Publifolha
14/01/2008 - 09h03

Professor Pasquale discute o uso do gerúndio em "Inculta e Bela"

da Folha Online

O uso do verbo estar seguido de outro verbo no gerúndio, conhecido também como "gerundismo", tem se tornado cada vez mais comum, principalmente entre atendentes de telemarketing e jogadores de futebol. Afinal, quem nunca ouviu as frases "eu vou estar enviando" ou "eu vou estar fazendo"? Entretanto, este tipo de frase se trata de um vício de linguagem.

Reprodução
Pasquale aborda assuntos do cotidiano e mescla dicas para entender o português
Pasquale mescla assuntos do cotidiano com dicas de português

O professor Pasquale Cipro Neto explica no livro "Inculta e Bela", da Publifolha, por que o uso do gerundismo é errado e dá sugestões para construir melhor uma frase.

*

"Não pude estar comparecendo"

"É de manhã, vem o sol, mas os pingos da chuva que ontem caiu ainda estão a brilhar, ainda estão a dançar, ao vento alegre que me traz esta canção..." Os mais velhos e os jovens de bom gosto certamente conhecem. É o começo de "Estrada do sol", música de Tom Jobim e letra de Dolores Duran. As seqüências "estão a brilhar" e "estão a dançar" não são comuns na fala cotidiana do Brasil. Por aqui o que se usa mesmo é "estão brilhando" e "estão dançando".

Já em Portugal (principalmente de Lisboa até o Norte) essa estrutura (preposição "a" + infinitivo) é mais do que comum. Incomum é o gerúndio. Um diretor da TV Cultura me disse que esteve em Portugal quando as novelas brasileiras começaram a chegar lá e viu nas ruas - acredite se quiser - uma passeata de protesto contra o gerúndio, abundante nas novelas brasileiras. Temiam nossos irmãos portugueses que isso "pegasse". Essas estruturas, no fundo, são equivalentes. E não adianta esperar que brasileiros passem a dizer "ela está a dormir", nem que portugueses digam "ela está dormindo".

O fato é que de repente surgiu no Brasil a esquisita mania de usar o verbo estar seguido de outro verbo no gerúndio. Essa dupla na verdade é um trio, porque sempre vem outro verbo. Algo como "o economista vai estar realizando uma série de palestras".

O que já poderia ser dito com apenas um verbo ("realizará"), ou com dois ("vai realizar"), acaba se transformando numa perífrase (rodeio de palavras) enfadonha. O grande problema é que isso parece chique, tem uma cara de coisa da língua formal, culta, mas não passa de uma grande chatice.

Uma amiga telefonou para a central de atendimento a clientes de um cartão de crédito. Depois de intermináveis "a gente vai estar tentando resolver o seu problema", "a senhora vai estar recebendo um extrato", "uma funcionária vai estar verificando", "a gente vai estar mandando uma cópia para a senhora", a funcionária perguntou: "A senhora pode estar enviando uma cópia do último pagamento?". Irônica, mordaz, minha amiga respondeu: "Estar enviando eu não posso, mas enviar eu posso". Inútil. Pelo que disse em seguida, parece que a funcionária não entendeu a ironia.

Há alguns dias, um jogador do Santos deu entrevista à rádio Jovem Pan. Trata-se de rapaz letrado, bem-falante, de classe média alta, que estudou em bons colégios. Feliz com sua atuação, o jovem atleta ofereceu os gols à mãe. "Mande-lhe uma mensagem", propôs o radialista. O jogador declarou seu amor à genitora e disse: "Desculpe, mãe. Seu aniversário foi ontem, mas eu não pude estar comparecendo à festa".

"Não pude estar comparecendo" é de lascar. Que tal "Não pude comparecer"? Simples e indolor, não? É isso. Cuidado com modismos lingüísticos. Esse cacoete já passou da fala e já freqüenta a língua escrita, com ares de coisa boa. Fuja disso!

"Inculta e Bela"
Autor: Pasquale Cipro Neto
Editora: Publifolha
Páginas: 152
Quanto: R$ 29,90
Onde comprar: Nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha