do difuso - em que já perde o sentido a distinção muito estrita entre formas convencionais e formas inventadas. A poesia torna-se assim uma manifestação sempre arrebatadora e necessária, capaz de incorporar com naturalidade técnicas as mais variadas. Quem sabe não seja esse o horizonte do moderno propriamente dito, já distinto do modernismo de combate, em que uma das manifestações possíveis da liberdade de experimentar seria o diálogo também afirmativo com a tradição.

O objetivo deste estudo é contar, em linhas gerais, justamente a história dessa poesia, acompanhando seu desenvolvimento cronológico. Nesta exposição, a ênfase foi dada à leitura de poemas e também à investigação de algumas imagens e motivos recorrentes na obra de Manuel Bandeira. Ao longo do processo, uma outra história acabou se insinuando espontaneamente: a das leituras da poesia de Manuel Bandeira. Nesse sentido, houve uma profusão de citações, e, a rigor, muitas outras deveriam ter sido feitas, caso houvesse espaço para tanto. Para proporcionar uma leitura mais fluente do texto, poucas notas foram a ele agregadas - apenas as estritamente necessárias para a identificação dos trechos.

1 A expressão é de Mário de Andrade, apud Mário da Silva Brito, Poesia do Modernismo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968; p. 59)
2 "Poesias Completas de Manuel Bandeira", em: O Espírito e a Letra, v. I, org. Antonio Arnoni Prado (São Paulo: Companhia das Letras, 1996; p. 282).
3 Carta a Alphonsus de Guimaraens Filho, 19/10/1941, em: Itinerários. Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Cartas a Alphonsus de Guimaraens Filho (São Paulo: Duas Cidades, 1974; p. 81).
4 Ver entrevista de Bandeira em: Homero Senna, República das Letras (Rio de Janeiro: Gráfica Olímpica, 1968; p. 58).
5 "Manuel Bandeira: Lembranças e Impressões", em: Maximiano de Carvalho e Silva (org.), Homenagem a Manuel Bandeira, 1986-1988 (Niterói: UFF/Presença, 1989; p. 5).

'Manuel Bandeira'
Autor: Murilo Marcondes de Moura
Editora: Publifolha
Páginas: 104
Quanto: R$ 17,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha

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