Publifolha
04/05/2007 - 15h47

Leitor reencontra universo de Clarice Lispector; leia introdução

da Folha Online

Há mais de 30 anos o Brasil perdeu Clarice Lispector, mas as sensações descritas com maestria pela escritora continuam a reverberar em quem as lê. Quem se interessa ou pretende conhecer melhor a escritora pode contar com o livro "Clarice Lispector", da série "Folha Explica", editada pela Publifolha. Abaixo se encontra o texto introdutório do livro.

Reprodução
Livro traz perfil da vida e obra da escritora de origem ucraniana
Livro traz perfil da vida e obra da escritora de origem ucraniana

Nascida em 10 de dezembro de 1920 em Tchechelnik, na Ucrânia, a escritora morreu no dia 9 de dezembro de 1977, no Rio de Janeiro. Veio ainda bebê para o Brasil, sob o nome de Haia Lispector. No país, quase todos os membros da família mudaram de nome. A caçula da família passa de Haia para Clarice. De origem judaica, a escritora não falava o ídiche, cresceu no Nordeste, mudou para o Rio de Janeiro e viveu em diversos países, como mulher de diplomata.

"Com perdão da palavra, sou um mistério para mim", o trecho de "A Descoberta do Mundo", inquieta, é uma destas frases que ressoam no espelho. Clarice é um mistério para muita gente, um rosto de beleza singular, da juventude à maturidade.

O livro "Clarice Lispector", escrito por Yudith Rosenbaum, professora de literatura brasileira na Universidade de São Paulo, autora de "Metamorfoses do Mal: uma Leitura de Clarice Lispector", apresenta a obra da escritora em linguagem acessível.

A época da escritora, seus romances, contos e o essencial de sua vida estão na publicação, sem pender para um relato biográfico da vida da escritora. A obra discute os textos de Lispector e ajuda a compor um panorama de sua contribuição literária.

Leia abaixo a introdução de "Clarice Lispector".

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Introdução: Vestígios de uma identidade

Sou uma iniciada sem seita.
Água Viva (1973)

O surgimento de Clarice Lispector (1920-77) no cenário literário brasileiro dos anos 40 representou um verdadeiro choque para críticos e leitores da época. E continua sendo até hoje uma experiência, no limite, indecifrável, seja para seu público cativo, seja para os que dela se aproximam pela primeira vez. Daí, talvez, as centenas de artigos, ensaios e teses que rondam sua obra, tentando decifrar o que, afinal, provocaria tanto fascínio para alguns e tanto mal-estar e perplexidade para outros. Mitificada ou rejeitada ao longo de mais de 30 anos de produção literária - passando por romances, contos, crônicas e livros infantis -, a mulher e escritora Clarice Lispector resiste a todas as tentativas de enquadramentos, classificações ou definições. O que ela pensava da vida talvez pudesse estender-se a sua própria pessoa: "O mundo me parece uma coisa vasta demais e sem síntese possível".1

Em vários depoimentos, entrevistas e cartas, ela insistia em preservar-se, mas frustrava as expectativas de que fosse uma personalidade misteriosa ou exótica: "Levo uma vida muito corriqueira. Crio meus filhos. Cuido da casa. Gosto de ver meus amigos. O resto é mito".2

A amiga e confidente Olga Borelli, que partilhou do cotidiano de Clarice Lispector nos últimos anos de vida da autora, confirma: "Ela era uma dona-de-casa que escrevia romances e contos".3 Com a máquina de escrever no colo, produzia seus livros com os filhos ao redor, atendendo ao telefone, chamando a empregada e recebendo os amigos.

Mesmo tendo evitado expor sua intimidade ao público, Clarice Lispector fez de seus textos um vasto itinerário de uma identidade inquieta e turbulenta, inadaptável às expectativas sociais, obsessiva na captura de si mesma e do outro, desmascarando, sob o verniz do cotidiano, um mundo de desejos e fantasias inconfessáveis. É possível conhecê-la através de inúmeros vestígios, indícios e revelações, dispersos sob as falas de tantas personagens, narradores implícitos ou interpostos, ou ainda nos vários fragmentos -- espécies de epigrama e aforismo -- que aparecem infiltrados num corpo textual incomum. A literatura de uma das mais importantes escritoras brasileiras está, portanto, muito além da simplicidade doméstica que seu cotidiano faz crer.

