Publifolha
09/02/2008 - 11h55

Coletânea analisa caminhos da MPB

CARLOS SANDRONI
Especial para a Folha de S.Paulo

A contribuição específica da coletânea "Lendo Música" está em propor textos focados na unidade mínima de sentido da música popular, ou seja, a canção. Como bem nota Arthur Nestrovski em sua introdução, apesar da desproporção entre a importância da música popular no Brasil e a ainda relativamente pequena bibliografia sobre o tema, esta vem crescendo nos últimos anos.

Divulgação
Livro traz ensaios que interpretam e comentam canções populares brasileiras
Livro traz ensaios que interpretam canções populares brasileiras

Tal bibliografia no entanto ainda dedica pouco espaço ao estudo de canções específicas, privilegiando, em vez, os gêneros, autores e/ou intérpretes. A grande exceção é Luiz Tatit, que em sua obra de estudioso sempre dedicou espaço grande para a análise detalhada de canções específicas.

Outros raros exemplos seriam a análise de "Cajuína" por José Miguel Wisnik ("Cajuína Transcendental" em "Leitura de Poesia", de Alfredo Bosi, ed. Ática) e o livro "Três Canções de Tom Jobim" (de Lorenzo Mammì, Luiz Tatit e Arthur Nestrovski, Cosac Naify).

Panorama expressivo

As dez canções escolhidas formam um panorama expressivo da diversidade musical da canção de consumo na atualidade, incluindo samba, rap, funk, brega e o inclassificável Luiz Tatit (agora em sua faceta de compositor). Ao contrário do que poderia sugerir o projeto de uma "lista de dez", a ênfase é anticanônica. Dos geralmente tidos como "clássicos" da MPB, só encontramos Ari Barroso, Cartola e Caetano Veloso. E a única canção anterior a 1975 é "Aquarela do Brasil".

Se há então um saudável descentramento em relação a gêneros, nomes e épocas de ouro, o mesmo não se pode dizer do quesito geografia. Todas as canções estudadas foram produzidas no eixo Rio-São Paulo, mesmo que seus autores venham de outros pontos do país -o que não faz jus à tendência regionalista que tem marcado a produção de música popular desde os anos 1990. Note-se, porém, que os ensaístas contactados pelo organizador tiveram total autonomia na escolha de seus temas, o que nos impede de atribuir o perfil final da lista a qualquer premeditação.

Não é possível comentar aqui todos os ensaios. Mas um ponto que reaparece de maneira mais ou menos explícita em vários deles é o do "fim da canção tal como a conhecemos". A idéia, lembra Francisco Bosco, foi expressa de maneira emblemática por ninguém menos que Chico Buarque em entrevista a esta Folha (em 26 de dezembro de 2004).

Em seu aspecto mais óbvio, ela diz respeito à importância assumida pelo rap, que, ao minimizar o parâmetro "melodia", teria posto em xeque um dos pilares da canção. Mas, generalizada, ela se relaciona também ao hiato, assinalado por Hermano Vianna e Samuel Araújo, entre a "imensa repercussão social" de alguns dos novos ou não tão novos gêneros de música popular, e a parcela da mídia e do público identificada com a MPB, entendida como padrão de bom gosto, como nosso classicismo tupiniquim. Um classicismo já posto irremediavelmente no passado, mesmo e sobretudo na perspectiva de seus mais irredutíveis cultores, como sugere Lorenzo Mammì no belo ensaio que fecha a coletânea.

Sim, talvez o coro esteja afinal desafinando, talvez o refrão não seja mais unânime. Mas quando terá sido? Pensando bem, será que fomos, algum dia, realmente emepebistas?

Em todo caso, o variado panorama traçado por esta coletânea ajuda a espantar qualquer pessimismo. Clássicos ou maneiristas, bregas ou b-boys, ele nos mostra ainda e por muito tempo seguindo as canções -para as mais variadas, inesperadas e opostas direções.

TRECHO

"Quanto à geração de Chico, pós-bossa nova, trata-se de um conjunto bastante heterogêneo de cancionistas, músicos e intérpretes, com pelo menos três linhas de frente, bastante diversas e eventualmente até opostas: os tropicalistas, a MPB e a jovem guarda. Coabitando um mesmo espaço reper-cussivo os festivais da Record, em fins da década de 1960, os cancionistas dessa geração apresentavam obras díspares quanto às relações que estabeleciam com a tradição e a contemporaneidade.
'Grosso modo', os artistas do que veio a se chamar MPB engajavam-se (...) numa linha de forte matiz político".

"Lendo Música: 10 ensaios sobre 10 canções"
Organizador: Arthur Nestrovski
Editora: Publifolha
Páginas: 240
Quanto: R$ 34,00
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha