Publifolha
23/04/2007 - 20h32

Leia uma crônica de "Tempo Medido"

da Folha Online

Leia a seguir a crônica "Não desisto nunca", do livro "Tempo Medido" da Publifolha.

*

Não desisto nunca

22 de setembro de 2004

Divulgação
"Tempo Medido" reúne as 101 melhores crônicas de Marcelo Coelho
Livro reúne as 101 melhores crônicas de Marcelo Coelho

Às vezes leio coisas na internet, esqueço de imprimir ou de anotar a fonte, e depois já não sei se a notícia era de verdade, se era trote, ou se foi puro delírio de minha parte.

Por exemplo: noticiou-se que já está escalado o novo personagem que irá simbolizar a tal campanha publicitária do "sou brasileiro, não desisto nunca". Trata-se de um jovem, ex-menino de rua, que agora estuda, trabalha e tem sucesso profissional. O que certamente constitui um bom exemplo para todos. Acontece que, antes disso, o rapaz se destacara por ter tentado fugir mais de 200 vezes da Febem.

Será que eu estava lendo algum site humorístico? Qual o maior exemplo de persistência cívica: superar as deficiências sociais de origem ou tentar fugir repetidas vezes da instituição, que supostamente cuida do "bem-estar do menor"?

Os publicitários poderiam até organizar uma cena bonita. Penso no encontro de dois brasileiros "que não desistem nunca" a saber, o jovem fugitivo e o seu carcereiro, também dotado, imagino, de admirável tenacidade na manutenção da ordem prisional. Para terminar o anúncio, um close na bandeira do Brasil, com o lema tremulando: "ordem" (o carcereiro) e "progresso" (o trânsfuga, agora self-made man). Põe self-made nisso, aliás.

Não, eu devia estar delirando quando li. De qualquer modo, a campanha se presta a incontáveis aplicações e sugere muitos personagens. Contém sua dose de homenagem ao presidente Lula, que é brasileiro e só foi eleito depois de várias tentativas.

Desse ângulo, entretanto, o lema do "não desisto nunca" abriga generosamente políticos de todas as tendências: a célebre e em geral malquista obstinação de Paulo Maluf, por exemplo, passa a receber uma coloração bastante favorável.

Mais do que no mundo competitivo da política ou do esporte onde o lema tem sido evocado a qualquer pretexto, é no mundo econômico que a idéia do "não desisto nunca" parece fazer mais sentido. Não penso propriamente no cidadão desempregado: imagino que a frase lhe seja de pouca inspiração. Se todos os dias ele sai de casa à procura de emprego, se sempre bate com a cara na porta da fábrica, se teima em abrir a página de anúncios do jornal, obviamente se trata de alguém que "não desiste nunca"; saber que esta é uma característica do bom brasileiro não é nenhum alívio.

O lema encontra eco mais provável na mentalidade do pequeno empresário, que reclama dos fiscais e dos impostos, e ainda assim mantém o seu negócio, à falta de melhor alternativa. É também a voz do profissional liberal, pelos mesmos motivos; e acima de tudo é a voz dos profissionais de publicidade, que principalmente em períodos de retração econômica conhecem o valor das técnicas da insistência, da redundância, da repetição.

Desemprego? Retração econômica? Faço uso de termos infelizes, um tanto ultrapassados pelos fatos: notícias em torno do aquecimento da economia se acumulam há meses nos jornais. Acho que não é preciso ser muito pessimista, entretanto, para ter em mente a quantidade de vezes, nos últimos 20 anos, em que os sinais de retomada do desenvolvimento logo eram desmentidos por algum imprevisto internacional de grandes proporções.

O sobe-e-desce dos juros parece feito de encomenda para desorientar as expectativas gerais. "Agora vai!", pensamos todos nós, que não esquecemos os índices de crescimento econômico dos tempos do milagre coisa acima de 10% ao ano. "Não foi desta vez", repete-se a cada ano que passa.

É assim que, longe de expressar um dinamismo heróico e construtivo, a idéia do "não desisto nunca" tem um componente de muito mais passividade do que faz supor à primeira vista. Do que é que eu não desisto nunca? De tocar minha vida, contra ventos e marés? Mas a alternativa seria o suicídio, a ruína, o naufrágio.

Ou será que é mais abstrato o apelo desse slogan? "Sou brasileiro, não desisto nunca de acreditar no país, e de acreditar no que dizem dele." A saber: que este é o país do futuro, que dias melhores virão, que a esperança é a última que morre... O brasileiro que não desiste nunca é aquele que continua apostando na Mega-Sena, por exemplo, apesar de reduzidíssimas as chances de vitória. Trata-se de um esperançoso, mas não propriamente de um lutador.

A vantagem do slogan está precisamente aí: faz da paciência e da submissão do brasileiro um prodígio de combatividade e inconformismo. Todos se reconhecem como maratonistas olímpicos sem que precisem sair do lugar.

A não ser em caso de emigração o que não é fenômeno tão raro, aliás, o brasileiro ainda não desistiu daqui. Transforma-se em mérito moral uma contingência geográfica. Do mesmo modo, no nacionalismo tradicional o Brasil sempre foi destinado a um grande futuro por força de suas florestas, rios, praias e cadeias de montanhas.

A atual voga nacionalista reproduz os mitos de sempre. Reveste-se, entretanto, de um verniz mais bajulatório, publicitário e "democrático", se comparada a iniciativas de outros tempos. "Sou brasileiro, não desisto nunca": o lema traduz para a primeira pessoa o famigerado e antigo mote da ditadura: "Brasil, ame-o ou deixe-o".

Os marqueteiros de hoje não impõem ao público um suposto e truculento "amor à pátria". Apostam no nosso narcisismo, a que chamam de auto-estima; mas o velho e o novo slogan têm o mesmo subtexto: desistir você não vai, deixar o país você não pode, de modo que é melhor você agüentar tudo quietinho. Sorria: você agüenta tão bem que terminará se orgulhando disso.

"Tempo Medido"
Autor: Marcelo Coelho
Editora: Publifolha
Páginas: 400
Quanto: R$ 39
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 e no site da Publifolha

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