Se é verdade que sua vida não primou por aventuras espetaculares, seus textos fizeram dessa contingência a maior marca. Diz a autora: "Meus livros, infelizmente para mim, não são superlotados de fatos e sim da repercussão dos fatos nos indivíduos".4 Serão também as ressonâncias de seus escritos que nos levarão a um possível perfil da própria escritora e, sobretudo, às complexas relações entre realidade e linguagem presentes em sua obra, inéditas na época em que a autora surgiu.

Desejo de pertencer

Clarice Lispector nasceu em Tchechelnik, uma aldeia da Ucrânia, quando a família emigrava da Rússia para a América, fugindo da perseguição aos judeus após a Revolução Bolchevique de 1917. Os pais hesitaram entre os EUA e o Brasil e acabaram aportando em Maceió, capital de Alagoas, em 1921. Clarice Lispector tinha então dois meses de idade, sendo a menor de três irmãs. Em 1924, a família muda-se para Recife, onde reside por nove anos. É nesse período, recém-alfabetizada, que Clarice Lispector descobre a literatura: "quando eu aprendi a ler e escrever, eu devorava os livros! [...] Eu pensava que livro é como árvore, como bicho: coisa que nasce! Não descobria que era um autor! Lá pelas tantas, eu descobri que era um autor. Aí disse: 'Eu também quero'".5

A pequena escritora, então com sete anos, começa a mandar contos para a seção infantil do Diário de Pernambuco, que nunca os publicará. "As outras crianças eram publicadas e eu não", relembra Clarice. "Logo compreendi por quê: elas contavam histórias, uma anedota, acontecimentos. Ao passo que eu relatava sensações? coisas vagas."6

Esse mesmo episódio, o primeiro de uma série de desencontros entre o universo ficcional da autora e o mundo das convenções literárias, será matéria da crônica "Era uma Vez", que foi publicada em 1964 no volume A Legião Estrangeira 7 (e que reaparecerá no Jornal do Brasil, em 1972, com o título "Ainda Impossível"). Nessa crônica, a autora, já adulta, pensa "estar pronta para o verdadeiro 'era uma vez'" e tenta apenas relatar um acontecimento: "No entanto, ao ter escrito a primeira frase, vi imediatamente que ainda me era impossível. Eu havia escrito: 'Era uma vez um pássaro, meu Deus'".

É desse assombro constante do ato de narrar diante da realidade, sempre impossível e inatingível pela palavra, que a obra clariciana irá tratar, convulsiva e reiteradamente. Ao leitor, restará deixar-se conduzir por uma escritura errante, que alude ao inexprimível, à zona obscura do que a palavra não pode expressar, como se lê nesta passagem do romance Água Viva: "Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que eu te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão".8

Não só sua escrita se faz pelo avesso - sendo a escuta do que se cala ou a visão do que se oculta -, mas a própria versão que a autora traz de seu nascimento revela uma "falha" de origem, um desvio fundante que a acompanhará vida afora e que ela chama de uma "espécie de solidão de não pertencer". A palavra é de Clarice, numa de suas crônicas: "fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdôo".9

A mãe de Clarice, Marieta, sofria de uma paralisia progressiva que a tornou inválida, até morrer, em 1930. O pai, Pedro, era mascate e teve uma vida marcada pela pobreza. Uma das frases iniciais da mesma crônica - "Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer" - torna-se um veio importante na compreensão da vida e da obra de Clarice Lispector. Imigrante russa, nunca se sentiu russa, e nem sequer falava a língua iídiche dos pais. Os "erres" de sua língua presa confundiam os ouvintes, que pensavam tratar-se de uma francesa. O judaísmo, por sua vez, era vivido de forma crítica, como declarou a um jornalista um ano antes de morrer: "Eu sou judia, você sabe. Mas não acredito nessa besteira de judeu ser o povo eleito por Deus. Não é coisa nenhuma. Os alemães é que devem ser porque fizeram o que fizeram. Que grande eleição foi essa para os judeus?"10 Sentia-se, sobretudo, brasileira, tendo o português como língua materna. Mas a identidade de si mesma permanecia-lhe obscura, fugidia, e sua escrita parece ter sido sempre uma tentativa de encontrar-se. E perder-se novamente.

