Publifolha
23/04/2007 - 19h45

Confira primeiro capítulo de "A Banda do Companheiro Mágico"

da Folha Online

Leia abaixo o primeiro capítulo do livro "A Banda do Companheiro Mágico", editado pela Publifolha.

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Divulgação
Capa do livro "A Banda do Companheiro Mágico", de Antonio Risério
Livro "A Banda do Companheiro Mágico", de Antonio Risério

Com o automóvel atravessando a Paralela à noite, no mês de junho, não raro a chuva gira em danças e contradanças pelo ar. Voa vira e revira nos rodopios do vento. Dá chicotadas. Passa em ondulações suaves de cobra. Ou vem se lançando em rajadas no pára-brisa do carro, para desfazer, em água sobre vidro, o desenho mais ou menos nítido das luzes da avenida. Do outro lado do canteiro central, pelas pistas que deslizam em direção ao aeroporto, Portão e Busca Vida, faróis acesos clareiam espaços, trechos dos caminhos de dona chuva por entre as árvores, os postos de gasolina, os viadutos, prédios e passarelas.

Agora, no entanto, não estamos na Paralela. Não é noite. Não é junho. Mas manhã de meados do mês de novembro. Manhã feia e fria, de céu carregado, cobrindo e escurecendo toda a cidade.

Dentro do ônibus, Rebeca Rabinovitz cobre com uma jaqueta vermelha a blusa de sua farda colegial azul e branca, cor do céu de verão quando a chuva não vem. Rebeca desiste do livro. Tenta ver o lá fora, através da janela embaçada. Os carros não se movem, a não ser pelos poucos centímetros que disputam entre si. Buzinas fazem disparos nervosos. Ou soam longas como alarmes falsos de improváveis incêndios. Para nada. Vai ser impossível chegar no colégio às sete e meia, conclui Rebeca. Porque chove. Chove sem parar. Quatro dias já de nuvens cheias, desatando. Alagando ruas e avenidas. Abrindo buracos. Inundando becos. Arrastando barrancos e barracos. Quatro dias de imóveis se movendo nas encostas instáveis da cidade. Dezenas e dezenas de deslizamentos de terra. Duas mortes. Alguns feridos nos bairros mais pobres da periferia.

Também Roberta, a morena Roberta, instalada no último banco da van que faz o transporte escolar, se desconcentra da leitura do capítulo de Geografia, matéria da prova de hoje. Não consegue atravessar o parágrafo que fala de investimentos produtivos e globalização. Lembrase das notícias de ontem à noite na internet. Uma leva de desabrigados. Os sem-teto forçando abrigos, ocupando casas vazias ou abandonadas, invadindo conjuntos habitacionais inacabados, de onde são expulsos, escorraçados pela polícia. Quatro dias de crianças encharcadas, tossindo, chorando pela noite fechada, cheia de lama.

Sob a marquise de um prédio, Ravi procura se proteger do aguaceiro. Enfia na mochila o livro que Julinho emprestou. Mas o tênis preto e a barra do jeans já estão molhados, começando a pesar. A seu lado, sob a marquise, uma senhora gorducha, com cara de uns 40 anos de idade, alterna olhares aflitos e resignados. E um homem sujo, quase sem dentes, coça a cabeça. Pobre, muito pobre, está enfiado numa velha saia plissada, que procurou disfarçar em bermuda. "Nós somos os sem-carro, os sem-transporte, os sem-calça", pensa Ravi, sorrindo leve para si mesmo, sempre na véspera de fazer uma brincadeira qualquer com o mundo. Está esperando a passagem do carro da mãe de Isabel, que lhe prometeu a carona, mas deve estar presa num ponto qualquer desse tráfego que não trafega, encalacrado, sob a chuva.

Rebeca pensa nos mapas de meteorologia do Jornal Nacional, com a moça repetindo várias vezes, ao longo do ano, a mesma frase. Chove na faixa escura que vai do litoral do Espírito Santo ao litoral de Pernambuco. Roberta se inquieta. Se era para estudar, melhor que fosse Literatura ou História e não Geografia. Mas há que fechar a prova. É o que conta. E, ano que vem, vestibular. "Puta que o pariu, como chove nesta cidade", repete Ravi, ensaiando já uma nova redação, a fim de surpreender e seduzir a professora de Literatura.

Chove no Brasil Atlântico Central. Chove mais ainda no Recôncavo Baiano. Chove ainda mais na capital baiana. Chove sem cessar na falha geológica de Salvador. Chove, chove, chove. Cidade de chuvas densas. Cidade das águas bruscas.

"A Banda do Companheiro Mágico"
Autor: Antônio Risério
Editora: Publifolha
Páginas: 94
Quanto: R$ 22,00
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha