Publifolha
02/08/2008 - 09h30

"A Aventura do Dinheiro" reconta episódio bíblico

da Folha Online

Em um dos episódios bíblicos do "Gênesis", José, filho preferido de Jacó, é vendido por seus irmãos para mercadores por 20 moedas. O livro "A Aventura do Dinheiro - Uma Crônica da História Milenar da Moeda", da Publifolha, mostra que a transação nunca poderia ter acontecido da maneira descrita na Bíblia. Quer saber o motivo? Descubra lendo o trecho abaixo do livro.

Reproduçao
Livro conta a história do dinheiro e faz ponte entre arte, filosofia e economia
Livro mostra como o homem criou o dinheiro e narra a saga da moeda

Finalista do Prêmio Jabuti 2001, o livro apresenta uma deliciosa narrativa de como o homem criou a moeda e de como o dinheiro seduziu e afligiu a humanidade através dos séculos, com episódios saborosos envolvendo personalidades históricas e da cultura popular.

Leia abaixo o breve trecho de "A Aventura do Dinheiro" que "reconta" a história bíblica da venda de José aos mercadores.

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A Balança e a Efígie

A moeda vê nascerem a democracia e o bordel; e tem influência na ascensão e queda de Roma.

José, o sonhador, é o filho preferido de Jacó e por isso seus irmãos, inconformados, querem se livrar dele. Tomados por um ódio fratricida, planejam matá-lo e chegam a jogá-lo num poço seco em local ermo. Mudam de idéia, no entanto, ao verem se aproximar uma caravana de mercadores com seus camelos carregados de especiarias. A oportunidade era boa demais para ser desperdiçada: em vez de derramar sangue, poderiam atingir o mesmo objetivo com uma vantagem adicional, vendendo José como escravo. E assim é feito. Concluídas as negociações, recebem vinte moedas de prata e voltam para casa, em Canaã, enquanto o irmão é levado ao Egito.

A história bíblica é bastante conhecida. Está contada no Gênesis, o primeiro dos cinco livros do Antigo Testamento. E contém um erro. Em verdade, naqueles dias, presumivelmente no início do segundo milênio antes de Cristo, ainda não havia moeda, nem na Palestina, nem em qualquer outro lugar do mundo. Os mercadores pagaram com anéis, lingotes ou barras de prata e, qualquer que tenha sido a forma do metal usado na transação, nada havia nele que indicasse o valor das unidades. Ou seja, o metal era apenas uma forma de dinheiro, já que servia para intermediar uma transação, mas não havia recebido a marca distintiva da moeda.

O Departamento de Moedas e Medalhas do Museu Britânico atribui a embrulhada semântica aos tradutores responsáveis pela versão inglesa da Bíblia patrocinada pelo rei Jaime no século 17, considerada, não obstante o lapso, a de melhor qualidade literária naquele idioma. No Brasil, bíblias com o imprimatur da Igreja Católica também se referem equivocadamente a moedas ao relatar o episódio da era patriarcal do povo hebreu.

Do ponto de vista bíblico, talvez a observação seja irrelevante, mas para a história monetária é heresia não fazer distinção entre moedas e simples pedaços de metal precioso sem valor predeterminado. De qualquer maneira, é mesmo a partir do Oriente Médio, o lugar culturalmente mais rico da Antiguidade, que o dinheiro se difunde.

Para que pudesse desempenhar uma das funções do dinheiro, a de servir como meio de pagamento, o metal precisava ser pesado, não apenas uma vez, mas a cada transação e por ambas as partes - comprador e vendedor tinham cada um sua própria balança, cujos contrapesos não eram necessariamente iguais. Se o metal fosse moeda, não precisaria ser pesado, bastaria contar as unidades.

No romance José e Seus Irmãos, o escritor alemão Thomas Mann imagina como o preço teria sido fixado. Foi uma negociação dura, que levou cinco horas, acabando ao anoitecer. Os vendedores pediam trinta peças de prata. Os compradores, em vantagem por terem percebido que os irmãos queriam se livrar de José, ofereciam quinze. E isso significava menos da metade, pois as peças oferecidas pesavam menos que as pretendidas. Embora todas se chamassem siclos, umas eram babilônicas, outras fenícias. Uma confusão! Não é à toa que, na ficção, Mann, prêmio Nobel de Literatura de 1929, reservou um dia inteiro para as partes finalmente fecharem acordo nas tais vinte peças (das mais pesadas).

No aspecto econômico, a ficção é mais fiel à história do que a Bíblia. O siclo a que Mann se refere era a medida básica de peso, mas havia também a mina (60 siclos, usada em transações de vulto, equivalente a mais ou menos meio quilo) e a onça (um terço de siclo, para contas menores). E o que se fazia com essas quantidades de metal? Por 400 siclos, por exemplo, Abraão, o primeiro patriarca dos hebreus, compra, para enterrar sua mulher, Sara, o terreno com a gruta de Macpela, que se transforma no primeiro pedaço de chão dos antepassados de Israel na terra de Canaã.

E um exemplo curioso, que diz mais sobre valores sociais da época: na Mesopotâmia, a multa para quem mordesse o nariz de um homem era 1 mina; um tapa no rosto, considerado menos grave, custava 10 siclos. Nesse contexto, repita-se, siclo é medida de peso, não moeda. Mais tarde viria a se tornar denominação de moeda, numa conexão entre os dois sistemas que era e ainda é comum. Para não ir muito longe, a denominação libra esterlina, moeda atual da Grã-Bretanha, deriva de uma medida de peso, a libra, que equivale a cerca de 450 gramas.

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"A Aventura do Dinheiro"
Autor: Oscar Pilagallo
Editora: Publifolha
Páginas:168
Quanto: R$ 19,90
Onde comprar: Nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou no site da Publifolha