Nascida européia, criada nordestina, residente carioca a partir dos 13 anos e, na condição de esposa de diplomata, habitante de vários países (Itália, Suíça, Inglaterra e EUA, entre outros), Clarice Lispector não passaria incólume por tal nomadismo. "Tudo é terra dos outros, onde os outros estão contentes", diria em carta de Berna para a irmã Tânia, em 1946.

Sua diáspora pessoal - exterior e interior - inspirou as falas mais diversas de alguns amigos próximos. Para o escritor Antonio Callado, "Clarice era uma estrangeira na terra". Para o cronista Otto Lara Resende, "era o seu tanto adivinha". Já o amigo e psiquiatra Hélio Pellegrino a via como "vidente e visionária", uma "personalidade lisérgica". O jornalista Paulo Francis, por fim, acabou sendo o mais contundente: "Clarice era uma mulher insolúvel".11

Seja como for, o diálogo possível com a obra dessa escritora terá de fazer-se aos poucos, de forma tateante e fragmentária, de um modo mais alusivo do que afirmativo - como são, na verdade, os seus escritos. Aliás, mesmo querendo desmistificar-se, Clarice estava convicta de que só poderia ser entendida telepaticamente... Para ser fiel a uma escrita que busca não esmagar com palavras as entrelinhas,12 é preciso ler distraidamente, desarmar-se para reconhecer o que ela denomina "o invisível núcleo da realidade" e experimentar o "assustador contato com a tessitura de viver". Mas a referência maior do presente estudo é explicitado pela própria autora: "Se eu tivesse que dar um título à minha vida seria: à procura da própria coisa".13

Como se vê, este pequeno livro introdutório deverá partir de uma desistência -- desistir de "explicar" Clarice. O que se pretende, então, é rastrear algumas linhas de força que marcam sua obra, pouco esquematizável num percurso progressivo ou evolutivo historicamente. Donde a opção por um tratamento mais temático -- estilístico, dentro dos vários gêneros cultivados pela autora. Mesmo essa divisão dos capítulos - sendo dois sobre os romances e dois sobre os contos, precedidos pelo capítulo inicial "Clarice e Seu Tempo", atravessados por alguns trechos de suas crônicas e finalizados por "Relances de Clarice" -- atende apenas à necessidade didática de apresentá-la ao leitor, já que suas preocupações fundamentais, entremeadas a seu estilo inconfundível, não se diferenciam por gêneros nem por épocas. São sempre a mesma personalidade literária e os mesmos motivos recorrentes que estão em jogo, compondo uma espécie de "samba de uma nota só", que ressurge sob disfarces, dissimulações, fingimentos e outras estratégias a serem vistas. Nosso caminho terá a figura da espiral, que convida a revisitar aspectos já abordados para reinscrevê-los numa nova e, ao mesmo tempo, familiar configuração.

1 Olga Borelli, Clarice Lispector: Esboço Para um Possível Retrato. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982; p. 112.
2 Ibidem, p. 435.
3 Ibidem, p. 14.
4 Ibidem, p. 70.
5 Nádia Battella Gotlib, Clarice: uma Vida Que Se Conta. São Paulo: Ática, 1995; p. 87.
6 Ibidem, p. 88.
7 A Legião Estrangeira (Fundo de Gaveta - Parte II). Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1964; p. 140.
8 Água Viva. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980; p. 14.
9 A Descoberta do Mundo. 3. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992; p. 111.
10 Apud Nelson Vieira, "A Expressão Judaica na Obra de Clarice Lispector". Em: Vilma Arêas e Berta Waldman (orgs.), Remate de Males, 9. Campinas: Unicamp, 1989; p. 207.
11 Todos os depoimentos citados estão em Gotlib, op. cit., p. 52-3.
12 "Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas." Em: A Legião Estrangeira, op. cit., p. 137.
13 Ibidem, p. 221.

"Clarice Lispector"
Autor: Yudith Rosenbaum
Editora: Publifolha
Páginas: 112
Quanto: R$ 18,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha